Crítica | Playtime (1967)

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Playtime (1967) é, sem sombra de dúvidas, umas das melhores realizações humorísticas da história do cinema. Seu criador, Jacques Tati, vinha desde de 1953, com As Férias do Sr. Hulot, construindo o personagem de Hulot, homem de meia idade interpretado pelo próprio diretor, embaraçado e lacônico, sempre com um cachimbo na boca e de alguma maneira alheio aos seus arredores. A partir da formação dessa figura cômica, Tati consegue seguir o caminho de artistas como Charles Chaplin e Buster Keaton, também capazes de concentrar nas forças de uma única persona a potência estética que leva a comédia no cinema aos mais altos níveis.

Se em sua estreia o sr. Hulot era a origem de todo o caos, desorganizando o novelo da normalidade devido a seu desajeitamento, com o avanço de sua filmografia Jacques Tati foi cada vez mais amadurecendo a crítica à sociedade propriamente dita; os alvos principais do diretor passam a ser a modernização capitalista, os Estados Unidos, as cidades modernas e sua organização distópica, a perda das experiências autênticas, conectadas a um passado nostálgico. Um longa de 1949, Carrossel da Esperança, já prefigura a sátira a essas instâncias de poder, embora não no nível de qualidade que se instaura a partir de Meu Tio (1958), vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro e responsável por lançar definitivamente Jacques Tati no circuito internacional.

Os fãs de Hulot passaram, naturalmente, a esperar ansiosamente por suas aparições. O que poderia se tornar um filão comercial foi, entretanto, para caminhos totalmente diversos. Em primeiro lugar, Tati demorava anos para lançar novas obras, em detrimento da lucratividade mas em favor da qualidade; além do mais, Playtime frustrou o público porque quase apagou a presença marcante daquele que se supunha ser o protagonista. Imaginem um Tempos Modernos sem o Vagabundo. Estranho, não é? Em sentido totalmente contraintuitivo, a obra apresenta um inventário de tipos sociais, uma profusão de ambientes e pessoas, dando pouca ênfase a dramas restritos e ampliando o escopo do relato da câmera.

Mesmo assim, é possível extrair desse grande estudo de costumes citadinos um pequeno fio de trama. Hulot quer encontrar um administrador de uma multinacional, mas tamanha é a burocracia (parecida com um beco sem saída kafkiano) que os personagens sofrem um interminável e hilária sucessão de desencontros. Em simultâneo, um grupo de turistas americanas visita uma Paris dominada pelo fetiche da mercadoria e pelas empresas estrangeiras. Os dois núcleos vão sendo muito bem costurados, e de vez em quando Barbara (Barbara Dennek), uma das turistas (diferenciada do resto, é a única que deseja realmente ter uma experiência autêntica com a cidade-luz), vislumbra Hulot de passagem, sendo sugerida uma forma de conexão entre os dois personagens.

As piadas visuais que concernem a essa parte de Playtime são um dos grandes méritos do filme. Jacques Tati é um artista da era de ouro do cinema mudo no meio da fase sonora. Em suas obras, as falas têm pouca ou nenhuma importância, e não é coincidência a postura monossilábica de Hulot. O balburdio da cidade não transmite discursos articulados: a miríade de figuras grita e debate, a maquinaria freme, mas o que realmente importa é o poder do gesto, o significado da pantomima ou a eloquência das composições visuais. Como esquecer as sequências que mostram o trânsito parisiense paralisado, com seus carros homogeneizados num triste cinza? Ou os prédios mostrados em angulações elevadas, engolindo impessoalmente, na sua conformação labiríntica, o coitado do sr. Hulot? Ou ainda os apartamentos uniformes, desnudados pela transparência dos vidros, voltados para a rua como verdadeiras vitrines? A sensibilidade crítica dessas imagens nos marca prolongadamente. Jacques Tati não precisa do espalhafato cômico, seus procedimentos são mais sutis e refinados. O efeito não é o do gargalhar contínuo, mas de uma graça contida que se estende para muito depois do fim da projeção.

Num segundo momento, a obra se concentra por longos quarenta e cinco minutos em um estabelecimento noturno, voltado para a diversão da elite. Hulot, Barbara, as turistas, os empresários, a nobreza esnobe, todos estão lá. Acompanhamos os gestos blasé dos endinheirados, a confusão dos trabalhadores do local, as músicas da banda… A narrativa vai pairando por esses vários focos de atenção, sem destacar enfaticamente nenhum, na maioria das vezes obliterando, como já destacado, o próprio senhor Hulot. É como se a câmera se comportasse feito um narrador literário moderno, numa onisciência seletiva múltipla que dá vasão, de modo não hierarquizado, à polifonia anárquica da cidade. A comparação pode ser ainda mais ampliada se nos lembrarmos que dois dos grandes romances do século XX, Ulysses (James Joyce) e Mrs. Dalloway (Virginia Woolf), concentram-se em apenas um dia da vida de seus personagens, do mesmo modo que Playtime, essa odisseia que perpassa desde o amanhecer até o anoitecer na jornada da grande metrópole.

Mas não é apenas a realização final que chama atenção na obra-prima de Tati. Sabe-se que o filme gastou anos e recursos imensos para ser feito. A empreitada de Jacques Tati foi prometeica, já que ele decidiu construir sua própria cidade (a chamada ‘Tativille’) especialmente para emular as ruas urbanas de Paris, acrescentando contudo a esse registro elementos de futurismo distópico que potencializam as críticas aos excessos da modernização. O processo durou três anos e envolveu a engenharia de ruas próprias e sistemas elétricos realmente funcionais, acarretando, como se poderá imaginar, um grande dispêndio que esteve longe de ser compensado pelas bilheterias. Apesar das dificuldades, o saldo (pelo menos o saldo estético) foi extremamente positivo- o cineasta vira o deus de uma pequena cidade a seu dispor, permitindo o alto grau de controle formal que podemos facilmente perceber em Playtime.

Significativamente, uma das imagens finais é a de carros andando em círculos como num carrossel, sem prosseguir ou recuar, absorvidos pelo absurdo trânsito que, em vez de promover a locomoção, paralisa a tudo e a todos. A modernização retratada de modo satírico por Tati é antes de tudo doente. Assim, o caráter relapso de Hulot, desajustado às regras sociais, longe de ridicularizá-lo, coloca-o, na contramão do que previra Aristóteles a respeito dos personagens das comédias, numa posição “acima de nós”. O solipsismo quase autista da personagem é a verdadeira comprovação de sua sanidade, assim como a diferenciação de Barbara em relação ao grupo, que não percebe que o protagonismo das mercadorias internacionais oblitera as particularidades da França- e é sintomático que os grandes monumentos históricos, como a Torre Eiffel e o Arco do Triunfo, apareçam sempre como reflexos no vidro, num átimo, sumindo logo depois.

“Tativille” não deixa também de recriar o mito de Babel. É uma torrente de línguas entremeadas que pouco se conversam. A anarquia está igualmente na mise-en-scène, mas apenas no nível aparente, pois Playtime é resultado de um extremo domínio em todos os níveis de sua feitura, com especial destaque para o maravilhoso design de produção de Eugène Roman. Perdido no fluxo de Paris, sr. Hulot como que flana; temos aqui um flâneur muito diferente do eu lírico baudelairiano, pois ele não está atento ao teatro urbano, nem preocupado com grandes percepções do ambiente. A câmera, por sua vez, tampouco é o registro de uma psicologia pessoal, perdida que está nas suas andanças sem rumo. Depois de Playtime, o público nunca mais vê o caos urbano do mesmo modo, ouvindo sempre ao fundo os sons potencialmente críticos do silêncio de Hulot.

Playtime (Playtime)- França, Itália, 1967
Direção: Jacques Tati
Roteiro: Jacques Tati, Jacques Lagrange, Art Buchwald
Elenco: Jacques Tati, Barbara Dennek, Rita Maiden, France Rumilly, France Delahalle, Valérie Camille, Nicole Ray, Erika Dentzler
Duração: 124 min. (visão restaurada de 2002)

GUILHERME ALMEIDA . . . Estudante de Letras e apaixonado por literatura e cinema, acho Crime e Castigo o auge da inteligência humana, não consigo assistir Tarkovski sem acender uma vela e me emocionar, e toda vez que vejo Taxi Driver me olho no espelho e lanço um “You talking to me?”. Se por uma desgraça cósmica preciso passar um dia sem contato com a Arte, sofro de profunda abstinência e preciso ser amarrado numa camisa de força. Nesses momentos, não se aproximem.