Crítica | Planeta dos Macacos – A Série Completa (1974)

estrelas 4

Há que se dar algum prêmio de insistência e perseverança para a Fox. Ou, talvez, de falta de originalidade, não sei. Mas o fato é que, desde o final da década de 60 (em 1968 para ser exato) o estúdio não parou de lançar filmes passados no universo do Planeta dos Macacos. Tudo começou com o imbatível original de 1968, com talvez um dos finais mais surpreendentes do cinema e continuou com De Volta ao Planeta dos Macacos, de 1970, talvez uma das piores continuações já feitas. Daí em diante, foi de ano em ano: voltou à forma em 1971, com A Fuga do Planeta dos Macacos, caiu novamente – mas não tanto quanto a segunda parte – em 1972, com A Conquista do Planeta dos Macacos e terminou de forma minimamente competente em 1973, com A Batalha do Planeta dos Macacos. Mas Batalha foi só o fim temporário da franquia no cinema, pois a série continuaria na televisão, logo no ano seguinte, com o singelo título Planeta dos Macacos.

Lembro-me viva e saudosamente de ter assistido essa série, mas, provavelmente, na verdade, eu só a vi em alguma reprise do SBT anos depois (provavelmente TVS ainda!) ou quando do lançamento de um ou mais dos cinco telefilmes formados pela junção de episódios dessa série no começo da década de 80. De toda forma, estava curioso para rever a série e tinha a mais absoluta certeza de que seria uma grande porcaria. Assim, antes de rever, fiquei feliz ao notar que só havia 14 episódios no total, pois a série fora cancelada na metade da temporada, ainda em 1974 (foi ao ar nos EUA de setembro a novembro daquele ano), pois dizem que, por um erro estratégico da CBS, ela teria sido lançada em direta concorrência com duas das mais assistidas séries da época da concorrente NBC: Sanford and Son e Chico and the Man.

Mas, então, comecei a assistir e notei que, apesar do previsível baixo orçamento e do artifício de “fuga da semana”, a série tinha roteiros mais sólidos do que poderia esperar. Em termos de estrutura básica, a série conta a história de dois astronautas que viajam para a Terra no futuro (bem na linha do que acontece com Taylor no filme original) e, quando chegam, notam que o mundo está de cabeça para baixo, com os símios como a classe dominante e os humanos como seres inferiores. Os dois astronautas americanos, o Coronel Alan Virdon (Ron Harper) e o Major Peter Burke (James Naughton) logo se juntam a Galen (Roddy McDowall, mais uma vez voltando à máscara de símio evoluído), um jovem chimpanzé que simpatiza com eles e o três saem em fuga desesperada pelo planeta, com o inesquecível gorila General Urko (Mark Lenard, o pai de Spock, em Jornada nas Estrelas) e o Conselheiro Zaius (Booth Colman) ao encalço deles.

Enganam-se aqueles que acham que a série, apesar dos aspectos em comum que tem com os cinco filmes anteriores, é uma continuação direta deles. Na verdade, tecnicamente falando, ela não se encaixa nem no universo “normal” dos símios (que acaba no final do segundo filme) nem na linha temporal paralela criada com a viagem de Cornelius e Zira para o passado em Fuga. Para começar, o ano é 3.095, não 3.978. Mesmo assim, o Dr. Zaius faz menção, no primeiro episódio, a outro astronauta que teria vindo do passado também há 10 anos, ou seja, menciona diretamente Taylor, do primeiro filme. Mas como se estamos 900 anos antes dos acontecimentos do primeiro filme? Além disso, o Zaius da série não tem o mesmo cargo do outro, o que me leva a crer que apenas o nome é igual, mas os personagens são diferentes. Mais ainda, os humanos falam fluentemente na série e não são tratados de maneira tão selvagem pelos símios, tendo permissão até para terem fazendas. Esse aspecto dos humanos até faria muito sentido com o final de Batalha, mas acontece que há cachorros no planeta (eles – e os gatos – não haviam sido extintos pela praga que catalisa os acontecimentos de Conquista?) e, além disso, Virdon e Burke em nenhum momento mencionam Taylor ou Brent, os astronautas das missões dos dois primeiros filmes ou mesmo a viagem ao passado de Cornelius e Zira. Finalmente, em termos geográficos há também uma grande discrepância, com o primeiro filme sendo passado na costa leste americana (em razão da Estátua da Liberdade) e a série na costa oeste.

Em outras palavras, tentar encaixar de verdade essa série nos acontecimentos dos filmes que vieram antes é uma tarefa árdua e que, tenho para mim, não dará frutos. Por sorte, isso pouco importa para a apreciação do material.

O que importa mesmo são os roteiros e o carisma dos quatro personagens principais: Burke e Virdon como representantes da raça humana e Galen e Urko como representantes dos símios.

Comecemos pelos roteiros. Apesar de formuláicos, ou seja, seguirem o padrão de “fuga” ou “perigo da semana”, algo que, aliás, era traço comum das séries de televisão das décadas de 70 e 80, os roteiros de Planeta dos Macacos são sólidos e muito bem construídos, com uma enorme variedade de assuntos. O primeiro episódio (Escape from Tomorrow ou Fuga do Amanhã) estabelece os detalhes básicos da série e é quase desnecessário para quem já está acostumado com a mitologia dos filmes que a precedeu. Mas, passada essa introdução, o que vemos em seguida é uma série de inteligentes embates entre civilizações.

O terceiro episódio, por exemplo, chamado The Trap (A Armadilha), coloca Burke e Urko presos em um buraco de metrô em uma São Francisco em ruínas e eles têm que trabalhar juntos para sair de lá, para o desgosto de ambos. Mas os roteiristas apimentam a “relação” e jogam com as personalidades dos personagens. Burke tem uma certa vaidade maldosa em colocar sal na ferida de Urko ao dar vários exemplos de como os humanos são superiores aos símios. Por outro lado, Urko recusa-se a cooperar enquanto Burke não jure o contrário, mesmo com Urko claramente ciente de que Burke está certo (ele vê um pôster na parede sobre o zoológico da cidade com um gorila atrás das grades e humanos felizes vendo o bicho preso). Outro episódio, The Surgeon (O Cirurgião), coloca Burke e Galen tendo que furtar um livro de medicina humana de Zaius para ajudar uma médica símia a relutantemente extrair uma bala de Virdon, colocando em xeque o funcionamento da ética médica nesse futuro inóspito aos humanos.

Em um episódio que não foi ao ar na época devido à sua temática – The Liberator (O Libertador) – um humano que finge ter poder de um deus quer usar guerra química contra os símios e cabe aos nossos heróis impedir. E, apesar de a série não ter um fim, o último episódio, Up Above the World So High, aborda a questão da capacidade humana para inventar ao mostrar um dos humanos criando uma asa delta. Em outras palavras, os roteiristas deixam uma fresta aberta para concluirmos que os humanos, apesar das circunstâncias em que vivem, talvez, em algum momento, consigam viver em harmonia com os símios ou até tornarem-se a raça dominante do planeta novamente.

Mas os episódios, todos de 49 minutos, são longos demais para sustentar as narrativas que têm e poderiam facilmente ter sido podados, cada um, em 15 minutos. Ok, isso permite aos diretores trabalharem melhor os personagens, mas, por outro lado, alguns capítulos parecem ser longo demais, com extensas e desnecessárias exposições e epílogos vazios. No entanto, apesar da minha certeza de que, depois dos cinco primeiros episódios, já não estaria aguentando mais, fato é que minha atenção ficou presa até o último minuto do 14º episódio.

Incomoda também o fato de que uma linha da narrativa simplesmente desaparece. No primeiro episódio, Virdon faz de tudo para recuperar um disco contendo dados importantes sobre a viagem dos dois para poder lê-lo em algum computador que ainda possa existir nesse mundo. Interessante a possibilidade, mas esse disco é tratado no episódio seguinte e, no terceiro, que ainda fala sobre ele no começo, é completamente esquecido e nunca mais mencionado a partir daí. Será que os roteiristas mudaram de ideia ou ainda tinham planos para essa linha narrativa? Bem, nunca saberemos.

Outra questão que depõe contra a série, mas chega a ser engraçado de tão exagerado, é o “fator MacGyver”. Tudo bem que Virdon e Burke são astronautas e, por isso, têm treinamento superior aos demais mortais e também aceito que Virdon tenha vivido sua infância em uma fazenda, mas daí a torná-los especialistas em tudo que existe é um pouco demais. Eles constroem de bússolas a asas deltas usando ferramentas rudimentares. Sabem arar e fazer o parto de vacas. Sabem como fazer quinino, a cura da malária, tendo inclusive a capacidade de reconhecer a árvore que produz a substância. Sabem fazer exame de sangue para reconhecer o tipo sanguíneo de cada um. Sabem costurar como ninguém. Em suma, em um campeonato, MacGyver perderia feio para a dupla Virdon e Burke. Mas, como eu disse, é tão absurdo que é engraçado.

A série, porém, não seria a mesma coisa não fossem os atores. A interação do Virdon de Harper) e o Burke de Naughton é muito boa. Os dois atores parecem estar se divertindo muito, mas apresentam seriedade quando é necessário. Mark Lenard como Urko é perfeito. Ele faz o malvado padrão, mas de uma maneira tão simpática que é impossível não gostar ou às vezes até torcer pelo personagem. A expressão de frustração de Lenard a cada derrota para Virdon e Burke, mesmo através da pesada máscara de gorila, é impagável.

Mas a cereja no bolo é mesmo Roddy McDowall como Galen, provavelmente seu melhor papel símio. Na série, com o espaço que Galen tem, McDowall teve mais chances de mostrar sua versatilidade do que nos filmes, criando uma personalidade bem própria para o jovem chimpanzé. Galen não é um bobalhão que segue os humanos como se fossem dois deuses. Ele tem suas próprias crenças e, sempre que pode, dá boas e hilárias alfinetadas nos amigos humanos. Além disso, quando é obrigado a envolver-se na ação, Galen – McDowall na verdade – mostra uma versatilidade para se transformar em outros personagens que, novamente, me deixou surpreso. Mesmo sem a tecnologia atual com próteses (vide O Planeta dos Macacos, de 2001) ou captura de performance (como no segundo reboot), Galen, ao usar de subterfúgios para enganar seus pares, parece que realmente está mimetizando outros personagens. Talvez McDowall fosse mesmo um chimpanzé e estava apenas fingindo ser humano…

E a variedade dos símios é outro ponto alto do filme. Apesar do baixíssimo orçamento da série, em que óbvias luvas peludas foram usadas no lugar de próteses, o pouco de dinheiro que havia foi aparentemente empregado na variedade das máscaras dos animais evoluídos. Nem mesmo no primeiro filme vemos algo nessa escala. Cada gorila tem suas características e isso é importante pois, com a introdução de vários personagens novos por capítulo, é essencial que o espectador possa identificá-los rápida e facilmente, não só pelos figurinos. E nisso a equipe de próteses e maquiagem caprichou.

E a trilha de Lalo Schifrin fecha meus comentários sobre os méritos da série. Schifrin, autor da música tema clássica de abertura da série Missão Impossível e das trilhas dos filmes de Dirty Harry, consegue, de maneira muito eficiente, criar uma trilha que lembra – sem copiar – a original de Jerry Goldsmith no filme de 1968. É dramática como a série exige, mas, ao mesmo tempo agradável e memorável.

Só uma curiosidade para quem quiser saber o destino dos astronautas na série, já que a interrupção abrupta na produção não dá nem pistas disso. Em 1981, como brevemente mencionei, cinco telefilmes formados pela junção de 10 episódios da série foram lançados. Quando a ABC os transmitiu, a TV contratou Roddy McDowall para viver um envelhecido Galen abrindo e fechando cada um deles. Lá, Galen revela que Virdon e Burke acham finalmente um computador e desaparecem no espaço de forma tão repentina quanto haviam chegado. Não se pode dizer que isso faz parte da série, pois foi feito pela ABC sem, aparentemente, uma aprovação da Fox e não faz parte do DVD lançado. De toda forma, pelo menos é um fechamento.

Depois de muita conversa, um resumo: essa série de TV é a melhor coisa feita com a mitologia dos macacos desde o primeiro filme e merece muito ser assistida.

*Crítica originalmente publicada em 2011 fora do Plano Crítico. Publicada no site pela primeira vez em 18 de julho de 2014.

Planeta dos Macacos – A Série Completa (Planet of the Apes – The Complete Series, EUA – 1974)
Direção: vários
Roteiro: vários
Elenco: Roddy McDowall, Ron Harper, James Naughton, Mark Lenard, Booth Colman, John Hoyt, Jacqueline Scott
Duração: 644 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.