Crítica | Por Uns Dólares a Mais

estrelas 5,0

É tudo uma questão de tempo e ritmo. Um filme do porte de Por Uns Dólares a Mais, com um roteiro globalmente simples mas pontualmente rico, poderia facilmente – nas mãos de um diretor errado – gerar um longa burocrático, com uma insossa sequência de acontecimentos cujo resultado final não traria nada de novo e cujo desenvolvimento seria apenas uma sequência desconexa de clímax, tiros, e estetismo. Mas não nas mãos de Sergio Leone.

Embalado pelo sucesso de Por Um Punhado de Dólares e agora com um orçamento levemente mais folgado, Leone teve os meios necessários para realizar a sequência temática do “homem sem nome”, entregando-nos a segunda parte da Trilogia dos Dólares, um ensaio de organização estética e narrativa para suas obras definitivas dentro do western ainda a serem realizadas, a primeira, Três Homens em Conflito (que fechava a presente trilogia) e a segunda, Era Uma Vez no Oeste.

Assim como a versão de Yojimbo – O Guarda-costas feita em Por Um Punhado de Dólares, Por Uns Dólares a Mais tem uma história sem mistérios, exposta de forma direta e bastante elegante, apesar de seu conteúdo ser propositalmente incômodo e os personagens terem diferentes graus de classificação como “nojentos”, especialmente se levarmos em conta a opção do diretor em lhes conceder primeiros e primeiríssimos planos em seus rostos suados e barbas grandes. É nesse mundo masculino de simplicidade de relações externas e complexidade de questões internas que o enredo se arma.

O homem sem medo vive à caça de recompensas e um Coronel de nome Douglas Mortimer também. De uma possível oposição entre os dois pistoleiros, passamos progressivamente para uma conturbada aliança. Mesmo que não haja heróis no filme, essa parceria e o laço que se estabelece entre os dois homens os transforma em personas “boas” para o público, classificação ainda mais forte se comparados ao grupo de El Indio (Gian Maria Volonté, ótimo vilão, como sempre). Mesmo que este não seja o único embate que a fita nos apresenta, é nele que quase tudo irá se construir: laços do passado e do presente são quebrados e reatados gerando consequência que nem sempre se pode prever. O desejo de vingança, a vida entregue a uma busca pela justiça jamais feita, a decepção de um sonho jamais realizado e o peso consciente de uma ação errada são ingredientes do roteiro e responsáveis por tornar Por Uns Dólares a Mais um filme mais completo, denso e cativante do que o seu antecessor.

Leone mostra o quão escrupulosa pode ser a sua decupagem, algo que nos esbaldamos em comprovar neste filme de pouco mais de duas horas de duração. A regra básica do ritmo interno é a presença de planos longos e panorâmicas estratégicas nunca postas apenas para contexto de localização. Nesse ponto, Leone explora o suspense e cria símbolos de ação à la James Bond (prestem atenção na sequência de abertura e em suas equivalentes no decorrer do filme), contendo perseguição, descoberta e execução de traição, duelo e provocações que acabam por dar espaço até mesmo aos ‘bandidinhos de isopor’ como o genial corcunda Juan Wild vivido por Klaus Kinski, um grande ator que mesmo em um papel de compleição menor faz um ótimo trabalho.

Morricone é outro elemento essencial para o sucesso do filme. Sua trilha sonora tem maior presença de identificação do que de intensificação emotiva, padrão utilizado pelo compositor na obra anterior. Aqui, sua intenção era criar empatia no espectador com o particular de cada personagem, não necessariamente com o seu ambiente. Mas de maneira muito curiosa, o tema de identificação é o mesmo, a flauta, que em sequência rápida de notas anuncia momentos de cada um, tornando-se a voz de um coro que na reta final do filme é acompanhado pelo conhecido tema dos trompetes.

Há muito mais substância e camadas em Por Uns Dólares a Mais do que se possa pensar à primeira vista. Não se trata e um filme difícil em termos de conteúdo, mas talvez em interpretação de suas riquezas simbólicas, que podem ser escancaradas ou estar na estrelinhas. Além disso, o espectador precisa ver o filme sem pressa de que ele alimente respostas ou verdeiro sentido antes do final, pois aí é que está a sacada de Leone. Ele nos guia por um caminho de busca e luta entre dois lados, cada um atormentado por um demônio e com um objetivo egoísta para cumprir. Ao chegar ao definitivo clímax, ele reverte o jogo e nos escancara o dilema da solidão, do sentido para a vida do homem em busca de dinheiro ou justiça. Nesse ponto final, há uma seta que nos faz retornar para o início da obra, onde a frase de abertura, enfim, alcança o seu real sentido: “Onde a vida já não tinha mais valor, a morte às vezes tinha o seu preço. Eis que surgiram os caçadores de recompensas“.

Por Uns Dólares a Mais (Per qualche dollaro in più) – Itália, Espanha, Alemanha Ocidental, 1965
Direção: Sergio Leone
Roteiro: Sergio Leone, Fulvio Morsella, Luciano Vincenzoni , Sergio Donati, Fernando Di Leo
Elenco: Clint Eastwood, Lee Van Cleef, Gian Maria Volonté, Mario Brega, Luigi Pistilli, Aldo Sambrell, Klaus Kinski, Benito Stefanelli, Luis Rodríguez, Panos Papadopulos, Mara Krupp
Duração: 132 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.