Crítica | Platoon

estrelas 5,0

“Já maltratamos tantos outros povos. Acho que agora chegou a nossa vez”

Contém spoilers

Baseando-se em experiências reais vividas no seu tempo à serviço dos Estados Unidos, o diretor e também roteirista Oliver Stone apresenta com Platoon sua visão particular da Guerra do Vietnã. Não é por menos que surge, dos fundamentos do seu passado, um trabalho de roteiro interessado em passar imagens distorcidas, condizentes com a realidade do confronto. Os conflitos internos e os horrores externos que homens são suscetíveis à penitência em situações como essa, afinal, não poderiam ser transpostos na figura de personagens unidimensionais. Não há espaço para a guerra romanceada aqui. Embora sejamos instigados, primeiramente, a acreditarmos no pelotão de infantaria no qual Chris Taylor (Charlie Sheen), o protagonista da história, é atribuído, Stone é sábio em subverter essa base narrativa, ao reproduzir a individualidade para dentro da guerra. No final, Chris não estará mais lutando pelos ideias estadunidenses, como um dia almejara fazer. O garoto ingênuo se alista voluntariamente e acaba por sacrificar sua própria sanidade ao adentrar terras que não pertencem a mais ninguém; ambientes cheios de hostilidade, tanto nos acampamentos vietcongues, quanto nas concentrações aliadas.

Percebam como o tempo de serviço, contado minuciosamente pelos veteranos ali presentes, não deixa que o filme perca um retrato da ansiedade de seus combatentes pelo fim de vossos martírios. Os soldados estão cansados, abatidos. Enquanto muitos já não sabem mais os propósitos pelos quais homens atrás de mesas, confinados em seus escritórios, os forçam a lutar pelas suas vontades, outros nunca souberam. Sobra-se assim a única verdade. Que todo aquele inferno cinza um dia terá seu fim, na vida ou na morte. Elaborando a narrativa, somos apresentados a dois homens: o cínico e áspero Sargento Barnes (Tom Berenger), e o pacifista e idealista Sargento Elias (Willem Dafoe). Os personagens tomam papéis antagônicos, desenvolvendo o protagonista e levando adiante a trama, além de trazerem mais profundidade aos já intensos questionamentos morais do longa. Ao se encontrar com o círculo de fumantes que Elias faz parte, Taylor e o sargento acabam por ganhar mais afinidade, enquanto o personagem de Tom Berenger é gradativamente retratado como um vilão.

O reflexo mais carnal da personalidade de Barnes está na invasão a uma aldeia vietnamita, na qual o sargento cruelmente assassina a sangue frio a esposa de um aldeão durante um interrogatório. Elias intervém, os dois lutam e o Tenente Wolfe (Mark Moses), líder do pelotão, ordena a destruição da vila. Sendo assim, o conflito entre Barnes e Elias é rebuscado, deixando o primeiro preocupado com a hipótese do segundo testemunhar contra ele em corte marcial. Retornando à figura de Taylor, o personagem já consideravelmente abalado pelas situações que passou, tem na intimidação a um doente mental vietnamita a provação de sua sanidade debilitada. Charlie Sheen – que coincidentemente teve seu pai, Martin Sheen, trabalhando em Apocalypse Now, clássico que também retratou a Guerra do Vietnã, em 1979 – transmite ao espectador as condições de um homem inicialmente inocente, que, apesar de perder aos poucos seus alicerces morais, luta para não ceder de vez ao terror psicológico que lhe é manifestado. A certeza é de que, vivo ou morto, o protagonista nunca mais será o mesmo.

O diretor eleva a aura épica do filme ao ápice após o desenrolar dos conflitos entre Barnes e Elias. Na missão subsequente àquele derradeiro assassinato da mãe vietnamita, Barnes articula a execução de Elias. Surpreendentemente, o roteiro, que poderia muito bem ter deixado a morte do sargento presumida após o tiro que o mesmo leva, alonga a sua vida  por mais alguns minutos. Já no helicóptero, voltando abalado para o quartel general, Taylor presencia a derradeira tentativa de fuga de Elias daquela imensidão inimiga. Uma magnífica faixa da incrível trilha sonora do filme – que possui Georges Delerue como um de seus compositores – acompanha a morte do sargento, que continua correndo independente dos reveses que rasgam seu corpo com balas. Quando suas pernas não aguentam mais a caminhada e seu corpo infestado de sangue coincide na dor com a desolação de sua respiração, resta ao homem erguer os braços e deixar o sonho americano, assim como si mesmo, morrerem, traídos pelos seus próprios compatriotas. Um momento de efeito simplesmente magistral.

Outrossim, é inegável que Oliver Stone transmite com sucesso todas as condições mais tensas que o seu próprio roteiro proporciona. Embora em menor escala que outros filmes de guerra, como o já citado Apocalipse Now, as sequências de ação estão de exato acordo com o discurso que o cineasta se propõe a passar. Este não é um estudo sanguinolento da guerra, mas um estudo mais psicológico, mais intrínseco, deixando as vísceras de uma brutalidade para abordar as vísceras de outra brutalidade. A proximidade da realidade com a obra ficcional permanece fidedignamente, visto que o trabalho de personagem é condicionado a extrema veracidade. A sensação de desilusão é uma constante tanto no campo de guerra quanto na mentalidade dos soldados. Os cenários também são bastante críveis. As exuberantes matas são ricas, e a mixagem de som consegue dar naturalidade aos ambientes que o pelotão se aventura. Quando o personagem dorme no meio do nada, apoiando-se em seus companheiros, sentimos o desconforto da selva. Platoon é um trabalho eficientemente entrelaçado de argumento e execução.

A última missão, permeada pela completa falta de descrença do diretor, é o ponto alto desse cenário desesperançado. Na iluminação relativamente omissa, as árvores e gramíneas sobressaem-se, protegendo os inimigos, que talvez lá se encontrem, ou talvez não. O cineasta coloca o espectador perdido naquele ambiente paranoico, enquanto vê homens serem mortos em um espaço que não se é possível compreender inteiramente. Nesse cenário, ao confrontar o assassino de Elias, Taylor perde as últimas esperanças que predestinavam a jazer tempos antes. Com a derrota do pelotão já estabelecida, o Sargento Barnes, transtornado com as perdas, se vira contra o personagem de Charlie Sheen. Os dois lutam, até que bombas caem do céu e trazem um pouco de luz para o cego cenário de destroços. Mesmo destruído, Taylor ainda assim tem a capacidade de eliminar Barnes, matando-o durante o suplício do sargento. Resgatado, o soldado, uma vez ansioso em defender seu país e se unir a uma causa que ele antes acreditava, chora enquanto sobrevoa a imensidão de corpos. Não é só os Estados Unidos que, enfim, perderam mais uma batalha.

É sobre esse discurso de perda da inocência americana que Stone conclui sua obra, primeira de uma trilogia sobre o evento que marcou sua vida e outras milhares. Além de um retrato sobre a Guerra do Vietnã e seus soldados, Platoon é sobretudo, um retrato sobre homens. Homens que, em situações adversas, têm de sobreviver de maneiras inimagináveis. Homens que, no terror de suas ações, tornam-se os próprios monstros de seus piores pesadelos. Homens que, movidos por seus princípios, têm na esperança provida pelas suas mensagens idealistas a causa pelo fim de suas vidas. Um melancólico sofrimento internalizado, psicologicamente tóxico. Do que vale lutar por uma guerra sem sentido? Quais são os verdadeiros inimigos da pátria, do homem? Um conjunto de perguntas dolorosas com as respostas mais pessimistas possíveis. Essa é uma guerra que nunca originaria um Capitão América, ou qualquer outro possível símbolo da “grandeza americana”, da verdade e da justiça. Que a Segunda Guerra Mundial seja a base para sustentar a filosofia de como os Estados Unidos são sensatos em sua luta por ideais inestimáveis. A Guerra do Vietnã é sua inabalável contra-argumentação.

Platoon — EUA, 1986
Direção: Oliver Stone
Roteiro: Oliver Stone
Elenco: Charlie Sheen, Willem Dafoe, Tom Berenger, John C. McGinley, Kevin Dillon, Keith David, Mark Moses, Francesco Quinn, Forest Whitaker, Tony Todd, Richard Edson, Johnny Depp
Duração: 120 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.