Crítica | Ponte Aérea

estrelas 4

Nem tão longe, nem tão perto. A tecnologia derrubou os obstáculos físicos, mas também se foi a solidificação das bases de um relacionamento. Em cima do conceito analisado por Zygmunt Bauman em Amor Líquido, é possível discutir sobre a contração das relações amorosas, que ganham uma perspectiva de tempo e contato específicos de uma sociedade que busca freneticamente o avanço; cada vez é mais rápido o processo para forjar intimidade, mas ao mesmo tempo o desapego se torna mais fácil por seguir o fluxo desta liquidez da qual Bauman fala. Essa discussão atiçou a inquietude da diretora Julia Rezende e ela conseguiu transpor uma história de amor, por meio do vapor entre o sólido e o líquido, para a tela do cinema. É a brisa do gênero de comédia romântica no cinema brasileiro.

Em Ponte Aérea (2015) o pedaço entre um ponto e outro serve para aproximar duas personagens que em outra situação poderiam até se esbarrar, mas continuariam andando normalmente, sem nem pedir desculpas. A ambição do filme é ser um retrato de algo que as pessoas vivenciam e experimentam nesse lapso entre tecnologia e mundo real, e é bem sucedido nisso. Os elementos neste filme são contrários e e se chocam numa turbulência capaz de mudar os rumos de dois estranhos, com os quais o espectador pode muito bem se identificar.

Amanda é uma redatora publicitária workaholic que mora, obviamente, em São Paulo e Bruno é a antítese dela. Ele não tem ambição profissional e não está conectado nas redes, embora seja um artista promissor. O tempo dos dois é dissonante. Ela corre, ele para. A vida dela é um trator e ele vagueia num barco à vela. Em certo momento ele se insere no mundo digital e a realidade pesa. Hoje parece mais simples ignorar e apenas emudecer para desaparecer sem ter embate, sem ter de lidar com o que sente e o que pensa. Uma anestesia social.

Letícia Colin consegue traduzir o cinismo e a suavidade que se debatem na Amanda e atraem a personagem de Caio Blat, que transita entre a afeição e o egoísmo. A atuação dos dois mostra as nuances em cada um e a transição dos personagens é muito interessante e eles mudam guardando a essência inicial, o que assume um caráter bastante parecido com a maneira como a vida acontece.

A escolha de usar luzes artificiais para filmar em São Paulo em contraste com o aproveitamento da luz natural no Rio de Janeiro é uma opção estética que conversa diretamente com o roteiro e a psiquê dos personagens. A fotografia do filme é bem atraente e as locações, principalmente da casa de cada personagem são muito importantes para compor a personalidade destoante dos dois. A frieza e o aconchego mais uma vez não são o que aparentam ser, assim como SP não é retratada com o cinza e o RJ não é vibrante.

As referências citadas previamente pela diretora são os filmes dirigidos por Sophia Coppola e pela diretora iraniana Massy Tadjedin de Apenas Uma Noite. Coincidentemente, são mulheres que fizeram filmes sobre relacionamento e exploram o desconforto e os detalhes que constroem a realidade de um ponto de vista autoral e poético.

Na era digital, a artificialidade nos diálogos ganha status e seguidores e isso é transportado para dentro do roteiro. A não verbalização do que os personagens realmente pensam e sentem é uma sacada pertinente. Existe, por parte dos dois personagens em momentos diferentes, a necessidade de interagir a uma distância segura (até como uma forma de auto-preservação, talvez) e a distância aparece recorrente, pela quilometragem, pela virtualidade, pela falta de palavras.

Em silêncio ocorre uma ruptura que é verbalizada por uma cena que mostra o vácuo entre um e outro de uma forma agressivamente desconfortável. Para nenhum dos dois é fácil se abrir e fechar. Eles fazem um movimento contrário em tremenda sincronia. Apegar e desapegar é apenas um processo já quase natural, mas não indolor.

A distância pode ser medida em quilômetros ou não. Entre um voo e outro, o tempo embaça e o que fica é a constatação de que finais felizes são menos frequentes enquanto instantes felizes se sobressaem nesta história a dois.

Ponte Aérea (Brasil, 2015)
Diretor: Julia Rezende
Roteiro: L. G. Bayão, Julia Rezende
Elenco: Caio Blat, Letícia Colin, Felipe Camargo, Emilio de Mello, Cristina Flores
Duração: 108 min.

GABRIELA MIRANDA . . . Cinéfila inveterada, sigo a estrada de ladrilhos amarelos ao som de Jazz dos anos 20 enquanto escrevo meu caminho entre as estrelas. Com os diálogos de Woody Allen correndo soltos na minha cabeça, me pego debatendo entre gostar mais do estilo trapalhão ou de um tipo canalha de personagem. Acima de tudo, acredito que tenho direito de permanecer com minha opinião. Mas acredite, nada do que eu disser poderá ser usado contra os filmes.