Crítica | Planeta Solitário

estrelas 4

Os cenários são as estepes e montanhas da região do Cáucaso, no interior da Geórgia. Os personagens, apenas três, um casal de noivos que, aparentemente, gosta muito de viajar por lugares menos turísticos do mundo e um guia local, que fala inglês com forte sotaque. Os três, de barracas nas costas, desbravam a região quieta, inóspita, quase extraterrena.

E o filme é basicamente isso. Pouco sabemos do passado do casal. Nem mesmo a nacionalidade deles temos certeza. Alex (Gael García Bernal) tem origem hispânica no filme, podendo ser do México, Espanha ou qualquer país da América Latina de colonização espanhola. Nica (Hani Furstenberg) pode ser americana, mas às vezes parece ter raízes pela região do mundo onde estão. O guia, Dato (Bidzina Gujabidze) é da Geórgia, claro, mas fala o mínimo possível até mais para o final, quando passamos a saber um pouco de seu triste passado.

Mas é a viagem que é importante e não necessariamente a razão pela qual os personagens estão onde estão. Filmado quase como um documentário por Julia Loktev (que também escreveu o roteiro) com um esplêndido trabalho de fotografia do experiente Inti Briones, Planeta Solitário é um filme contemplativo, sereno, mas que consegue ser perturbador.

A desolação do terreno e a solidão dos personagens ficam perfeitamente capturados pelas lentes de Loktev, que tem o cuidado de não embelezar o local. Claro que há trechos interessantes da paisagem local, mas, em sua grande maioria, o que vemos é grama, pedras e montanhas ao fundo, não muito mais do que isso. É uma interessante maneira de desmistificar filmes sobre viagens glamurosas e colocar os pés no chão literalmente. Qualquer semelhança do título do filme no original (The Loneliest Planet) com a famosa série de guias de viagem Lonely Planet muito provavelmente não é uma coincidência.

Loktev vai além e, apesar de usar uma possante trilha sonora, ela o faz em momentos exatos, cirúrgicos, sem permitir que nossa atenção saia do terreno, da aridez, da viagem em si. E, sobre ela, Loktev nos faz ver e, talvez principalmente, ouvir tudo. Com microfone aberto, percebemos o forte som dos passos esmagando a folhagem, comentários inaudíveis do guia enquanto o foco é no diálogo do casal, o vento sibilando, as rochas rolando, até mesmo o roçar das roupas. Tudo é perfeita – e perturbadoramente – audível em Planeta Solitário, o que torna os espectadores mais próximos da jornada, como se ali estivessem.

Em princípio, porém, a jornada é uma aventura alegre, corriqueira até para os dois viajantes. No entanto, um “pequeno” acontecimento traumático lá para a segunda metade da fita gera um abismo entre o casal. As palavras de carinho – ou qualquer outro tipo de palavra – desaparecem. A intimidade é trocada pela distância. Não há conversas sobre o ocorrido, tentativas de se entender o porquê do que aconteceu. Há, apenas, o silêncio. Silêncio do lado de Alex por certamente entender que o que fez, sua reação primal, instintiva, não poderia ter sido aquela. Silêncio do lado de Nica pelo choque em ter sido colocada nessa situação. Mas se foi uma reação instintiva, Alex tem culpa? Nica não poderia entender ou está muito traumatizada? O que isso diz sobre o casal? Estou sendo propositalmente misterioso, pois a cena é importante para o filme, o único momento de surpresa efetiva e não quero estragar essa experiência para ninguém.

Bernal e Furstenberg estão sensacionais no filme. Ainda que um roteiro exista, muito do que vemos na tela é, provavelmente, fruto de reações genuínas dos dois ao ambiente em que a produção foi feita. É literalmente como se estivéssemos vendo um documentário e não uma obra de ficção. Isso acaba se encaixando, com perfeição, em todo o tom naturalista da fita.

Se o acontecimento que cria tensão no filme é verossímil, se os eventos que daí se originam são plausíveis, pouco importa. O importante é mesmo embarcar nessa viagem e sentir-se e ouvir-se andando em direção a um horizonte desconhecido, talvez inóspito e perigoso, mas provavelmente recompensador (ou será que não?).

Planeta Solitário (The Loneliest Planet, Estados Unidos/Alemanha, 2012)
Direção: Julia Loktev
Roteiro: Julia Loktev
Elenco: Gael García Bernal, Hani Furstenberg, Bidzina Gujabidze
Duração: 113 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.