Crítica | “Policy” – Will Butler

estrelas 3,5

Arcade Fire provou-se um dos maiores ícones da música contemporânea que, de fato, inova e produz arte. E uma evidência disso é a independência de alguns de seus membros que, por vezes se aventuram em projetos solos. E agora foi a vez de Will Butler, o multi-instrumentista irmão do vocalista Win Butler. Com somente a ajuda do baterista Jeremy Gara — que também atua na banda canadense — e de alguns backing vocals, Will produz um álbum no qual operou em quase tudo, desde as composições até a grande maioria dos instrumentos. Gravado em uma semana no pequeno Electric Lady Studios, um antigo estúdio construído por Jimi Hendrix, Policy apresenta um rock agradável para os ouvidos, mais palatável que os discos da própria Arcade Fire. Todavia, peca na inovação e, é claro, não exprime toda a genialidade instrumental e lírica das composições da banda vencedora do Grammy.

A comparação do disco de Will Butler com os álbuns da banda que faz parte é quase que inevitável: além de ser sua estréia como artista solo — impossibilitando comparações e referências —, ele não somente foi instrumentista, como também auxilia em algumas faixas do grupo canadense e em suas respectivas produções. E são perceptíveis algumas semelhanças entre Policy e discos do começo da Arcade Fire, tais quais Funeral (2004) e Neon Bible (2007). Além desta influência visível, a batida de um rock alternativo não se mistura com muitos ritmos diferentes, se fixando a uma raiz que remete aos anos 90 e ao cenário pós-punk. E era exatamente isso que Will Butler queria: montar uma espécie de homenagem a nomes da música em língua inglesa, como Violent Femmes, The Breeders e Bob Dylan. As oito faixas de Policy levam também outro aspecto do cenário underground ao incorporarem leves críticas sociais e uma ironia mais ácida.

A impetuosa Take My Side abre o álbum de maneira frenética, com uma batida que remarca os acordes do The Clash. Fazendo um diálogo com os conceitos de liberdade e responsabilidade, a faixa com certeza é uma das mais sólidas do disco. Anna é uma das poucas exceções de Policy. Com o uso de sintetizadores e deixando o rock um pouco de lado, a música abre espaço para uma discussão está intrínseca no título do álbum: o dinheiro, o valor que damos ao material e o que se tornou o ser humano. As batidas frenéticas funcionam como uma base para o ambiente de manipulação e artificial que a canção busca demonstrar. Anna funciona como uma introdução para Finish What I Started que, entretanto, apresenta uma batida totalmente distinta de sua antecessora. Nesta faixa, as ondulações do piano convergem com o tom melancólico do arrependimento — que, muito provavelmente, é proveniente daquilo abordado em Anna.

Voltando com as guitarras elétricas, bateria e um ritmo mais marcante, temos Son of God, uma das mais agradáveis e divertidas faixas de Policy, questionando a fragilidade das relações humanas. Something’s Coming, uma das mais apagadas do álbum, poderia facilmente ser classificada como uma perdida de Reflektor (2013) da Arcade Fire. Continuando com as batidas de rock, percebemos algumas influências caribenhas, fortemente presentes no último disco da banda canadense. What I Want é uma redenção crítica ao estilo de vida estadunidense, e promove uma auto-reflexão característica das outras faixas. É a música que mais se apropria do rock alternativo dos anos 2000 — mesclando de forma coesa com um pós-punk — e sua rapidez delirante nos lembra alguns dos inicialmente homenageados por Will Butler neste álbum (já citados no segundo parágrafo).

Quebrando a lógica extasiada pela qual se seguiam as canções, a belíssima balada Sing To Me retoma a melancolia e funciona como um paradoxo entre a libertação e a desistência. O arranjo simples com o piano dá um tom negativo, que, contudo, também remete à perda de lucidez de um eu lírico que está pronto para desistir. Finalizando o curto álbum, Witness é outra faixa que se utiliza do rock alternativo. A batida mais rápida e fugaz dos instrumentos — em especial do piano que, em outras músicas, era utilizado como uma base mais lenta — é sensacional para fechar Policy. Questionando a realidade, a confiança, a coragem e a oposição entre lucidez e sonho (estes últimos já abordados em Sing To Me), Witness reúne os principais temas do disco como todo com uma letra simples que remete a um diálogo.

Assim como os álbuns espetaculares da Arcade Fire, o primeiro projeto solo de Will Butler é mais do que uma experiência musical: é também sociológica, histórica e política, conseguindo abarcar um conteúdo que promove a auto-reflexão. Apesar da falta de ambição refletir em composições não tão bem trabalhadas, faixas que parecem repetitivas e que não se destacam, é preciso reconhecer que este é o primeiro trabalho solo do artista. Apesar de seu amadurecimento como compositor não estar exprimido completamente em Policy, ele ainda é um intérprete formidável que tem muito a oferecer ao mundo da música. E vale lembrar: apesar dos pequenos detalhes, o disco vale a pena ser ouvido: tanto pelo simples fato de ser interessante e agradável como também pela incrível competência artística que o multi-instrumentista da banda canadense possui — uma qualidade um tanto rara de ser encontrada no cenário musical contemporâneo.

Policy
Artista: Will Butler
País: EUA
Lançamento: 10 de março de 2015
Gravadora: Merge Records
Estilo: Alternativo/Indie Rock

GABRIEL TUKUNAGA. . . . Da Sala Precisa de Hogwarts ao Overlook de Jack Torrence, sempre fui fascinado por lugares inóspitos e indecifráveis — ainda que fictícios. Da paixão ao inexplorado, surgiu a incessante busca pelo lugar de pertencimento. Como não faço questão de resolver esse inconveniente agora, tornei-me um entusiasta que ainda tem a pueril esperança de mudar o mundo. Cinéfilo, admirador dos livros, da História e da política, ainda tento sondar e conhecer mais cada um desses itens que, felizmente, jamais poderão ser totalmente decifrados.