Crítica | Planeta Hulk (Tie-In de Guerras Secretas – 2015)

estrelas 3

Grande parte dos tie-ins (ou publicações paralelas amarradas à principal) de grandes sagas das duas maiores editoras de quadrinhos deixa de realmente contribuir para o entendimento do evento em si, o que as torna desnecessárias a não ser, claro, para aquele leitor ávido que não quer deixar nada de fora. Além disso, os tie-ins normalmente são caça-níqueis, ou seja, uma forma de “contaminar” diversas publicações com o “selo” do grande evento para capitalizar em cima do hype.

No caso da nova saga Guerras Secretas, publicada entre julho de 2015 e março de 2016, a Marvel optou pela estratégia radical, paralisando toda sua linha editoral ao longo do evento e substituindo-a por publicações novas e diferentes, todas ligadas à saga, mas que podem razoavelmente ser lidas de maneira independente, bastando saber uma coisa: o elemento principal de Guerras Secretas é que o Doutor  Destino agora tornou-se um deus e refez o mundo como bem entendeu, separando-o em “zonas de batalhas”, muitas delas servindo como uma versão O Que Aconteceria Se… de outras sagas da editora. No frigir dos ovos, é mais importante – mas não essencial – conhecer a saga que está sendo reimaginada do que a saga mãe. Em Planeta Hulk, seria ideal o leitor conhecer a saga homônima original apenas para que ele possa traçar paralelos entre uma coisa e outra. Mas, mesmo sem ter lido a primeira (que é altamente recomendada, aliás), há como se divertir.

Nesse universo bizarro criado por Destino, o Capitão América faz uma dupla absolutamente inusitada com o Dinossauro Demônio (criação de Jack Kirby de 1978, para os não iniciados) no Killiseum, o “Coliseu” local com luta gladiatoriais como na Roma Antiga. Saindo vencedores, o Capitão é escolhido Destino para cumprir uma missão: matar o Rei Vermelho (um Hulk Vermelho), que governa Greenland, região 100% dominada por “Hulks”. O incentivo é que Deus Destino diz que Bucky, o parceiro que o Capitão obsessivamente procura, é prisioneiro do Rei Vermelho. Os proverbiais dois coelhos seria mortos com uma cajadada só.

Só nesse resumo já é possível traçar os diversos paralelos diretos com o Planeta Hulk original, como o Rei Vermelho, a arena de lutas até a morte e um local dominado por seres monstruosos. Mas as semelhanças param por aí, já que o se segue é uma jornada até o castelo do rei pela Greenland e seus vários perigos, com Capitão América e o Dinossauro Demônio sendo guiados por Doc Green, um Hulk inteligente aliado a Destino.

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Considerando todo o quase surrealismo da proposta, a diversão descerebrada não para. Apesar da narrativa simplista e óbvia, o roteiro de Sam Humphries consegue prender o leitor nessa busca insana por dois fatores principais: (1) eu já mencionei, mas não me canso de repetir que é inacreditável a dupla formada pelo Capitão América e pelo tiranossauro vermelho Dinossauro Demônio e (2) a obsessão quase doentia do Capitão em achar Bucky (em sua versão Soldado Invernal) consegue ao mesmo tempo mostrar a loucura do bandeiroso, como também trazer uma ponta de melancolia que perpassa toda a narrativa. Humphries não escreve, porém, para um propósito maior do que divertir e ele consegue alcançar o resultado que almeja ao jogar nossos heróis contra “plantas hulk”, “monstros marinhos hulk” e, claro, contra dezenas de variações de hulks humanoides.

E a arte de Mark Laming é ótima ao transpor para as páginas as maluquices de Humphries. Uma “planta hulk” soa ridícula, mas nos traços do artista ela funciona bem, passando tanto o tom de ameaça efêmera necessária, como deslumbrando com a criação em si. Outro ponto que funciona perfeitamente bem é a recriação do uniforme do Capitão América, muito mais um bárbaro viking do que o Sentinela da Liberdade, mas cujas características principais são mantidas, especialmente a paleta de cores, que ficaram ao encargo de Jordan Boyd. O mesmo se pode dizer no trabalho de multiplicação de hulks, com versões que homenageiam o original, mas que acrescentam verossimilhança a todo um povo que surgiu graças à explosão de uma bomba gama há tempos.

Falando nessa “origem”, quase que como um bônus na minissérie, Greg Pak, o roteirista do Planeta Hulk original volta brevemente e contribui com algumas páginas que nos contam como Greenland tornou-se o que é, algo que empresta um senso de história e de passado à narrativa e também à mega-saga Guerras Secretas. Afinal, parte-se da premissa que tudo que está sendo visto durante a saga é tudo o que existiu, negando-se completamente tudo o que veio antes.

A nova e amalucada versão de Planeta Hulk diverte bastante por ser uma jornada descompromissa e por trabalhar muito bem a caracterização do Capitão América, que carrega a narrativa nas costas. Definitivamente, seria interessante ver mais aventuras da dupla que ele forma com o Dinossauro Demônio em um título próprio.

Planeta Hulk (Planet Hulk, EUA – 2015)
Contendo: Planet Hulk (2015) #1 a #5
Roteiro: Sam Humphries (história principal), Greg Pak (história de origem)
Arte: Mark Laming (história), Leonard Kirk (história de origem)
Cores: Jordan Boyd (história principal), Rachelle Rosenberg (história de origem)
Letras: Travis Lanham
Editora original: Marvel Comics
Datas originais de publicação: julho a novembro de 2015
Editora no Brasil: ainda não publicado no Brasil
Páginas: 123

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.