Crítica: Ponto Final – Match Point
Movimento. Luzes. Olhares. Ações. Cores. Tudo isso entra numa sincronia tão perfeita tanto na vida real quanto no universo de ficções cinematográficas românticas que a presença da sorte se torna obrigatória. A sorte de um momento, a sorte de um encontro, a sorte de um choque, a sorte de um romance. Há tantas possibilidades em cada segundo que não se pode restringí-las unicamente como necessariedade. O devir de Heráclito é o que move os instantes e a incerteza do ser e do estar. É o movimento do tempo, é a surpresa da vida. E Woody Allen, talvez por começar a respirar novos ares em Londres, aprendeu isso da melhor maneira. É através de uma analogia entre a sorte, entre um momento, entre um romance, entre a burguesia inglesa e entre a obra prima de Dostoiévski que ele cria Match Point e volta a ser tão interessante quanto o Allen de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa.
Chris Wilcott (Jonathan Rhys Meyers) é um jovem irlandês ambicioso de classe média, que teve de se esforçar para conseguir vir morar em Londres. Na capital inglesa, ele começa a trabalhar como um instrutor de tênis e acaba por começar uma amizade com um aluno, Tom Hewett (Matthew Goode). Depois de conversas descontraídas, drinques e convites à ópera, Tom leva Chris para conhecer sua família. Nesse encontro, Chris se apaixona pela irmã de Tom, Chloe Hewett (Emily Mortimer). Quando o relacionamento dos dois se torna mais concreto e as visitas mais constantes, o instrutor de tênis vê sua carreira ser alavancada pelo envolvimento com uma família de tamanho prestígio. Mas, ao mesmo tempo, ele se encontra apaixonado por Nola (Scarlett Johansson), a noiva de Tom.
O romance se encontra em toda a atmosfera. Impregna o ambiente. A preferência por um triângulo amoroso se encontra viva nas obras de Allen, o jogo de amores, traições e paixões. Em seu novo longa, Meia-Noite em Paris, há o argumento de que, com certeza, pode-se amar duas pessoas, mas de maneiras diferentes. Não é diferente nesse filme. Mas aqui as paixões não são paixões, exatamente porque elas possuem nome, e eles são a ambição e a sedução. Chris é o homem que não consegue se apaixonar em cena. Todas as palavras e os carinhos dirigidos suavemente à Chloe beiram o superficial, tentam enterrar um sentimento de paixão para integrar um de respeito. Mas o outro lado não procura respeito, procura o desejo, o toque, o amor que não consegue ser recíproco. Se Chris acha em Chloe uma parceira para a vida ou uma escada para o sucesso, isso está nas interpretações de cada um. Mas ele nunca a amou, ou nunca teria criado tamanho distanciamento. Nola interpreta a luxúria em cena. A fotografia favorece a personagem de Scarlett Johansson em seus movimentos repletos de um sex appeal fortíssimo. Ela consegue roubar a cena por ser uma personagem de beleza incomparável. E é fora de sua prisão conjugal que ele encontra verdadeira felicidade de amar e ser seduzido. Quando Chris se afoga no oceano de paixão em que Nola lhe fisgou inconscientemente, ele encontra o amor que procurava em outros momentos.
Match Point aos poucos se torna um ensaio sobre a hierarquia social. Porquê Chris não consegue manter um relacionamento estável com Chloe, a mulher que ele admira e por quem nutre algo inferior a Nola? Os iguais nasceram para ficar com os iguais? Chloe só deveria se casar com alguém de renome? Ou será que Chris é apenas bastante inquieto para conseguir frear toda a sua existência ao redor de uma única pessoa, sem dar mais chance à sorte, à possibilidade? Há pessoas que não nasceram para se enclausurarem num escritório e sentar, vendo o acaso atingir, inesperadamente, as pessoas do mundo de fora. Os Titãs cantaram sobre isso, “o acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído”. Mas quando a vida se torna uma rotina, quando você não dá chance à sorte de mostrar sua verdadeira face, o que acontece? Um arrependimento no epitáfio? Woody Allen faz isso em seu roteiro, no mínimo, inesperado. As reviravoltas são constantes porque Match Point tenta se igualar à vida: nunca se sabe o que se pode esperar. Ironias do destino aparecem e tomam o lugar das comédias que apareciam em suas obras anteriores, agora a comédia é rir do existencialismo.
Por fim, os personagens se mostram mais ambiciosos do que vivos. Chris busca na vida uma chance tão grande de ascensão social, lendo grandes livros de literatura e escutando ópera o dia inteiro, se relacionando com uma mulher rica, ele não pode colocar tudo a perder apenas por um sentimento tão comum quanto o amor. Mas o que ocorre é que a vida não dá duas chances e o amor não é assim tão comum. Encha-me de paixões, mas renuncio-as todas por apenas um único amor. E aqui não é o que acontece. Chris dá a sua versão para o acaso e, mesmo perdendo suas chances de felicidade, ele ainda tem grandes chances de ascensão. O grande problema é não se ter um com o outro. Aqui, percebe-se a influência clara da obra Crime e Castigo aparecendo nas telas, trabalhando num exemplo de ação e reação. Interessante como o homem que lê Dostoiévski na tela não se dá conta de que sofre mais sem amor do que sem dinheiro. A vida é repleta de sorte, assim como a paixão. O coração tem muitas razões que a própria razão desconhece.
Jonathan Rhys Meyers está grande em seu personagem, comedido em suas ações, aproveitando bem cada cena para se destacar como o lobo na pele do cordeiro, como o menino vindo dos subúrbios, sem instruções, mas que sabe aproveitar cada chance até não sobrar mais nada dela. E sabe o bastante para não desperdiçá-la. Scarlett Johansson mostra pra que veio sua personagem desde sua primeira aparição: seduzir. E isso ela faz muito bem. O interessante é observar a alma de uma verdadeira apaixonada e iludida, porém livre, capturando almas que insistem em ficarem presas ao corpo, ao desejo, à carne. O resto do elenco funciona bem, com uma ressalva especial para Emily Mortimer e Penelope Wilton, que entra na pele da sogra preconceituosa o bastante para julgar o exterior. Interessante ela não aceitar a inofensiva Nola na família, mas o instável e aproveitador Chris. A trilha sonora, composta exclusivamente por óperas, está belíssima. Nos momentos de maior tensão, a ópera se torna mais dramática, enquanto em outros mais casuais ela beira o instrumental e um tom de voz mais manso.
Sófocles disse, “jamais ter nascido pode ser a maior dádiva de todas”. Pra que viver num labirinto de sorte, pra que existir se não se pode controlar a existência, se não se pode medir consequências? A verdade pode não ser castigo o suficiente para um crime, mas ele virá. Toda a vida é tão movida pela sorte e pelo azar que não se pode contar com uma maré boa o tempo inteiro. E o brilhantismo da obra é o roteiro, que consegue reunir bom humor e mesclar o existencialismo com um romance com castigos. A bola, dessa vez, caiu no campo do adversário para Woody Allen.












