Crítica | Pokot

Obs: esta crítica possui spoilers.

O que diferencia o assassinato de um ser humano e o de um animal? Por que eliminar a própria espécie é errado (e realmente é), mas matar outros seres vivos não é? Muitos argumentam que dependemos dos animais para nos alimentarmos, mas não seria a natureza abundante o suficiente para isso? O fato é que, diariamente, ocorrem assassinatos em escala industrial, de maneira bastante cruel, para satisfazer os desejos humanos. Durante todo esse tempo, os animais assistiram a esse holocausto calados, porém, nada impede que, um dia, alguém procure vingar-los. O filme polonês Pokot nos apresenta justamente essa situação, mas trazendo uma relação interessante entre público e assassino.

O longa  conta a história de Janina Duszejko (Agnieszka Mandat-Grabka), astrologa, professora de inglês e vegetariana. Certo dia, após chegar do trabalho, ela percebe que seus cachorros sumiram, únicos companheiros em sua rotina. Dias após, Duszejko encontra seu vizinho morto em condições deploráveis, dando início a uma sequência de acontecimentos estranhos, como a morte de várias pessoas na região.

Ao longo da história do cinema, várias obras trouxeram serial killers como protagonistas, mostrando suas motivações e fazendo-nos apegar por eles. Porém, Pokot brilhantemente desenvolve a personagem, mostra sua doçura e gentileza, para, apenas no fim, apresentar seu lado assassino. Duszejko é a protagonista da história, mas, ao mesmo tempo, a assassina em série. Contudo, a revelação desperta um pensamento diferente: será que não faríamos o mesmo? O roteiro, escrito por Agnieszka Holland e Olga Tokarczuk, destaca como a mulher testemunhou, durante anos, o descaso das autoridades para suas denúncias, sofrendo, inclusive, imensos deboches, como, por exemplo, “não entendo porque idosas se importam tanto com os animais”. Diante disso, o que mais ela poderia fazer?

O longa deixa claro como Duszejko não tinha escolhas, ou ela tomava providências ou continuaria testemunhando abates de animais diariamente, impotente diante de tamanha crueldade. Com isso, Pokot tem seu maior triunfo na maneira como coloca-nos no lugar da assassina, uma vez que é inevitável não simpatizar-se com a protagonista. Torcemos para que ela se safe e, mais do que isso, para que continue punindo aqueles que merecem, visto que a lei jamais o fará. Portanto, a obra é precisa em fazer o público repensar não apenas o relacionamento da humanidade com as outras espécies, mas também porque só sentimos choque quando algo ocorre com um semelhante.

A atriz Agnieszka Mandat-Grabka é precisa em abraçar a estratégia do roteiro, construindo em Duszejko uma senhora acolhedora, gentil, atenciosa e que cria simpatia automaticamente. Porém, Agnieszka inteligentemente insere nuances em sua interpretação que deixam brechas para o desfecho, especialmente nas cenas que ela discute com policiais, deixando claro como a mulher chegou em seu limite de paciência.  

Dito isso, fica claro como os verdadeiros vilões de Pokot são os caçadores, assassinando os animais por puro prazer, ou melhor dizendo, sadismo; algo que o longa deixa claro pelas cenas em que os bichos são mortos. No entanto, se o roteiro é tão eficiente em criar identificação entre público e protagonista, talvez falte habilidade para fazer o mesmo com os caçadores, uma vez que eles são extremamente caricaturais e demasiadamente maus. Olhar um pouco de si nos assassinos ajudaria a obra a ser ainda mais precisa em sua mensagem, denunciando como cada um, inserido em uma sociedade que consome tanta carne, ajuda com tamanha crueldade. Entretanto, infelizmente, a obra não chega a tal profundidade.

Outra falha do roteiro está no relacionamento entre Dyzio e Dobra, sendo artificial, pouco explorado e parecendo estar ali apenas para ter algum romance no longa. Para piorar, a tecnologia que o rapaz utiliza para ajudar a protagonista é risível de tão irreal, conseguindo desligar toda a energia da cidade mexendo em seu computador.

Apesar desses erros, a obra acerta ao destacar como as religiões, que tanto pregam o amor, pouco importam-se com o ecossistema, uma atitude extremamente hipócrita, visto que Deus é o criador de tudo, de acordo com suas crenças. Portanto, os diálogos de Duszejko com o Padre de sua cidade são tão repulsivas quanto as mortes dos animais, mostrando a indiferença e falta de empatia do homem diante da dor da mulher, dizendo “Deus fez os animais para serem sujeitos aos homens”.

Seguindo a estratégia do roteiro, a diretora Agnieszka Holland mantém a câmera constantemente perto da protagonista, com uma câmera que segue a personagem, ou seja, vemos a história sob o seu ponto de vista. Além disso, a maior habilidade de Holland está em criar em quem assiste o mesmo incômodo que a personagem sente; repare como o diretor utiliza close-ups extremos nos olhos ou boca daqueles que dizem barbáries como “era apenas um cachorro, entende?”. A fotografia ainda apresenta vários planos gerais que destacam a vastidão, beleza e abundância da natureza, destacando como ela é menosprezada e pouco aproveitada pelas pessoas. Aliás, a paleta de cores apresenta-se fria e esbranquiçada, destacando a indiferença dos personagens para a dor daqueles animais.

Outro argumento bastante utilizado para diferenciar humanos e animais é a falta de racionalidade dos bichos. Mas seria o humano racional? O roteiro inteligentemente faz associações entre as vítimas e a temporada de caça. Portanto, antes da morte de algum personagem, artes visuais destacam quais os animais caçados naquela temporada, sendo três os que ganham mais destaque: cervo, javali e veado. Através disso, testemunhamos como cada vítima também é totalmente entregue aos instintos para conseguir sexo, bebida ou dinheiro, despertando a pergunta novamente: por que eliminar a própria espécie é errado, mas matar outros seres vivos não é?

Obviamente, há diferenças entre humanos e animais, afinal de contas, somos racionais, como foi dito antes. Porém, muitas vezes, esquecemos justamente disso, ser racionais. Se somos superiores como pregamos, que a humanidade utilize essa inteligência para impedir o holocausto que ocorre contra bichos diariamente apenas para satisfazer a ganância e gula humana.

Pokot — Polônia, 2017
Direção: Agnieszka Holland
Roteiro: Agnieszka Holland, Olga Tokarczuk
Elenco: Agnieszka Mandat-Grabka, Jakub Gierszał, Katarzyna Herman, Andrzej Grabowski, Tomasz Kot, Borys Szyc, Miroslav Krobot, Marcin Bosak
Duração: 128 min

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.