Crítica | Poltergeist II: O Outro Lado

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estrelas 4

Depois do sucesso estrondoso e da ascensão rápida ao status de cult, Poltergeist – O Fenômeno entrou para a lista de filmes de horror mais importantes da história do Cinema. Como acontece com todo blockbuster – seja em 1986 ou agora – os olhos das produtoras crescem e a pressão para que uma continuação aconteça é quase invencível (ainda mais quando o sucesso crítico vem junto ao financeiro). Sequências tendem a sofrer muito preconceito, principalmente quando o filme original é tão cultuado (fica a dica de Pânico 2, de Wes Craven, que brinca com essa história toda).

No segundo capítulo da saga paranormal da família Freeling, Steve, Diane e seus filhos estão morando na casa de Jessica, vó das crianças, sem contato com televisão e ainda assombrados pelos acontecimentos do ano anterior, mas sempre bem-humorados e esperançosos de que dias melhores virão. Quando Carol Anne, a linda e loira filha do casal, desperta o interesse de um estranho velho de aparência cavernosa e roupas pretas, começa, mais uma vez, uma batalha do bem contra o mal. Auxiliados por um xamã/índio amigo de Tangina, a paranormal do filme original, a família Freeling se prepara para um embate que promete ser decisivo.

Poltergeist 2 – O Outro Lado é o típico filme que tinha tudo para dar errado: é uma sequência de um filme aclamado pela crítica e adorado no mundo inteiro; não possui a mesma equipe encabeçando o projeto; tem uma história que parece forçada e caça-níquel – mesmo trazendo o elenco do primeiro filme – e traz para seu universo conceitos novos como o xamãnismo, no desespero de não repetir a obra original, que parece aleatório e também conveniente. No entanto, seja por mágica xamã, poder paranormal ou simplesmente a força do legado Spielberg, o filme, surpreendentemente, funciona.

Depois de uma sequência de abertura desanimadora, onde ocorre um ritual mágico indígena, o roteiro de Grais e Victor se desenrola muito bem, mantendo o espectador intrigado e trazendo questões e contextos pertinentes à história. Steve, o patriarca, começa a sentir que proteger sua família é uma responsabilidade sua, que não pode ser transferida, mesmo que ele tenha que enfrentar o desconhecido pessoalmente. Também é bem trabalhada a subentendida personificação de Deus e Diabo existente nos personagens do índio, Taylor, e do velho, Henry Kane (este, a melhor coisa do filme).

Assim como no original, o elenco brilha e só dá mais credibilidade ao projeto. Craig T. Nelson, JoBeth Williams e, claro, Heather O’Rourke são extremamente competentes, convincentes e se entregam de tal forma que temos a forte impressão de que eles realmente acreditam naquilo tudo. É impressionante. Porém, quem rouba a cena em Poltergeist 2 é o falecido Julian Beck, como Henry Kane. Inspiradíssimo de corpo e alma, Julian faz um trabalho genial em que só a sua presença já é perturbadora e, mesmo assim, não conseguimos tirar os olhos dele. A aparência debilitada do ator, por conta de um tratamento de câncer que fazia na vida real, apenas reforça seu trabalho corporal para compôr o personagem: é perceptível a aura macabra de Kane em seu andar, sorriso, cantarolar e expressão – e isso não se deve a doença que enfrentava, e sim seu grande talento. A sequência em que ele faz uma visita a casa da família Freeling, caminhando lentamente e cantarolando, acompanhado de uma nuvem chuvosa, é muito bem dirigida e deliciosamente assustadora. Se não fosse a força e talento de Julian Beck/Henry Kane, Poltergeist 2 – O Outro Lado não chegaria nem perto de ser o que é.

Com uma história que surpreendentemente faz sentido e consegue se distanciar da cultuada obra original, Poltergeist 2 vale a pena e é, sim, uma continuação digna. Tem sequências excelentes como a já citada visita de Henry Kane, a ótima cena de Steve (Craig T. Nelson) possuído e a do monstro se arrastando no chão do quarto, muito bem realizada e que prova o capricho da produção. A única ressalva que faço é a desnecessária obrigação que a saga Poltergeist tem de ser espetacular (no sentido épico, grandioso da palavra), exagerando diversas vezes. A sequência do clímax poderia facilmente ser substituída por algo mais simples que, mesmo assim, não tiraria o charme dessa divertida aventura paranormal.

Poltergeist 2 – O Outro Lado (Poltergeist 2 – The Other Side) – EUA, 1986
Direção: Brian Gibson
Roteiro: Michael Grais; Mark Victor
Elenco: JoBeth Williams, Craig T. Nelson, Heather O’Rourke, Oliver Robins, Julian Beck, Zelda Rubinstein, Will Sampson
Duração: 91 min.

ANDRÉ DE OLIVEIRA . . . . Estudante de Letras e aspirante a jornalista. Ainda se impressiona com o fato de curtir, na mesma intensidade, do cult ao pop; do clássico ao contemporâneo; do canônico ao best-seller. Usa camisa do Arctic Monkeys — sua banda favorita —, mas nada impede que esteja tocando Nicki Minaj no fone de ouvido. Termina de ler Harry Potter e começa um Dostoévski. Assiste Psicose e depois dá play em Transformers. Não tente entender. @andreoliveeira