Crítica | Por Uma Mulher (2013)

estrelas 2

Por Uma Mulher retira seu nome de um perfume com que Michel (Benoît Magimel) presenteia sua esposa Léna (Mélanie Thierry) em 1947, não muito depois de Jean (Nicolas Duvauchelle), irmão que ele achava que havia morrido durante a Segunda Guerra Mundial, reentra repentinamente em sua vida e encanta sua esposa. E esse perfume é apenas um dos elementos perdidos nesse filme de Diane Kurys, em um trabalho que tenta recontar a história de sua própria família.

Contado em flashbacks, o triângulo amoroso da década de 40 é visto sob os olhos de Anne (Sylvie Testud), a filha mais nova do casal, depois da morte de Léna na década de 80. Mas esse artifício comum, o enquadramento do passado em relação a investigações no presente, simplesmente não faz o menor sentido na fita e é completamente desnecessário, desligado mesmo do que vemos em 1947. Não que o enquadramento atrapalhe o filme, mas ele é uma escolha equivocada para apresentar a história, que é essencialmente um conto de amor incondicional em uma obra de época, cujas direção de arte, figurinos e set design passam, de forma bastante genuína, os sentimentos do pós-guerra.

Michel, que veio para a França com os pais fugindo da União Soviética, deseja, acima de tudo, tornar-se cidadão francês. Mas ele é membro do Partido Comunista e, como tal, renega os valores do país em que quer refúgio depois de viver anos por lá, alistando-se até mesmo na famosa e temida Legião Estrangeira. Quando seu irmão chega do nada, Michel o aceita sem muitas explicações, mesmo, lá no fundo, duvidando de sua sua identidade, o que cria um mistério falso no filme que não impulsiona a fita, em mais uma escolha equivocada do roteiro. E é Jean que faz Michel prosperar, por intermédio de seus contatos, que acaba ligando Michel a um estoque quase infinito de tecido para sua alfaiataria embaixo de seu charmoso apartamento.

É sem dúvida divertido ver Michel, comunista clássico que vive e prospera no capitalismo (o que hoje chamamos de “esquerda caviar”), ficar irritado quando o alfaiate que contratou para seu negócio o chama de “patrão” ou “Sr. Michel”. Afinal, todos são iguais nesse lugar utópico que Michel acha que existe do lado de lá da Cortina de Ferro, recusando-se até mesmo a acreditar no genocídio de Stalin quando seu irmão esfrega os fatos em sua cara. Quando vemos Michel, mais velho, já no presente, ele continua igual, escutando orgulhosamente “A Internacional” e achando Gorbachev um imbecil. É exatamente o que vemos por aí mesmo hoje em dia: um pessoal próspero que filtra as informações que recebe, considerando a Venezuela e Cuba dois grandes paraísos sobre a Terra e a queda do Muro de Berlim algum tipo de tramoia dos capitalistas.

E Diane Kurys parece querer criticar justamente essa cegueira, mas mesmo aí ela se perde, focando no mistério de Jean e sua verdadeira “missão” ao voltar para o seio familiar. O que ele quer e o que ele é só nos é revelado mais tarde na fita, no final de seu segundo terço, para simplesmente nenhuma consequência prática na narrativa além do óbvio. E, quando tudo acaba, temos um fechamento narrado por Anne, que enfeia o final e retira o pouco de poesia existente na forma em que Michel e Léna se conheceram e as circunstâncias de seu casamento e a tensão amorosa e sexual entre Léna e Jean.

Mas não se enganem. É um filme agradável visualmente, com um filtro esmaecido que ajuda no trabalho de reconstituição de época e uma direção clássica, sem grandes arroubos de originalidade, mas dentro daquilo que se pode esperar. O roteiro é que, de fato, precisava ser mais polido, mais bem acabado e fechado, pois a quantidade de elementos que estão lá sem necessidade incomodará o espectador mais atento e afugentará os mais detalhistas. É uma história de amor telegrafada a partir do primeiro minuto, com cenas de pseudo-tensão que não se realizam. A atuação da trinca principal, porém, é genuína o suficiente para nos envolver em seus personagens, ainda que de maneira perfunctória.

Por Uma Mulher é como o perfume que dá o título ao filme: uma bela, mas efêmera fragrância que será esquecida em um caixa lá no fundo da mente de quem o assistir.

Por Uma Mulher (Por Une Femme, França – 2013)
Direção: Diane Kurys
Roteiro: Diane Kurys
Elenco: Benoît Magimel, Mélanie Thierry, Nicolas Duvauchelle, Sylvie Testud, Denis Podalydès, Julie Ferrier, Clotilde Hesme, Clément Sibony, Marc Ruchmann
Duração: 110 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.