Crítica | Ponte dos Espiões

estrelas 4,5

Spielberg retornou! Ponte dos Espiões é a melhor produção do clássico diretor nesta última década. Sim, nós sofremos com Lincoln e com Cavalo de Guerra. Mesmo sendo filmes razoáveis, não esbanjam o talento indubitável de Steven Spielberg para sua vertente de filmes sérios que agregam obras-primas como O Resgate do Soldado Ryan, A Lista de Schindler e Munique. Agora, finalmente, temos aqui um dos filmes mais agradáveis da brilhante carreira do diretor.

O ano é 1957, a tensão da Guerra Fria sobe. A guerra de espiões da União Soviética e dos Estados Unidos já está em constante atrito. Nisso, um agente soviético é capturado pela CIA, Rudolf Abel. Para provar que o modelo americano é o melhor, é ordenado que o espião passe por um tribunal justo assim como um criminoso comum dos Estados Unidos. Para isso, James B. Donovan, um corretor de seguros e advogado, é designado para a defesa do espião. Tentando salvar a vida do homem, Donovan tem a sorte de um espião americano ser capturado na União Soviética. Com isso, o advogado é designado a propor a troca de espiões e negociar os termos entre as partes. Obviamente, isso coloca sua vida em jogo assim como a de sua família.

A maior novidade do longa fica mesmo por conta do roteiro. Essa é a primeira vez que Steven Spielberg dirige um texto escrito pelos irmãos Ethan e Joel Coen com a colaboração de Matt Charman. Com o Spielberg desses últimos anos, o resultado poderia ser bem catastrófico. Um melodrama choroso e over como Lincoln ou Cavalo de Guerra. Porém, existe uma certa magia no cinema. Uma energia que envolve a produção em todos os setores de tal maneira que há um ápice de sincronia e harmonia interna. Essa sinergia é rara e resulta em filmes excelentes.

Isso acontece aqui em Ponte dos Espiões. O texto dos Coen está mais afiado do que nunca. Apesar de ser um filme de ritmo inconstante, nós sempre somos presenteados com diálogos formidáveis. Praticamente, desde Django Livre eu não via um filme com um trabalho tão primoroso em conversação. Aqui, ocorre algo que somente mestres da escrita conseguem fazer: dar características únicas para os personagens através das palavras.

Donovan é um personagem completamente distinto de todos os outros. Aliás, cada um é singular em seu jeito de ser. Entretanto, os Coen sacrificam, propositalmente, muitos elementos dos personagens secundários – restam apenas características caricaturais como a comicidade ou o rancor/ódio. A maioria deles são alegóricos. Servem apenas para cumprir sua mera função de mover a história para frente e criar novos conflitos. Logo, não espere um estudo de personagem muito profundo aqui.

Nem mesmo Donovan é um personagem lá muito complexo. Assim como em diversos filmes do Spielberg, Donovan é o homem bom, pagador de impostos e provedor da família que é jogado em uma situação extraordinária na qual descobre um talento fantástico. Apesar de isso ir contra meu gosto pessoal, reconheço que aqui, não é prejudicial. O formato do filme exige isso senão viraria uma novela de cem capítulos. Outro longa que assume um texto inteligente como este, dinâmico e que deixa o desenvolvimento de personagem em escanteio é o fantástico Argo – longa que ganhou o Oscar de Melhor Filme, Montagem e Roteiro Adaptado em 2012.

Isso é tão evidente que há elipses bem apressadas em diversos momentos do longa para dinamizar o deslocamento de Donovan no progresso da trama. Os trunfos do texto ficam mesmo pela sabedoria dos diálogos que elaboram a maioria das reviravoltas do filme. Aqui ocorre o caso da “contação” ante a “exibição” – algo raro hoje em dia já que diversos filmes preferem trabalhar suas reviravoltas a partir da revelação visual. Um exemplo recente desta técnica ocorre em Colina Escarlate. Ou seja, isso acontece por conta do talento de persuasão do protagonista. Somente a relação entre Donovan e Abel que realmente é delineada com um pouco mais cuidado.

Os núcleos da família, do trabalho e do governo, são somente apresentados para compor Donovan única e exclusivamente. Todas as subtramas que surgem em algumas raras cenas, logo são deixadas de lado ou servem apenas como alívio cômico. Aliás, o texto tem uma cisão nítida a partir da metade do filme.

O começo do longa é centrado justamente na relação de Donovan com Abel e o progresso do julgamento. O meio, talvez a parte mais fraca do texto, investe na apresentação do espião americano, Gary Powers, que simplesmente não consegue despertar grande interesse do espectador – do jeito que é contado, não há muita necessidade em existir tantas cenas dedicadas a esse arco já que fariam pouca diferença para a experiência final do filme. O terceiro ato é onde ocorre os maiores trunfos do texto incluindo o humor muito inusitado dos Coen colocando personagens poderosos em situações constrangedoras em momentos de verdadeiro brilhantismo cinematográfico.

O roteiro também agrada por não ficar enaltecendo nenhuma das partes – as críticas vêm de todos os lados, seja para o americano, a intolerância do povo mentecapto, a corrupção das instituições legais e a paranoia exageradíssima com o conflito nuclear ou o soviético com a cortina de ilusões, a desinformação, a miséria, a violência genocida e a ditadura. O fator histórico é corajoso e correto. Finalmente, além de A Vida dos Outros, existe um filme que mostra a submissão da RDA para com a URSS, fora exibir o modo de fazer política dos socialistas da época – com ênfase nos socialistas da Alemanha Oriental e seu vergonhoso muro de Berlim, verdadeiro atentado aos Direitos Humanos. Nada é preto no branco em Ponte dos Espiões tanto que até mesmo Donovan diz em determinado momento que é preciso homens negociarem, já que seus governos são incapazes para isto. Ou seja, há sempre a sugestão de que a paz é desejada pelos “homens comuns”.

Os roteiristas também acertam em manter o tom realista com Donovan. O filme não é tenso como você pode imaginar, mas os Coen se esforçam em não deixar o protagonista muito confortável em diversas situações. Algo que Tom Hanks, em sua quarta parceria com Spielberg, mostra em tela formidavelmente. Como sempre, Hanks traz sutilezas em sua atuação. O personagem nos cativa, provoca empatia imediata graças a naturalidade do talento do ator para trazer Donovan à vida. Além do espetáculo de atuação proporcionado por Tom Hanks, temos a grata surpresa da performance de Mark Rylance – candidato fortíssimo para a indicação de Melhor Ator Coadjuvante, da qual concordo plenamente.

O trabalho elaborado por Rylance com seu espião russo Rudolf Abel é tão belo quanto o de Hanks. Rylance mantém a mesma expressão, o mesmo tom sereno durante o longa inteiro. Não, não se trata de preguiça, mas sim de uma genialidade. O roteiro explica a calmaria de Abel com ótimo senso de humor. Além disso, a sinergia que ele e Hanks atingem nas diversas cenas destinadas a desenvolver a amizade, consegue suprir as deficiências do texto para justificar a motivação obstinada da defesa de Denovan com seu cliente.

Além de contar com um roteiro soberbo, Ponte dos Espiões possui a melhor direção de Spielberg dos últimos anos. Tudo já fica claro no início do filme logo em seu primeiro plano que, além de contar com uma linda composição, possui uma forte simbologia na apresentação de Abel. Logo depois, ocorre uma perseguição longa com trabalho intenso de câmera na mão e ausência de trilha musical – aliás, o diretor utiliza a música de Thomas Newman em momentos muito específicos. Newman mimetiza muito bem o estilo romântico de John Williams.

Com a encenação sempre inteligente – que me lembrou muito Prenda-Me Se For Capaz, Spielberg constrói o suspense desta sequência graças a ausência de conhecimento por parte do espectador sobre quem está perseguindo quem ou sobre quem é o “mocinho” e quem é o “bandido”.

Porém esses são somente os primeiros quinze minutos de projeção. Spielberg ainda reserva muitos lances geniais de direção e montagem para o nosso deleite. Como sempre, a movimentação de câmera é fantástica, mas agora, restrita a algumas cenas. Ele trabalha muito com câmera parada e diversos planos e contraplanos que compõem a maioria da decupagem das muitas cenas de conversação. Provando que se trata de um Spielberg um tanto diferente, ele não investe praticamente nada no melodrama com close ups fechadíssimos. Aqui, ele dita o ritmo de forma que a cena possa respirar – afastando os planos, para depois inserir alguns planos médios ou próximos, logo depois, retorna para o plano conjunto ou geral. É uma riqueza tremenda de linguagem visual que sempre provocam teu interesse a partir do momento que você saca a lógica da montagem.

As marcas autorais de Spielberg ainda estão presentes, com ênfase em duas delas: os raccords visuais – quando um plano puxa o outro por sua semelhança visual com o intuito de conferir uma mudança rápida de passagem além de agregar poesia para a transição, e a encenação inteligente que sustentam planos longos. Ele cria cenas inteiras, como as que se passam nos trens, somente pelo olhar, seja de reprovação, admiração ou até mesmo para comparar cotidianos diferentes – tudo isso engrandece, e muito, o longa. Fora isso, Spielberg explora bastante a ironia do texto dos Coen visualmente atingindo o ápice do humor com a sequência que se passa dentro de uma escola americana.

Além de um excelente trabalho de direção, Spielberg retoma sua parceria com seu amigo de longa data Janusz Kaminski, um dos maiores diretores de fotografia da atualidade. Mesmo repetindo esquemas de iluminação muito semelhantes aos de O Juiz ou Lincoln e explorando sua marca autoral novamente – preencher o quadro com discretas névoas demarcadas pela fortíssima contraluz, Kaminski realiza um grande trabalho. Durante uma das cenas mais belas visualmente – aliada de ótima encenação geral, o cinematografista explora silhuetas modeladas através, obviamente, da contraluz, só que em vez de trabalhar com névoa, Kaminski usa a chuva para conferir a ambientação noir envolvida em mistério e suspense.

Tanto ele quanto Spielberg deram atenção às objetivas a serem usadas para filmar as cenas que Hanks contracena com Rylance. Para apresentar o primeiro encontro dos dois, Spielberg os enquadra a partir de um ponto de vista exterior a sala que os separa por conta dos ornamentos da porta denotando que os dois pertencem a universos completamente opostos. Porém, logo depois, no plano seguinte, Kaminski utiliza uma grande angular que distorce a imagem – um efeito “olho de peixe” que distorce somente o fundo. Isso resolve a cena de modo brilhante, já que antes, os dois eram separados no enquadramento e agora, são unidos pela distorção da objetiva que os aproxima ainda mais no plano sugerindo a forte ligação da amizade vindoura. Fora isso, Kaminski inunda a sala com uma contraluz que estoura a fotometria – presságios de esperança e serenidade. O resultado estético é excepcional. Isso aqui é o verdadeiro cinema. Uma cena pensada em praticamente todas as áreas.

Não satisfeito com o ótimo trabalho de modelagem da iluminação e a contraluz divina, Kaminski joga a paleta de cores para tons monocromáticos, frios e dessaturados em junção ao grão gordo do filme Kodak – sim, o longa foi filmado através da clássica película 35mm – em praticamente o filme todo, afinal se trata de uma narrativa de espiões em meio à Guerra Fria. Chegamos ao ápice dessa tristeza visual quando Donovan visita à Berlim Oriental. A representação visual emana a opressão, o abandono e a tristeza. Não somente por conta da fotografia, mas também pelo design de produção fantástico que confere um realismo absurdo para a decadência da RDA, além da encenação também contar com as nevascas alemãs deixando tudo ainda mais depressivo e desértico.

Não se enganem. A foto não é maniqueísta, apesar de conferir um look mais ríspido e frígido para a Alemanha Oriental. O grão razoavelmente alto é presente no longa inteiro assim como os tons gélidos e tristes. Aqui nada é encantado e maravilhoso onde um lado é um lixo e o outro, um mito. Se trata da adaptação visual poética de um dos períodos mais tristes da nossa história que tem o tratamento estético muito apropriado – e belo.

Talvez, a única sequência na qual Spielberg demonstra estar engessado, é, infelizmente, logo a que seria a mais interessante visualmente se houvesse uma decupagem mais criativa – a da construção do Muro de Berlim. Entretanto, em meio a um trabalho corajoso em relação a trilha musical, a preparação de elenco, tantas composições cheias de simbologias que clamam pela atenção do espectador para as decifrar e pela montagem bem pensada, isso nem chega a ser um demérito.

Ponte dos Espiões marca o retorno de Steven Spielberg à boa forma e ao modo mais gostoso de se fazer cinema: com criatividade e amor pela arte. Este é um dos longas que com total certeza será indicado à Melhor Filme no Oscar do ano que vem. Não perca a oportunidade de conhecer o brilhante feito de James Donovan e sua negociação espetacular da troca de espiões. O longa entrega diversão e drama dosados na medida certa. Não somente por ser um filme exemplar e trazer ao nosso conhecimento essa conquista extraordinária aliada de apuro artístico impecável, mas também por se tratar de uma vitória.

Não uma vitória qualquer. Mas sim uma vitória sobre o medo em um dos períodos mais incertos da nossa existência.

Ponte dos Espiões (Bridge of Spies, EUA, 2015)
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Matt Charman, Ethan e Joel Coen
Elenco: Tom Hanks, Mark Rylance, Alan Alda, Amy Ryan, Austin Stowell, Michael Gaston, Edward James Hyland, Peter McRobbie
Duração: 141 minutos.

MATHEUS FRAGATA . . . Estudo cinema na UFSCar seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas. Tenho sonhos em 4K, coloridos e em preto e branco. Sempre me emociono com as histórias contadas por esta arte. Agora busco a oportunidade de emocionar alguém com as que tenho para contar.