Crítica | Polytechnique (2009)

Obs: Há potenciais spoilers.

Como abordar a violência sem sentido, irracional e arrasadora? Como lidar com suas consequências? Gus van Sant, com seu Elefante, de 2003, focou em diversos jovens no dia de uma versão ficcionalizada do atentado em Columbine, nos EUA, trabalhando uma trama simples, mas com uma abordagem complexa que lidava muito com as inter-relações entre diversos estudantes da escola. Seis anos depois, Denis Villeneuve faz o mesmo com outro atentado, menos lembrado, acontecido na Escola Politécnica de Montreal, Canadá, em 1989, quando um jovem de 25 anos feriu 28 pessoas, assassinou 14 mulheres e, depois, suicidou-se, tudo debaixo de uma percepção aterradora de que a culpa de tudo de ruim em sua vida era do “feminismo”.

Há muitos paralelos entre o trabalho de van Sant e o de Villeneuve, mas o diretor e roteirista canadense descomplica a história ao focar exclusivamente no assassino, vivido por Maxim Gaudette, duas amigas estudantes, Valérie (Karine Vanasse) e Stéphanie (Evelyne Brochu), e Jean-François (Sébastien Huberdeau), amigo das duas e também estudante. A costura narrativa se dá por meio de uma estrutura não completamente linear, que começa com um breve momento já na escola em que vemos parte do atentado e que em seguida volta para os momentos preparatórios do assassino, especialmente a redação da carta que explica suas ações, o que dá azo a uma narração em off que, de forma expositiva, nos passa sua visão distorcida e doentia de mundo. Não demora e a completamente equivocada forma de encarar o papel da mulher no mundo é contrastada justamente com uma demonstração de preconceito vinda do entrevistador do estágio que Valérie almeja na indústria aeronáutica, quando ele diz que é raro ver mulheres em engenharia mecânica, já que a civil é mais “fácil”, logo emendando para um “fácil para quem quer ter filhos”.

Nesse ponto, Villeneuve, que co-escreveu o argumento com Eric Leca e com diálogos de Jacques Davidts, ensaia uma visão didática dessa complexa questão, o que poderia derrubar a força de sua obra. Felizmente, porém, o didatismo para por aí. A partir desse contraste direto, o espectador é brindado com o assunto pairando sobre a narrativa, mas nunca efetivamente interferindo nela. Karine Vanasse, que é co-produtora e a responsável pelo filme ter saído do papel, tem uma atuação impressionante como Valérie, em que sentimos o peso da misoginia a cada ação, a cada olhar. Na poderosa sequência em que o assassino encurrala as mulheres  em sala de aula, mandando os homens irem embora, o rosto de compreensão de Valérie sobre o que está acontecendo é de cortar o coração e de fazer qualquer um tensionar os músculos. É como se esse singelo, mas extremamente aterrador momento encapsulasse o preconceito e a internalização de como o preconceito afeta profundamente aqueles que são alvos dele. Não há volta a partir desse momento tanto para o assassino quanto para Valérie, ainda que, claro, de formas completamente diferentes.

Mas o melhor do roteiro é que ele também lida com as consequências psicológicas de tudo o que acontece, tendo em seu foco primeiro Jean-François, que é um dos homens obrigados a sair da sala de aula onde o massacre começa e o único que hesita nesse processo e que vemos tentando fazer alguma coisa e, depois, na própria Valérie. Por vários minutos, parece que a fita passará a usar unicamente o ponto de vista de Jean-François, em uma troca de visão que pode parecer estranha nos primeiros minutos, mas que é plenamente justificada. Jean-François não é exatamente um herói, pois o filme não quer tratar dessa questão. O objetivo é, na verdade, estudar a reação de um homem a um assassino que mata mulheres por culpá-las por seus problemas. Na verdade, é mais do que isso. É como se Jean-François representasse a culpa pelo ocorrido, mas não a culpa direta, facilmente verificável, mas sim a culpa que a sociedade como um todo tem pela forma como as mulheres são tratadas e vistas, algo que, na cabeça do personagem, é simplesmente inconciliável e indesculpável.

Se as consequências para Jean-François são trágicas, no caso da vítima direta do atentado, Valérie, o que vemos é justamente o oposto. A tragédia abriu de vez seus olhos para a forma como o mundo a encara, mas, mesmo assim, ela anda de queixo erguido, sem deixar que isso a abale exteriormente, tendo conseguido reconstruir sua vida, ainda que, em seu monólogo interior – que conta também com a redação de uma carta ao pai do assassino – sintamos suas dúvidas. A mensagem que o filme passa é positiva, apesar dos horrores, algo que de certa forma Villeneuve repetiria no ano seguinte em Incêndios. Pode parecer uma improbabilidade ou algo artificial demais, mas, tenho para mim, que não é. Nem de longe na verdade. Valérie encapsula a força de vontade, a capacidade de adaptação e de transformação das mulheres e Villeneuve, com sua câmera sempre junto ao rosto de Vanasse, constantemente nos mantém cientes disso, cientes de que não será uma visão de mundo distorcida e doentia (e não falo só do assassino, que fique claro) que abafará essas qualidades.

Estilisticamente, o diretor escolheu a fotografia em preto-e-branco de Pierre Gill, conseguindo um resultado que transita entre o documentário e, estranhamente, a pegada onírica. Apesar de contar uma história pesada, essa sua escolha permite que a narrativa flua mais facilmente entre a realidade nua e crua – no caso, toda a fria e calculista ação do assassino antes e durante o massacre – e o enfoque psicológico pós-trauma sem que haja solução de continuidade e permitindo que as idas e vindas da montagem não-linear de Richard Comeau funcionem organicamente. As cenas exteriores, mesmo com a crescente tensão facilitada pela discreta, mas eficiente trilha sonora de Benoît Charest, são particularmente belíssimas, com Gill usando a neve branca para contrastar a sobriedade da história, quase emprestando um caráter fabulesco ao filme.

Algumas escolhas de Villeneuve, porém, são discutíveis, como alguns ângulos extremos ou as filmagens de cabeça para baixo sem uma função narrativa que decorra do que estamos vendo. Quer parecer, por algumas vezes, que o diretor está experimentando ou querendo deixar sua marca, mas são momentos que realmente não funcionam, ainda que nem de longe afetem de verdade a experiência cinematográfica.

Polytechnique é um pequeno filme de caráter ambicioso lidando com uma tragédia verdadeira. Assim como Elefante, de van Sant, alguns anos antes, trata-se de uma daquelas obras que, uma vez assistida, não será esquecida, ainda que façamos todos os esforços para arquivá-la naquele local da mente para onde vão as obras desconfortáveis demais para serem sempre lembradas por refletirem aquilo que já vemos ao nosso redor todos os dias, de uma forma ou de outra. Mas filmes que realmente interessam não nascem para serem agradáveis e sim justamente para incomodar. E isso Villeneuve faz brilhantemente.

Polytechnique (Idem, Canadá – 2009)
Direção: Denis Villeneuve
Roteiro: Denis Villeneuve, Eric Leca, Jacques Davidts
Elenco: Maxim Gaudette, Karine Vanasse, Sébastien Huberdeau, Evelyne Brochu, Johanne-Marie Tremblay, Pierre-Yves Cardinal, Pierre Leblanc
Duração: 77 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.