Crítica | Pooh e o Efalante

Ao longo dos anos 2000, a franquia do Ursinho Pooh reencontrou o caminho para o cinema, vivendo um boom de popularidade que garantiu sua presença na infância de mais uma geração de fãs. Seu status icônico já era indisputável, especialmente nos países onde os livros de A. A. Milne desfrutavam de grande sucesso muito antes dos primeiros curtas animados da Disney estrelando o personagem chegarem às telonas. Porém, é fato que o sucesso inesperado de Tigrão — O Filme trouxe a franquia de volta ao centro das atenções, com os Estúdios Disneytoon se encarregando de produzir mais dois longas na rabeira do filme estrelado pelo mais tigrão dos tigrões, projeto inicialmente desenhado visando um lançamento direct-to-video que acabou sendo a maior bilheteria da história da franquia (recorde mantido até hoje).

Leitão — O Filme capitalizou sobre fórmula do antecessor, jogando o foco sobre um dos membros da turma de Pooh e examinando sua história e motivações pessoais mais de perto, apenas para se deparar com a lei dos retornos decrescentes, ainda que seja uma boa produção por seu próprio direito. Diversificando um pouco as coisas, o projeto seguinte, Pooh e o Efalante, busca inspiração nas misteriosas criaturas que assombram o imaginário dos habitantes do Bosque dos 100 Acres desde os livros originais. Os efalantes, ao lado das dinonhas, desde sempre apresentaram uma ameaça inominável à paz e tranquilidade do local, sendo que apenas os relatos de seus terríveis roubos de mel foram capazes de tirar a tranquilidade de Pooh a ponto de fazê-lo passar pela experiência extracorpórea do curta Winnie the Pooh and the Blustery Day (1968), parte integrante do belíssimo As Aventuras do Ursinho Pooh.

A maior parte das aventuras do Bosque dos 100 Acres se baseia em grandes mal-entendidos advindos do encontro entre as adoráveis idiossincrasias de cada um dos animais de pelúcia animados que compõem o elenco, e Pooh e o Efalante segue a fórmula sem grandes cerimônias, armando um conflito central simples que, no entanto, se alonga por toda a extensão do filme, trazendo ares de um curta “esticado” do personagem. Enquanto que os contos clássicos da franquia tradicionalmente exploram temas morais, muitas vezes se apoiando na tonalidade reflexiva e contemplativa de sua narrativa, a abordagem deste filme é um tanto mais direta e explícita — o que não significa dizer que seja ineficaz, em especial se levando em conta seu público alvo.

Trata-se de um conto infantil simples e sem rodeios não apenas sobre o preconceito, mas também sobre o tema mais amplo da alteridade e da relação (imaginária e real) com o diferente. Se é fato que a produção perde no quesito sutileza, por outro lado não há dúvida de que ainda assim a mensagem deve passar longe da capacidade de compreensão de muitos adultos feitos. O conto deve encantar especialmente os mais pequenos, pegos de surpresa pelo desenrolar dos eventos que recebem o colorido emocional de um elenco de personagens sempre sensacional, muito bem interpretado tanto na versão original quanto na dublagem brasileira.

Por outro lado, é certo que o enredo desponta para um desenvolvimento bem linear e previsível, o qual é completamente telegrafado tão cedo quanto no primeiro quarto da película, o que pode tornar a experiência um tanto mais arrastada para os expectadores mais grandinhos. Claro que as aventuras no Bosque dos 100 Acres não costumam se destacar pelas reviravoltas ou pelos desenvolvimentos grandiosos de enredo — pelo contrário, parte do segredo da magia da franquia é justamente seu charme prosaico. Porém também fica claro que o formato episódico, importado dos próprios livros originais, serve muito melhor à sua proposta justamente ao intercalar enfoques diferentes sobre o cotidiano dos carismáticos personagens. De alguma forma, os filmes enfocados em Tigrão e Leitão conseguiram driblar parcialmente a questão se aprofundando em temáticas de personagem um tanto mais universais. No caso do conto do Efalante, a impressão de estar assistindo a um episódio particularmente longo de um serial acaba sendo mais marcante, e realça o caráter de mão-pesada da lição de moral contida no enredo.

A centralidade dada ao Guru, proporcionando um contraste com as personalidades mais extremas do elenco, cumpre o efeito de armar todo o mal-entendido entre os habitantes do Bosque e o adorável filhote perdido do Vale dos Efalantes. Em contraposição à perseguição (sempre bem intencionada) dos “adultos”, a perspectiva infantil de Guru e Bolota mostra bem de que forma o ódio e a segregação podem nascer de aspectos banais e corriqueiros, bem como o efeito em cascata que atitudes do tipo podem tipicamente gerar.

Se com isso o filme tem sucesso em passar uma mensagem um tanto complexa com simplicidade e charme para encantar o espectador infantil, também é certo que o efeito vem às custas de relegar Pooh, Abel, Tigrão, Leitão e Bisonho (Ió é o *******) a um segundo plano do qual não se destacam muito ao longo de toda a história. Por sorte, a construção do enredo e a relação entre Guru e Bolota conseguem carregar bem o restante da produção nas costas, ajudados pela trilha sonora competente e bem alinhada com as temáticas do filme, ainda que falte uma unidade sonora maior entre as composições. A frente musical fica novamente sob encargo de Carly Simon (de Leitão), e é certo que faz falta o poder das composições dos Irmãos Sherman. Por outro lado, a escolha se alinha com a proposta da produção, que é a de um spin-off infantil visando sobretudo a (infinitamente repetida) exibição doméstica.

Pooh e o Efalante pode não trazer a grandiosidade de As Aventuras do Ursinho Pooh, e conscientemente se contentou em ser uma produção infanto-juvenil cuja exibição no cinema funcionou sobretudo como propaganda para a aquisição posterior do vídeo. E não há nada de errado com isso. Embora não traga o nível da arte das estreias cinematográficas da marca, o filme é plenamente assistível e aproveitável ao adulto, ao mesmo tempo em que certamente encanta e agrada seu verdadeiro público alvo — o que é mais do que se pode dizer de muitas produções atuais voltadas à mesma faixa etária.

Pooh e o Efalante (Pooh’s Heffalump Movie) – EUA, 2005
Direção: Frank Nissen
Roteiro: Brian Hohfeld, Evan Spiliotopoulos
Elenco: Jim Cummings, Nikita Hopkins, Ken Sansom, John Fiedler, Ken Sansom, Peter Cullen, Brenda Blethyn, Kyle Stanger
Duração: 68 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.