Crítica | Além da Ilusão

estrelas 3

Muitas vezes, especialmente pelo foco na Alemanha presente em grande parte das obras, cinematográficas ou não, lembramos da atmosfera opressora nesse país em virtude do nazismo e esquecemos do clima de instabilidade que assolava toda a Europa da época, que acabara de ser abalada pela Primeira Grande Guerra. Planetarium nos leva justamente para esse período, especificamente na França momentos antes da eclosão da Segunda Guerra. Temos aqui um recorte específico da vida de duas irmãs, sob o olhar de Rebecca Zlotowski, que, apesar da curta experiência como diretora, já demonstra um verdadeiro potencial. Sua mais recente obra, contudo, infelizmente, entra como um deslize em sua iniciante carreira.

A trama gira em torno de Laura (Natalie Portman) e Kate Barlow (Lily-Rose Depp), duas irmãs viajantes que realizam sessões espíritas para que seus clientes possam entrar em contato com os mortos. Em uma dessas sessões, na França, elas acabam atraindo a atenção do produtor André Korben (Emmanuel Salinger), que decide fazer um filme sobre as duas, ao mesmo tempo que as utiliza para realizar sessões privadas a fim de descobrir quem é a pessoa que aparecera para ele em seu primeiro contato com os espíritos. Essa relação, porém, acaba gerando complicações pessoais e profissionais para todos os envolvidos.

O que vemos em tela funciona como o ponto de virada na vida das Barlow. É o momento no qual suas vidas se altera completamente e a todo momento ficamos esperando o anúncio do início da invasão nazista sobre a França – algo que, de fato, jamais ocorre, mas que consegue nos deixar em um clima de tensão por toda a narrativa. Zlotowski faz um ótimo trabalho retratando essa atmosfera instável – ela não joga em nossas caras, apenas deixa implícito no comportamento dos personagens, seja pelas suas situações financeiras ou mentalidades radicais.

Em um momento específico ouvimos alguém apoiar as ações de Mussolini e em outros percebemos o evidente preconceito em relação aos judeus, nos lembrando que o antissemitismo não estava contido somente na Alemanha – a crítica a esse discurso de ódio vai crescendo gradualmente no roteiro, o que dialoga perfeitamente não só com o passado, como com a crescente onda de extrema-direita que assola o continente europeu na atualidade (e também em nosso próprio país). O roteiro de Rebecca Zlotowski e Robin Campillo consegue encaixar isso na trama sem muito alvoroço, mas definitivamente chamando nossa atenção, funcionando como um alerta, nos lembrando do que a instabilidade pode levar as pessoas a fazerem e o pior: sem, de fato, perceberem o que estão apoiando até ser tarde demais.

Enquanto acerta nesse quesito no segundo plano, contudo, o texto acaba se perdendo ao tentar abordar inúmeras questões em primeiro plano. O texto se divide, em certo momento, em dois focos, um em Kate e o outro em Laura, evidenciando uma cisão entre as irmãs. Isso contudo, jamais é explorado a fundo, soando como um grande filler, que de nada acrescenta à história. Com isso, o clímax perde grande parte de seu impacto no espectador, já que não há uma progressão efetiva para chegarmos até ele, ele simplesmente acontece, como se o tivessem jogado ali.

Felizmente, o trabalho de Natalie Portman e Lily-Rose Depp não deixa a desejar em nenhum momento. A primeira, como sempre, nos traz uma atuação envolvente, se entregando totalmente ao papel. A segunda, por sua vez, somente ganha seu destaque devido na segunda metade, nos entregando um retrato verossímil de uma pessoa praticamente à parte do mundo. A química existente entre as duas é inegável e a semelhança física de ambas somente ajuda a nos convencer que são irmãs.

O visual da obra é outro acerto da diretora Zlotowski, que faz uma bela homenagem ao cinema da época, emulando aspectos da linguagem da época de forma pontual. O foco no cinema francês da época, também nos ajuda a construir uma ideia dos desenvolvimentos tecnológicos da indústria e como a produção pode focar em todos os aspectos errados – ao invés de tentar contar uma boa história, nos trazer uma obra de arte, ela coloca a concorrência como o foco, criando uma metalinguagem que atinge de forma certeira os cinéfilos e profissionais da área. Infelizmente, isso acaba ficando um tanto quanto perdido dentro da atenção que a obra dá para outros aspectos.

Planetarium é um filme com muito potencial, mas que, na falta de um foco específico, acaba se perdendo, tentando nos trazer muitos elementos sem conseguir trabalha-los a fundo. Com ótimas atuações e um visual que nos desloca perfeitamente para o final dos anos 1930, ele acaba deixando a desejar em seu roteiro, que falha em sua progressão narrativa e oferece um desfecho anticlimático, não fazendo jus às importantes questões que aborda. Dito isso, é uma obra que vale ser assistida, mas que não consegue nos afetar da maneira que foi intencionada.

Planetarium – França, 2016
Direção:
 Rebecca Zlotowski
Roteiro: Rebecca Zlotowski, Robin Campillo
Elenco: Natalie Portman, Lily-Rose Depp, Emmanuel Salinger, Amira Casar, Louis Garrel, David Bennent
Duração: 105 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.