Crítica | Por Um Punhado de Dólares

estrelas 4,5

Quando eu era adolescente tínhamos em casa algumas sessões de cinema com a família ao final das quais fazíamos a seguinte brincadeira: cada um deveria anotar o máximo de “palavras únicas” ou “conjunto de 3 palavras” sobre o filme que acabáramos de ver. Quem escrevesse mais, vencia o jogo. O meu caderninho dura até hoje. Em algum dia de agosto (não está especificado) de 2003, nós assistimos a Por Um Punhado de Dólares. Vejam só as minhas anotações.

Cigarrinho. Manto. Tiroteio. Olhos azuis. Olhos verdes. Olhos castanhos. Revólveres. Mulherão. Pouca mulher. Menino Jesus. Gangues. Lugar deserto. Homem do Caixão. Homem da Cantina. Falando sozinho? Dublagem ruim. Fala mansa. Água na concha. Poço. Rapidez. Colete de ferro. Esperteza. Trompetes. Música boa. Forca. Traição. Muita morte. Sangue. Olhar por baixo. Morrer duas vezes. Roubo. Irmãos. Filho caçula estranho. Todo mundo morre. Incêndios. Explosões. Adeus frio. The end.

É óbvio que eu perdi essa “rodada” (na verde eu não me lembro, mas só com isso de palavras, com certeza devo ter perdido), porém o que importa dela é a forte impressão que este filme de Sergio Leone tem sobre o espectador. Revendo-o hoje, quase 11 anos depois, tive exatamente o mesmo impacto.

Dirigido com precisão, porém sem o escrupuloso molde empregado em Três Homens em Conflito (1966) ou Era Uma Vez no Oeste (1968), Por Um Punhado de Dólares é uma espécie de crua história de ninar da vida real, uma crônica impiedosa que nos deixa em estado de atenção turante toda sua projeção e termina por nos fazer sorrir com amargura para a tela. A história é simples, transposta quase que de maneira integral de Yojimbo – O Guarda-costas, de Akira Kurosawa. No caso específico desse início da Trilogia dos Dólares, temos um pistoleiro solitário e sem nome (Clint Eastwood, com 33 anos) que chega a uma pequena vila na fronteira dos Estados Unidos com o México, uma lugar dominado por duas famílias, os Baxters e os Rojos.

Seria pouco produtivo destilar em parágrafos a fio o por quê Leone deve muito a Kurosawa tudo o que se tornou a partir deste filme, bem como o próprio western spaghetti, que, apesar de não ter começado aqui, só ganhou conhecimento e reconhecimento internacional depois do sucesso deste longa.

A proposta do recém surgido western spaghetti e a própria dinâmica cinematográfica no que se refere a “gêneros” fala a favor de Leone, que transforma Yojimbo em um espetáculo cinematográfico notável à sua maneira, possivelmente o único remake excelente ou tão bom quanto o original simplesmente porque o diretor soube trabalhar com as diferenças dessa transposição.

E de quais diferenças estamos falando?

Por Um Punhado de Dólares foi um filme de baixo orçamento — tendo, inclusive, sido finalizado à base de empréstimos –; tinha um ator desconhecido no papel principal (embora Clint Eastwood já tivesse feito alguns trabalhos menores na TV e no cinema estadunidenses ele era mesmo desconhecido e só aceitou o convite de Leone por uma espécie de capricho pessoal e pela oportunidade de conhecer a Itália e a Espanha, onde o filme seria rodado) e tinha a ousadia de aliar elementos do primeiro grande gênero cinematográfico a aspectos estéticos próprios de seu diretor. Nesse ponto, começamos a perceber aquilo que torna Por Um Punhado de Dólares um filme diferente em relação aos spaghettis de então. Sergio Leone não só encaixava harmoniosamente os elementos conhecidos do western clássico como também impunha sua marca através deles. Embora ainda tímidos, componentes como o humor cáustico, os rostos suados, closes dramáticos em zoom nos protagonistas, exploração do silêncio e longas cenas de sugestão de confronto marcam o filme, que ainda conta com a gloriosa música de Ennio Morricone para marcar-lhe o passo.

Diz-se que no sentido de identidade visual, foi Leone quem conseguiu os melhores resultados no western spaghetti, tendo ele também visto no sul da província das Astúrias, na Espanha, e em algumas paisagens mais áridas da Itália, lugares em potencial para explorar como cenários do western. Num outro patamar artístico, diz-se que foi Ennio Morricone quem deu aos spaghettis e ao cinema de seu amigo Sergio Leone a marca inconfundível de uma música plural e corajosa.

O compositor viu a oportunidade de trazer para suas trilhas nestes filmes instrumentos pouco utilizados em partituras cinematográficas do gênero. Ele criava assim um novo tipo de abordagem musical para um subgênero que também se queria diferente. A abertura de Por Um Punhado de Dólares já nos denuncia isso. Silhuetas negras sob um fundo vermelho trocam tiros e fazem algum tipo de ação em “batalha” — indicações visuais que veríamos, inclusive, na sequência final, entre o “homem sem nome” de Eastwood e a família Rojo.

Acompanhando essas silhuetas, ouvimos um tema caloroso, com violão, guitarra, flauta e uma linha melódica que não se resolve, repetindo-se com o aparecimento de novos elementos, como se fosse a chegada do “estranho” à melodia, tornando-a cada vez mais potente. Morricone queria que o tema se aproximasse o máximo do público, por isso a incursão de pontos musicais relativamente comuns, postos na hora certa e na duração e intensidade certas. Também podemos ver que ele trouxe da música folk/country a dinâmica necessária para a obra, basta você ouvir o tema de abertura do filme e depois conferir algo como Apache, do The Shadows ou Ghost Riders in the Sky, de Johnny Cash, por exemplo. Já o “tema do trompete”, Leone assumidamente trabalhou em cima do Degüello de Dimitri Tiomkin para o filme Rio Bravo (1960). Para efeito de comparação, ouça o tema de Tiomkin aqui e o tema de Morricone aqui. O que o compositor italiano fez, em sua versão, foi fortalecer a base harmônica, aumentar a dinâmica do trompete e, claro, trabalhar com percussão e coro agressivos, o que deu um tom épico e belíssimo ao seu tema, que nesse ponto se distancia do de Tiomkin, que era de composição mais sutil e andamento mais compassado.

Mesmo com um protagonista sem experiência (e Leone queria Henry Fonda para o papel, vejam só!) e algumas dificuldades de produção, o diretor conseguiu fazer de Por Um Punhado de Dólares um filme inesquecível. Diante da boa condução do filme e de sua bela concepção e finalização estética (com uma montagem claudicando quase imperceptivelmente) nós conseguimos lidar com as estranhezas do roteiro, como o fato de Ramón (um ótimo papel de Gian Maria Volonté) só atirar para o peito do homem sem nome; ou a condução do drama de Marisol, seu marido e o menino Jesus; ou ainda, a relação um tanto falha entre os irmãos Rojo e a exploração da família Baxter no enredo. Mesmo com esses “senões” Por Um Punhado de Dólares consegue se segurar em altíssimo posto de qualidade, um feito no mínimo digno de ser aplaudido. Como muito já disse sobre este filme: trata-se de um belo conto de fadas para adultos. Bem, isso é a mais pura verdade.

Por Um Punhado de Dólares (Per un pugno di dollari) – Itália, Espanha, Alemanha Ocidental, 1964
Direção: Sergio Leone
Roteiro: Sergio Leone, Adriano Bolzoni, Víctor Andrés Catena, Jaime Comas Gil, Fernando Di Leo, Duccio Tessari, Tonino Valerii
Elenco: Clint Eastwood, Marianne Koch, Gian Maria Volonté, Wolfgang Lukschy, Sieghardt Rupp, Joseph Egger, Antonio Prieto Puerto, José Calvo, Margarita Lozano
Duração: 99 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.