Crítica | Pluto – Vol.1: Naoki Urasawa X Osamu Tezuka

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Publicado originalmente entre 2003 e 2009, Pluto: Naoki Urasawa X Osamu Tezuka era um dos grandes mangás aclamados no Japão ainda inéditos por aqui. Escrito e desenhado por Naoki Urasawa, com coautoria de Takashi Nagasaki, Pluto conta a história do detetive Gesicht que está trabalhando no misterioso caso do robô Mont Blanc, que foi brutalmente destruído por alguém desconhecido. Parece que Mont Blanc foi somente o primeiro alvo da lista do criminoso, que contém os nomes dos robôs mais poderosos do mundo. Diante disso, Gesicht vê a si mesmo em perigo, já que ele próprio é um dos robôs mais avançados que existem.

Importante ressaltar que Pluto é uma obra derivada/ adaptada do arco O Maior Robô da Terra, do famoso mangá Astro Boy, de Osamu Tezuka. Para quem não está familiarizado com os quadrinhos japoneses, Tezuka é considerado por muitos o maior mangaká da história, responsável por tornar os mangás o sucesso que são hoje em várias partes do mundo. Além de trazer inovações estéticas e narrativas aos quadrinhos japoneses, também foi ele quem criou o primeiro anime de grande sucesso mundial, Astro Boy (baseado no mangá homônimo). Já Naoki Urasawa é um autor consagrado pela criação de sucessos como 20th Century Boys, Monster e Billy Bat. Daí o subtítulo Naoki Urasawa X Osamu Tezuka, que representa toda a expectativa gerada em torno do encontro dos dois gigantes dos quadrinhos japoneses (lembrando que Osamu Tezuka faleceu em 1989; porém, Pluto é um projeto supervisionado pelo seu filho, Macoto Tezka).

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Gesicht.

A obra que temos aqui consegue ser bem diferente de Astro Boy, fazendo uma releitura mais aprofundada e moderna dos personagens, além de manter o viés da relação homem x máquina e seus dilemas, já presentes na obra original. Pluto é, na verdade, um thriller policial no melhor estilo Blade Runner, mas com o mérito de não cair na armadilha de seguir os mesmos passos do longa de 1982. E devo dizer que seria uma grande tentação já que ambas as obras têm vários pontos em comum: o detetive policial que tem sonhos enigmáticos, uma sociedade na qual robôs e humanos coexistem e a problematização da essência da vida humana. Porém, felizmente, Urasawa e Nagasaki são hábeis o suficiente para encontrar um caminho diferente dentro deste contexto com elementos já trabalhados (e muito bem) por outros autores de várias mídias. Além disso, há também referência às leis da robótica criadas por Isaac Asimov (que se tornou elemento recorrente em muitas obras de ficção científica posteriores).

No entanto, é injusto resumir a qualidade de Pluto a elementos inspirados de outras obras. De forma totalmente fluída, sem descrições exageradas e nem diálogos didáticos, o roteiro constrói o universo de Pluto, no qual os robôs, até onde pudemos perceber no primeiro volume, têm família (e filhos!), casa, bons empregos, desfrutam de um bom convívio social e têm papel ativo e relevante na sociedade. Inclusive, muitos deles, como é o caso de Gesicht, se passam tranquilamente por humanos. Porém, há também o preconceito demonstrado por uma parte da sociedade. “Pegue qualquer parte que quiser. Afinal, é só sucata”. Desta forma, a questão “robôfóbica” não é tratada num momento de transição, no qual os robôs são uma novidade na sociedade; na verdade percebemos que a convivência com os robôs é uma realidade já antiga e, no geral, frutífera. No entanto, o que eles enfrentam agora é o preconceito de uma parcela humana. Trata-se de um contexto que dialoga totalmente com o momento atual de várias nações em assuntos relacionados a diferenciação de gênero, cor de pele, religião ou opção sexual.

O protagonista, o detetive Gesicht, é muito bem desenvolvido ao longo da trama através de vários elementos que tornam a sua persona complexa e intrincada. Os sonhos que o atormentam (e o leitor não sabe ao certo se ele conhece ou não a causa desses sonhos), a relação com sua esposa, que parece um tanto fria, o preconceito que sofre por ser um robô e, apesar de não demonstrar, percebe-se que isso o incomoda e o próprio caso Mont Blanc, que também o coloca em risco. Parece que a pressão é demasiada, mesmo para uma mente digital.

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North Nº2 e seu mestre Duncan.

O roteiro nos apresenta o elenco de coadjuvantes muito em função da jornada de Gesicht em busca dos outros robôs mais poderosos do mundo, para avisá-los do risco, e através da qual acaba se envolvendo emocionalmente com eles e suas famílias. Tal envolvimento, inevitavelmente, atinge o leitor, que passa também a se importar com a segurança desses personagens. É, inclusive, através desta jornada, que o famoso Atom (Astro Boy) aparece na última página, constituindo um grande gancho para o segundo volume.

Desta forma, um dos fatores que torna Pluto tão envolvente é, de fato, o desenvolvimento dos personagens, e não somente do protagonista. Os autores não economizam páginas nem texto para criar aprofundamento verdadeiro. Por exemplo, neste primeiro volume, a maior quantidade de páginas é dedicada ao personagem North No 2; sabemos sobre seu passado, suas capacidades, sua atual função, motivação e desejos pessoais (estranho dizer isso de um robô, não? Opa, desculpem, preconceito meu). Além de gerar identificação imediata com o leitor, isso dá relevância aos acontecimentos que ocorrem mais adiante.

Neste sentido, talvez o único deslize tenha sido não dar o mesmo tratamento ao robô Mont Blanc. Ele já começa a história morto e o pouco que sabemos dele nos é informado através de outros personagens. Apesar de servir como pontapé inicial do enredo, com certeza perde-se impacto pelo fato de não haver um background estabelecido.

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Gesicht conversa com Brau 1589.

Além disso, a trama de Pluto é repleta de bons mistérios, que são mais do que suficientes para prender a atenção dos leitores. O robô Brau 1589, o próprio Pluto (que, até aqui, teve somente uma breve e vaga menção), os sonhos de Gesicht e o papel de Atom na história são os principais.

Com uma trama envolvente, personagens bem desenvolvidos, mistérios e ação, Pluto tem tudo para confirmar no Brasil a excelente fama que construiu no Japão. É uma excelente história que reúne elementos de ficção científica e suspense policial de forma precisa e cativante. Com certeza vale a pena acompanhar este que é um dos melhores mangás inéditos em circulação no país.

Pluto: Urasawa x Tezuka – Volume 1 (Japão, 2004)
No Brasil: Pluto: Naoki Urasawa X Osamu Tezuka
Roteiro: Naoki Urasawa
Coautor: Takashi Nagasaki
Desenhos: Naoki Urasawa
Capa: Naoki Urasawa
Supervisão: Macoto Tezka
Editora no Brasil: Panini Comics/ Planet Manga
200 páginas (edição nacional)

DANIEL TRISTÃO . . . Paulistano, gosto de quadrinhos desde criança, aos 10 anos me interessei por literatura ao ler suspenses infantojuvenis e ainda adolescente já assistia filmes como um dos meus principais hobbies. Alan Moore, Neil Gaiman, Warren Ellis, Stanley Kubrick, Martin Scorsese, Christopher Nolan, Agatha Christie e H.P. Lovecraft são alguns dos autores que mais admiro. Sou formado em Administração e trabalho com TI; leio livros, gibis e assisto filmes mais do que muita gente considera normal, mas menos do que eu gostaria.