Crítica | Por que Deu a Louca no Sr. R.?

estrelas 3,5

Por que Deu a Louca no Sr. R.? não é um filme solo de Fassbinder – ele divide os créditos com Michael Fengler, com quem voltaria a trabalhar na direção de A Viagem de Niklashauser – e por isso mesmo deve ser visto como um exercício de mistura de estilos, mesmo que predomine a estética do antiteatro e atmosfera fassbinderianas.

A história se passa em Munique e acompanha, por um tempo, a vida do Sr. e da Sra. R., um casal de classe média cujo relacionamento distante e patético é reflexo do cumprimento de uma obrigação social sem nenhum olhar para a felicidade individual. À medida que o filme avança, vemos os dois receberem amigos e vizinhos, caminharem, beberem e fumarem juntos, mas sempre com um nível de distância abissal no trato, como se fossem estranhos que resolveram passar algum tempo juntos e acidentalmente tiveram um filho.

O filme não discute em termos exatos a felicidade do casal, mas esta é uma das camadas da obra. Por um lado, percebemos que são como gado: se satisfazem com os dias mecânicos e com a companhia “por falta de outra coisa”, gerando uma certa indiferença compartilhada e vez ou outra revestida de um falso (ou não?) interesse.

Nesta face da moeda, há uma tétrica alegria de conjunto, algo como uma placa mais ou menos bem cuidada em um terreno baldio. Já por outro lado, percebemos que tanto o marido (ótima interpretação de Kurt Raab) e a esposa (uma pouco inspirada Lilith Ungerer) são almas solitárias e tristes sem saberem exatamente o por quê. O espectador tem essa resposta e o roteiro não se furta em dar vários indícios da tal infelicidade particular versus a aparência de um casamento feliz; mas os protagonistas permanecem cegos. O peso diegético do final do filme tem mais a ver com essa aparência de felicidade estabelecida e confirmada por todos do que pelos eventos em si – o que não significa que são simplórios.

Todavia, o verdadeiro peso do roteiro vai para a construção do personagem do Sr. R.. Escarnecido e desacreditado por todos, ele vive na constante tentativa de se fazer notar. Um pouco tímido e introspectivo, sempre colocado de lado e muitas vezes zombado descaradamente (engraçado é vermos que a professora de Amadeus, o filho do casal R., dá justamente essas características para o garoto, estabelecendo um ciclo vicioso), o homem aguenta impassível tudo o que acontece ao seu redor. É como se ele não se importasse realmente com nada, um sentimento que ganha outro significado após os assassinatos cometidos na parte final da película.

Fassbinder e Fengler abusam da câmera na mão e dos planos insossos de reuniões de amigos e vizinhos no apartamento do casal R., estética que tem impacto negativo na trama. O filme se sustenta bem, a despeito disso, mas estaria muito melhor caso os diretores diminuíssem um pouco o “cenário de preparação” para a explosão de ira do protagonista. Esses momentos têm sua importância, evidentemente, mas convenhamos que na quantidade em que aparecem acabam por nos chatear, por mais orgânicos que sejam.

Com um uso de trilha sonora aquém do esperado, filmado em espaços diminutos e priorizando os planos rasos, Por que Deu a Louca no Sr. R.? nos lembra o exercício futuro de Michael Haneke em O Sétimo Continente, exatamente porque prepara um cenário onde aparentemente tudo funciona e, no fim, nos apresenta uma impiedosa e perturbadora quebra dramática com a verdadeira realidade. Acaba sendo um verdeiro alívio, no final das contas, por mais sádico que isso pareça. Enfim, o protagonista se livra (e aos atores sociais de seu circo pessoal de máscaras e dor) da humilhação e “invisibilidade” social que sofre. Pela primeira vez no filme as pessoas realmente olham para ele. Mas isso já não tem mais importância nenhuma.

Por que Deu a Louca no Sr. R.? (Warum läuft Herr R. Amok) – Alemanha Ocidental, 1970
Direção:
Rainer Werner Fassbinder, Michael Fengler
Roteiro: Rainer Werner Fassbinder, Michael Fengler
Elenco: Lilith Ungerer, Kurt Raab, Lilo Pempeit, Franz Maron, Harry Baer, Peter Moland, Hanna Schygulla, Ingrid Caven, Irm Hermann, Doris Mattes, Hannes Gromball, Vinzenz Sterr
Duração: 88 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.