Crítica | Planeta dos Macacos (BOOM! Studios – 2011 a 2013)

estrelas 5,0

Depois do furor símio diminuir com o fim dos filmes clássicos e com o fracasso das duas séries de TV, a Marvel Comics, então detentora da licença para adaptações em quadrinhos, parou de publicar histórias desse universo em 1977. Apesar de outras histórias em quadrinhos relacionadas com os filmes terem sido publicadas por outras empresas, uma de discos de vinil com histórias e outra de brinquedos, ambas em 1975, além de duas editoras, uma britânica e outra argentina terem lançado material conectado com a série de TV live-action, o efetivo interesse sobre esse universo só voltou aos quadrinhos entre 1990 e 1993, pela Malibu Publishing, em sua divisão Adventure Comics.

Com o reboot de 2001, a Dark Horse Comics publicou uma adaptação do filme, uma minissérie e uma série mensal de vida curta até 2002 apenas, com a licença passando para a obscura Mr. Comics que publicou seis minisséries até 2005. Só mesmo com o segundo reboot, a partir de 2011, é que os quadrinhos de Planeta dos Macacos voltaram de verdade, agora pela BOOM! Studios, editora em que a própria Fox tem participação minoritária e que é detentora da licença da franquia na data de publicação da presente crítica (27/07/17). Diferente, porém do que se poderia imaginar, o foco do trabalho da BOOM! foi na série clássica de filmes e não na mais recente, ainda que ela tenha publicado uma minissérie que faz a ligação entre Planeta dos Macacos – A OrigemPlaneta dos Macacos: O Confronto e, hoje, esteja em meio à publicação de um tie-in do terceiro filme.

A primeira publicação mensal foi intitulada simplesmente Planeta dos Macacos (Planet of the Apes) e durou 16 edições, sendo encerrada em quatro especiais posteriores, todos publicados entre abril de 2011 e setembro de 2013 e compilados em cinco volumes (The Long War, The Devil’s Pawn, Children of Fire, The Half Man e os quatro especiais que não ganharam um nome único). Contando uma só história épica que se passa 1.300 anos antes do astronauta George Taylor chegar no futuro dominado por símios conforme vimos no filme original de 1968, o roteiro de Daryl Gregory encaixa-se, também, com o discurso pacifista do Lawgiver que vimos como recurso narrativo em A Batalha do Planeta dos Macacos. Afinal de contas, o catalisador de toda a ação é o assassinato, por um humano, do próprio Lawgiver durante um de seus discursos 10 anos depois do encerramento do quinto filme, o que acirra ainda mais a luta entre as duas espécies, que se encontram em uma paz inquieta, por assim dizer.

A arte de Carlos Magno em toda sua glória.

A arte de Carlos Magno em toda sua glória.

Com a série já começando com o violento assassinato, ou seja, no meio da ação e sem nenhum preparativo, Gregory vai inteligentemente inserindo seus personagens na história, todos com ricos passados que se chocam no presente. O foco fica predominantemente em Alaya a “voz do conselho” símio da cidade de Mak e a extremamente grávida Sullivan (ou Sully), a prefeita de Skintown (nome pejorativo de Southtown), uma espécie de subúrbio empobrecido de Mak onde vive a maioria dos humanos. As duas foram criadas juntas desde pequenas como netas adotivas do Lawgiver, tendo se separado depois de um significativo e sangrento momento no passado que vai aos poucos se descortinando para o leitor, nunca tendo realmente voltado à situação de irmandade que gozavam. Em lados opostos desse conflito que se estabelece com o assassinato e que as toca pessoalmente, cada uma delas tenta fazer o máximo para que sua respectiva espécie tenha paz, o que, de uma forma ou de outra, envolve violência, mortes e traições.

Além das duas personagens principais, há o marcante gorila albino Nix, o líder da feroz Tropa Branca e um dos melhores amigos do Lawgiver que, no começo da história, está preso por crimes de guerra, mas que Alaya liberta para ser seu braço direito no conflito que se instala. O interessante em Nix é que, diferente de praticamente todos os demais gorilas que conhecemos ao longo da franquia do Planeta dos Macacos (Aldo, Ursus e Urko, dentre outros), ele é honrado e lúcido, respeitando as regras sobre o “fazer guerra”, além de aceitar que os símios e os humanos, idealmente, deveriam trabalhar juntos em prol de um objetivo comum. Ao mesmo tempo, porém, ele não deixa sua opinião pessoal nublar sua mente e ele faz aquilo que é necessário para restabelecer pelo menos um semblante de paz, sempre, lógico, privilegiando sua própria espécie. Do lado de Sully, o equivalente a Nyx é Bako, humano veterano de guerra que escolheu a paz em razão de sua filha, mas que se vê sem saída diante da eclosão de uma nova guerra.

Mas estamos falando de um épico que abrange um período de pouco mais de 10 anos na história símia sem contar com os flashbacks. Com isso, Gregory, que escreveu tudo, do começo ao fim, com a única exceção de uma história do quarto volume, polvilha a série de diversos outros personagens marcantes, como Hulss, o conselheiro de Alaya que tem sua própria agenda, Chaika, a filha silenciosa de Bako, Casimir, um valoroso soldado que perdera um braço, Nerise, uma idosa chimpanzé do conselho símio, Irmão Kale, pregador de uma versão mais “primitiva” do Culto à Bomba que vemos em De Volta ao Planeta dos Macacos e Wyn, um jovem de enorme importância e desenvolvimento ao longo da saga. E isso sem falar em figuras quase alegóricas como o gorila de pelos raspados Grande Khan, que navega em um gigantesco navio e se acha um regente do Oriente, o que expande enormemente a mitologia símia para além dos EUA.

Mais arte: Magno à esquerda e Diego Barreto à direita.

Mais arte: Magno à esquerda e Diego Barreto à direita.

Como se isso tudo não bastasse, Gregory é ainda muito cuidadoso ao lidar com a mitologia estabelecida na franquia. Seu uso do Lawgiver como catalisador dos eventos é cirúrgico e abre espaço para que ele lide com o aparentemente idiossincrático 29º Pergaminho, 6º Verso que Zaius faz Cornelius ler ao final do filme original. Ele também não se furta em mais do que inteligentemente usar o Culto à Bomba como elemento de manobra das sombras desse planeta refeito à imagem símia, já com pistas do que viria a ser o horror que Taylor e Brent encontram no segundo filme. Da mesma forma, mas sem ser didático ou se perdendo em explicações, o autor estabelece que um quarto dos nascimentos humanos tem se dado sem que os bebês tenham o poder da fala, o que começa a estabelecer o caminho para os humanos involuídos do primeiro filme da série. Em outras palavras, o trabalho dele não só é extremamente eficiente em criar uma nova, instigante e expansiva história, como não há discrepâncias sensíveis em relação a tudo o que conhecemos da mitologia símia a partir dos cinco filmes originais. É como “ler” um novo filme da série clássica que explora profundamente a beligerância e violência humanas e símias como algo inerente às duas espécies, tema profundamente enraizado na franquia e mais do que atuais hoje em dia.

A arte ficou fundamentalmente ao encargo do brasileiro Carlos Magno, o que garantiu uma agradável homogeneidade a todo o trabalho. Seus traços são detalhados e cuidadosos como o texto de Gregory, realizando cirurgicamente a visão do autor e de certa forma lembrando o quase obsessivo traço de James Stokoe. É particularmente de nota a pluralidade das feições símias que ele desenha, sempre preocupando-se em dar visuais bem diferentes a cada personagem, por mais desimportante que ele ou ela possa ser. Seus figurinos – tanto humanos quanto símios – são ricos e críveis, assim como a tecnologia bélica que ele cria de um lado e outro, um misto entre passado e futuro, antigo e novo. Mas é evidente que os destaques ficam mesmo para Alaya, Sully, Bako e, principalmente, Nix, que transita entre um gorila selvagem e centrado ao mesmo tempo sem que haja uma ruptura narrativa em que não possamos acreditar. Aliás, outro aspecto que Magno trabalha muito bem é o envelhecimento desses personagens, já que a história exige uma passagem de tempo razoavelmente abrupta de 10 anos lá pela sua metade e ele não se furta em alterar a fisionomia de cada um.

E, finalmente, suas páginas dedicadas aos conflitos e batalhas são equilibradas e bem povoadas de personagens, com momentos chocantes de violência extrema que ele lida com elegância e inteligência, sem descambar para o desnecessário gore. Em relação aos demais artistas, a linha mestra estabelecida por Magno foi marcante o suficiente para que os diversos estilos quase se amoldassem à sua obra-guia, evitando dispersões para o leitor, que quase parece ler uma obra só de um artista.

A BOOM! Studios, em sua primeira tentativa de mergulhar no universo símio, acerta em cheio o alvo, com uma maxissérie muito bem pensada e executada praticamente sem falhas. É raro encontrar quadrinhos baseados em obras cinematográficas com tanta riqueza por aí e Planeta dos Macacos definitivamente merece seu destaque. Só resta alguma editora brasileira se tocar e publicar isso por aqui!

Planeta dos Macacos (Planet of the Apes, EUA – 2011 a 2013)
Contendo: Planet of the Apes #1 a 16 e Annual #1, Special #1, Spectacular #1 e Giant #1
Roteiro (série mensal): Daryl Gregory, Gabriel Hardman (uma história do vol. 4)
Arte (série mensal): Carlos Magno, John Lucas, Benjamin Dewey, Gabriel Hardman, Diego Barreto
Cores (série mensal): Juan Manuel Tumburús, Nolan Woodard, Darrin Moore, Matthew Wilson
Letras (série mensal): Travis Lanham, Ed Dukeshire
Capas (série mensal): Karl Richardson, Carlos Magno, Marek Oleksicki
Roteiro (especiais): Daryl Gregory, Corinna Bechko, Jeff Parker, Gabriel Hardman (Annual); Dary Gregory (Special, Spectacular, Giant)
Arte (especiais): Carlos Magno, John Lucas, Benjamin Dewey, Gabriel Hardman (Annual); Diego Barreto (Special, Spectacular, Giant)
Cores (especiais): Darrin Moore, Nolan Woodard, Matthew Wilson (Annual), Darrin Moore (Special, Spectacular, Giant)
Letras (especiais): Ed Dukeshire
Editora original: BOOM! Studios
Data original de publicação: abril de 2011 a agosto de 2012 (Planet of the Apes #1 a 16), agosto de 2012 (Annual), fevereiro de 2013 (Special), julho de 2013 (Spectactular), setembro de 2013 (Giant)
Editora no Brasil: não publicado no Brasil na data de publicação da presente crítica
Páginas: 733 (mensais + especiais em versões encadernadas, com páginas extras com capas alternativas)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.