Crítica | Planeta dos Macacos: A Guerra

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estrelas 4

Nenhuma franquia no cinema americano deve ter uma trajetória tão fascinante e imprevisível como a do Planeta dos Macacos. Depois de um excelente primeiro filme, a saga originada do livro de Pierre Boulle rendeu uma série de continuações que variavam do bom até o prazer culposo, duas séries de TV e um remake desastroso pelas mãos de Tim Burton. Tudo ganha uma revolução quando a Fox decide apostar em uma nova guinada da saga de símios, iniciando uma trilogia que explora as origens da dominação planetária, com A Origem e O Confronto tornando-se alguns dos melhores exemplares da franquia até então, mergulhando em um novo nível de drama e estudo de personagem. Seguindo essa linha, Planeta dos Macacos: A Guerra oferece uma satisfatória conclusão para essa nova fase.

A trama começa alguns anos após o final do anterior, com César (Andy Serkis) sendo caçado pelos poucos grupos de humanos presentes na região, agora uma equipe de militares liderado pelo misterioso Coronel (Woody Harrelson), que faz o possível para garantir sua sobrevivência quando o vírus que dizimou a humanidade começa a apresentar um novo efeito colateral: a perda de fala em humanos. Quando César sofre uma perda pessoal em um conflito, ele arma uma missão pessoal para localizar e neutralizar o Coronel, visando encerrar de uma vez por todas a guerra entre humanos e símios.

É basicamente isso. Se Matt Reeves e o roteirista Mark Bomback já haviam oferecido algo muito simplista e direto em O Confronto, eles reduzem ainda mais a escala e os eventos em Guerra, que limita-se a uma jornada de vingança pessoal em uma narrativa sem muitos elementos, núcleos de história ou até mesmo diálogos. Quase todos os 140 minutos de projeção são dedicados à César e o núcleo dos símios, nunca desviando o ponto de vista para algum personagem humano, que ocupam – em maioria – o cargo de antagonismo do longa. Isso garante mais belos e raros momentos no atual cenário do cinema blockbuster americano, onde diversas ações e pensamentos são resolvidos através da linguagem de sinais, olhares ou simples interações corporais; ainda que César tenha a fala muito mais aprimorada neste filme.

Justamente por esses momentos, o primeiro ato e o começo do segundo são os melhores momentos da projeção. A pequena expedição liderada por César, composta de seus companheiros Maurice (Karin Konoval), Rocket (Terry Notary) e Luca (Michael Adamthwaite) é um remanescente forte do cinema western, com o quarteto cavalgando lentamente por paisagens geladas no solo canadense, e especialmente melancólicas pelo fato de estarmos em um ambiente pós-apocalíptico. Dessa forma, conseguimos belíssimas imagens que Reeves e o diretor de fotografia Michael Seresin, garantindo também um bom ritmo e uma atmosfera altamente imersiva – a fantástica trilha sonora de Michael Giacchino também merece créditos na criação desse universo, trazendo uma belíssima valsa como tema final.

A direção de Matt Reeves é um fator que amadurece consideravelmente. Logo na primeira cena, começamos com um longo plano que nos apresenta aos soldados, culminando em um confronto violento e que já nos demonstra como os efeitos visuais estão sobrenaturais: os pelos, olhares e a luz refletem de forma de extremamente realista nos símios, cada vez mais expressivos. Reeves também traz sua mão de suspense de Deixe-me Entrar e Cloverfield para sequências mais tensas, como o primeiro encontro entre César e o Coronel; marcado pelas sombras e os feixes de luz vindos de armas e miras laser, e a grande batalha que encerra a projeção, repleta de pequenos conflitos e clímaxes que agarram o espectador pela garganta. É impossível não se comover.

O problema maior fica mesmo no segundo ato, onde a narrativa toma uma curva que agrada por sua imprevisibilidade, mas acaba pecando em termos de ritmo e duração. Mais centrada no que acontece no núcleo humano, é onde Reeves e Bomback acabam “se esforçando demais” para atingir um nível dramático e melancólico, como se a referência temática e visual ao Holocausto e o Fascismo já não fossem o suficiente por si só – um problema similar que também atingiu Logan, onde o filme parece tentar demais ser algo mais complexo e adulto – ainda que os diálogos do excelente Woody Harrelson façam valer esse esforço. A Guerra funciona justamente em seus momentos mais sutis, e essa exposição acaba prejudicando e atrapalhando o bom ritmo, além de estender demais a duração do filme.

Tirando esse solavanco, Planeta dos Macacos: A Guerra é uma conclusão digna e satisfatória para essa nova trilogia que definitivamente será lembrada como uma das melhores que o cinema americano comercial já viu. Com maior enfoque em dramas pessoais e metamorfoses, a criação de Pierre Boulle nunca esteve melhor representada, e eu realmente espero que essa história não termine aqui.

Planeta dos Macacos: A Guerra (War for the Planet of the Apes) — EUA, 2017
Direção: Matt Reeves
Roteiro: Matt Reeves, Mark Bomback
Elenco: Andy Serkis, Woody Harrelson, Steve Zahn, Karin Konoval, Amiah Miller, Terry Notary, Ty Olosson, Gabriel Chavarria, Michael Adamthwaite
Duração: 140 min

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.