Crítica | Pompeia (2014)

estrelas 3

 Outro “Paul Anderson”, só que esse tem um W.S. no meio. De Resident Evil, ele pula para um épico histórico sobre, adivinha, os últimos dias de Pompéia, aquela cidadezinha romana que, graças ao Doutor, foi destruída por alienígenas. Não, pera, tô confundindo tudo… Vai, eu mereço um guilty pleasure… E tem Carrie-Anne Moss e Emily Browning no elenco!

Ritter “Birdman” Fan em: Os Filmes (originais) de 2014 Que Ansiosamente Aguardamos.

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O modelo de “tragédia anunciada” não funciona para a maior parte dos filmes destinados a arrasar quarteirões. O fato de o público já conhecer a história exige dos roteiristas nesse tipo de filme um rigor ainda maior na construção de um ambiente aceitável para que a tragédia aconteça. Quando se trata de filmes de guerra e similares, a situação muda, porque sempre haverá uma história maior e prioritária (boa ou ruim) a ser contada, de modo que o momento histórico é um plano de fundo para ser trabalhado em par com os eventos dramáticos. No caso das “tragédias anunciadas”, a expectativa é outra.

Dominar o evento a ser filmado é a principal palavra de ordem nesse modelo de filme. Seja esse evento um acontecimento histórico ou uma lenda, o público vai querer vê-lo na tela, se possível com os mínimos detalhes e, a não ser que o caminho para que se chegue até a tragédia destoe completamente do momento histórico ou cenário conhecido, a obra conseguirá driblar o impasse que citei no início do parágrafo anterior e funcionará no mínimo razoavelmente bem dentro daquilo que se propõe fazer. Esse é o caso de Pompeia (2014), de Paul W.S. Anderson.

Uma das maiores tragédias naturais da civilização Ocidental e a maior tragédia da Antiguidade em um ambiente urbano, a erupção do Vesúvio no dia 24 de agosto de 79 d.C. serviu como base para que Paul W.S. Anderson realizasse um interessante épico de sandálias e espadas, trazendo de forma bem utilizada os mais comuns clichês do gênero e dando atenção para aquilo que realmente levou a plateia ao cinema: a erupção do vulcão e a destruição de Pompeia.

Torcer para que algum personagem do filme saia com vida dessa tragédia deve estar fora dos planos dos espectadores mais românticos e clamantes de um final feliz. Nisso Anderson é digno de aplausos. Ele não perdoa o casal bonitinho que encena a pior parte do filme, com um amor chateante e insosso que vence as barreiras sociais da época e acaba juntando Milo, o escravo celta (Kit Harington, o Jon Snow de Game of Thrones) e Cassia, a filha de um aspirante político e comerciante notável de Pompeia (Emily Browning, a Babydoll do abominável Sucker Punch: Mundo Surreal). Mesmo que o insuportável esteja na fronteira do drama amoroso e ele próprio seja responsável por diminuir a qualidade do filme, o que temos na tela a partir da atividade do Vesúvio é um excelente espetáculo de entretenimento que faz valer o ingresso e que nos faz esquecer a linha de ações anteriores.

Este é o ponto onde temos a impressão de que toda a equipe técnica foi trocada na parte final, começando do pessoal da engenharia de som e do compositor. O trabalho de Clinton Shorter, que já tinha feito algo muito interessante na trilha sonora de Distrito 9, só se torna apreciável depois que a nuvem de cinzas cobre Pompeia e começa a chover seixos e rochas maiores sobre pessoas e casas. Uma mistura de vídeo-cassetada com uso eficiente do 3D divertem imensamente o espectador, que compra e ideia do pequeno recuo do Mar Tirreno e o tsunami que daí resulta, o contexto imagético conseguido pelos grandes planos e panorâmicas sobre a cidade onde fogo, pessoas mortas ou em desespero, cinzas e pedras são encontrados em grande escala; e, por fim, as tomadas em diversos pontos do espaço geográfico, da arena de gladiadores ao porto, do interior das casas às colinas próximas ao vulcão. Mesmo perdendo muitos pontos no caminho adocicado (embora coerente com a época) até a tragédia, Paul W.S. Anderson se redime na reta final.

A vantagem de termos um segundo momento do filme mais forte, mais importante e melhor que o primeiro é que nossa impressão final sobre a obra é, em geral, positiva. Impossível não gostar das tonalidades quentes entre o laranja, o amarelo e o vermelho que toma conta de uma Pompeia neutra ou de cores secundárias da primeira parte. A fotografia de Glen MacPherson, que já havia trabalhado com Anderson em Resident Evil 4 e 5 e em Os Três Mosqueteiros consegue criar espaços muito próximos com peculiaridades estéticas bem distintas, assim, podemos ver como seu trabalho evolui quando a tragédia começa a acontecer. A tonalidade das chamas, a frieza das águas do Tirreno, o verde em contraste quase metálico da colina, o cinza e preto da fumaça do Vesúvio e os filtros verde e laranja usados nas últimas cenas compõem um visual apocalíptico muito convincente, não exagerado, como na maior parte dos filmes de tragédia, e nem sutil demais. Também sua ideia de captura para os cenários em 3D melhoram do meio do filme para frente, mas não são de todo ruins no início. As camadas em profundidade de campo contextualizam o cenário e as personagens com grande número de detalhes e, nas lutas entre os gladiadores ou na chuva de rochas e cinzas do vulcão, os objetos em direção à tela não são feitos de forma barata ou constante. Essa boa dosagem entre externo/interno do 3D é um outro ponto positivo onde o filme sai melhor que a média.

Longe de ter um elenco afiado, Pompeia se caracteriza mais pelo bom trabalho de uns pouco atores. Vale dizer que a maior parte da equipe é mais conhecida da televisão (Mad Men, 24 Horas, Game of Thrones, Grimm, Lost, Cult), talvez por isso houvesse um certo desconforto em alguns papeis, especialmente na relação do casal protagonista (embora não possamos dizer que Kit Harington esteja péssimo no filme). O maior destaque, porém, vai para Kiefer Sutherland, que realiza um vilão à moda antiga e encarna um Senador Corvus como um odioso romano. Seu figurino, maquiagem e entonação de voz são os toques finais da personagem, que assim como o Proculus de Sasha Roiz tem uma linha corrente de maldade em ação e acaba morrendo implorando por misericórdia. Uma pegadinha cínica do roteiro.

Ávida e pensada como um término épico, a penúltima cena do filme é um amálgama do que tivemos de ruim no início e um pouco do que tivemos de melhor na segunda parte. Nesse ponto, a lava do Vesúvio já escorre por Pompeia e calcina toda a cidade. O clímax da tragédia ocorre de modo impiedoso (chega a ser trágico e lírico, quase poético) e o ciclo se fecha com o que sobrou, séculos depois, do casal apaixonado. Pompeia não é um filme excelente ou livre de erros, mas é uma obra que segue de modo bastante aceitável a linha de tragédia épica e de sandálias na qual se aventura. Mesmo que não atinja um termômetro de estetismo rigoroso em todas as áreas e todo o tempo, o filme diverte, assusta e impressiona o espectador. Não dava para esperar mais que isso.

Pompeia 3D (Pompeii) – EUA / Alemanha / Canadá, 2014
Direção: Paul W.S. Anderson
Roteiro: Janet Scott Batchler, Lee Batchler, Michael Robert Johnson
Elenco: Kit Harington, Carrie-Anne Moss, Emily Browning, Adewale Akinnuoye-Agbaje, Jessica Lucas, Jared Harris, Joe Pingue, Kiefer Sutherland, Currie Graham, Dylan Schombing.
Duração: 100 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.