Crítica | Pokemon: A Origem

estrelas 5,0

Pokemon: A Origem foi um especial feito em quatro episódios que acompanhou o lançamento do ótimo Pokemon X e Y para Nintendo 3DS. Aproveitado para mostrar a nova mecânica do jogo – a megaevolução – talvez a mais diferente de toda a história da franquia, esse anime também joga com a nostalgia dos fãs da velha guarda como nunca se viu no desenho tradicional ou nos games. Mas também é mais do que uma simples lembrança: A Origem, ao focar na mesma jornada que todo candidato a mestre Pokemon passou dias vivenciando em seu game boy nos anos 90, mostra ao fã um produto mais adulto e uma bem-vinda releitura detalhista sobre esse mundo.

A escolha de contar a história de Red, protagonista dos jogos, em vez da de Ash, protagonista do anime original, já mostra que o foco, nesse, digamos, filme, será outro. Se o popular desenho mostrava inúmeras diferenças quanto aos dois games que deram origem a todo esse universo, aqui, o que se quer contar com extrema fidelidade é a história que vemos em Red/Blue (Green no Japão). Exclui-se a versão Yellow com Pikachu como protagonista. Red, condutor da jornada, escolhe Charmander e seu rival, Green, Squirtle. A adaptação é fiel do início ao fim.

O primeiro ponto facilmente de ser observado é o próprio traço dos dois rivais que, por mais que lembrem Ash e Gary, dão um tom mais grave e sério que pouco se viu em qualquer produto pokemon. Da mesma forma, e provavelmente o ponto mais empolgante dos quatro episódios, as batalhas entre os bichinhos são feitas de forma completamente diferente das do anime original. O espectador sente cada mordida de um no outro e o tamanho do dano causado. Cada golpe indicado pelos treinadores é fiel aos dos pokemons naquele momento da história, conforme o jogo original estabeleceu no século passado. Os líderes de ginásio passam uma real ameaça e dificuldade que na saga de Ash sempre era contornada por um ato de heroísmo ou qualquer outro recurso infantil. Nada, aqui, é jogado para encher linguiça ou para tornar o personagem palatável.

Esses pontos mais relevantes só funcionam, todavia, graças ao cenário de fundo e à ambientação perfeita colocada em prática nessa adaptação. Passamos pelo laboratório onde o primeiro Pokemon é escolhido, pela cidade de Pewter, vivenciamos o drama de Cubone em Lavender, e conhecemos o complexo prédio da Equipe Rocket em Saffron, o Sliph Co. Tirando outros flashes de personagens fundamentais durante toda a jornada, é ainda possível ver pequenos detalhes como itens de cura e bonecos presentes nos games Red/Blue. Os quatro episódios são bem distintos em suas temáticas, variando do suspense à aventura, mas possuem um centro em comum, um drama emocional que perpassa todo o anime sem deixa-lo cair em uma armadilha que superestime essa dramaticidade. Principalmente, tais temas conseguem cobrir o essencial da jornada de Red, ao mesmo tempo que deixam um gosto de “quero mais”, tamanho o esmero colocado nesse trabalho.

A trilha sonora contribui intensamente para toda nostalgia despertada. Remixando os temas clássicos, desde o aparecimento do rival até o do duelo dos monstros, tudo leva a lembranças do passado, mas foca na apresentação sutil de um universo para um novo público adulto que possa ter passado por cima de Pokemon no passado. Isso se deve também ao bem construído desenvolvimento dos personagens, já que a relação de Red e seu Charmander é o ponto principal do enredo, apresentado sem fillers e invenções. Nesse sentido, soube-se vender muitíssimo bem a ideia de megaevolução abordando essa questão do treinador e sua criatura.

Em um desenho que leva a sério até um Metapod e não deixa de focar na personalidade do protagonista e de cada pokemon que dá as caras, é difícil encontrar um ponto negativo, a não ser seu curto tempo de duração. Uma hora e meia dessa fortíssima nostalgia foi pouco, pois Pokemon: A Origem é algo que eleva a franquia a um novo patamar que inúmeros fãs gostariam de ver há tempos. Evidentemente, não é da essência do game original tratar de temas extremamente adultos, como se vê em outros tipos de anime – Rurouni Kenshin é o que me vem em mente – o que não significa que a bobeira inocente de Ash não pode ser substituída por algo um pouco mais sólido.

Na medida certa, Pokemon: A Origem não abusa na originalidade e, portanto, não distorce nem um pouco seu universo. De tanto cuidado, até a liberdade poética eufórica da batalha final é muitíssimo bem-vinda e faz o jogador que jogou apenas na primeira geração de monstros se interesse pelos novos pokemons criados. Assim também acontece com o jovem que só conhece a franquia a partir do Nintendo 3ds. O passado se atualiza sem perder qualquer tradição que fez o mundo Pokemon ser tão venerado nos últimos vinte anos.

Pokemon: A Origem (Pokemon Origins – Japão, 2013)
Episódios: 1-4
Estúdio: OLM, Production I.G e Xebec
Dubladores: Junko Takeuchi, Takuya Eguchi, Katsuji Mori, Tomokazu Sugita, Rikiya Koyama, Takuyoshi Kawashima, Yui Ishikawa, Minoru Inaba e Satsuki Yukino
Duração: 90 minutos (total)

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.