Crítica | Portal

estrelas 4

Portal surgiu no mundo dos games como um jogo despretensioso, bônus da chamada Orange Box que incluía e tinha como principal atrativo Half-Life 2. A Valve não esperava todo o sucesso que esse fantástico puzzle faria em 2007, mesmo com poucas horas de jogo e com uma mecânica simples. A questão é que Portal é viciante. Por vários motivos.

Você controla uma prisioneira da Aperture Science, empresa que faz testes em você. Cada teste é um cenário. O jogo consiste em dezenove cenários onde é necessário chegar de um ponto A ao ponto B. Para isso, o jogador ganha uma arma que cria portais em paredes brancas, permitindo a passagem aos espaços antes impossíveis de se alcançar.

portal-1

Mindfuck

Se fosse só pela jogabilidade em primeira pessoa, fluída e instintiva, Portal já seria um jogaço. A curva de crescimento é extremamente bem feita, o que faz o jogo ensinar ao jogador um novo modo de raciocinar que se torna cada vez mais surpreendente pelas dificuldades que aparecem e pelo modo que são ultrapassadas. Mas Portal não é só isso.

Durante todo o jogo se ouve mensagens de rádio do que parece ser uma inteligência artificial, instruindo e prometendo um bolo como recompensa por passar todas as câmaras de teste. Tais mensagens possuem certos erros de frequência que colocam em dúvida o papel da Aperture Science e todo o propósito pelo qual o jogador é obrigado a passar, corroboradas por pequenas salas secretas inundadas de estranhas mensagens nas paredes, que se tornaram o grande lema de qualquer fã do jogo: “the cake is a lie”.

Aos poucos um enredo vai se desenhando e prendendo o jogador ao game, que traz em cada estágio uma pequena novidade que vai se desenvolvendo ao longo dos outros. Pequenos droids atiradores, esferas com raio mortal, piso cheio de lodo fatal. O design das fases é admirável pois cria complexidade com ideias pouco mirabolantes. Tudo isso tendo ao redor ótimas falas de GLaDOS (a inteligência artificial que interage com o jogador) e uma trilha sonora quase inexistente, mas precisa, nos raros momentos de tensão de um jogo que requer predominantemente pensamento e criação.

portal-2

Um pouquinho de teoria da conspiração

Acessível e imersivo, Portal tornou-se rapidamente um clássico dos games por propor desafios e um novo modo de se jogar. Mesmo usando a repetida câmera em primeira pessoa, a arma para criar portais dá possibilidades incríveis de gameplay, deixando nas mãos do jogador o uso da física e da inteligência para simplesmente chegar ao final da fase. Para quem nunca jogou pode parecer uma ideia simplista, pouco original e até óbvia, de certa maneira. Mas Portal é um puzzle progressivo inovador, nem um pouco enjoativo e envolto em uma aura peculiar, graças à ótima ambientação que o diferencia de um puzzle qualquer.

O melhor: como todo bom quebra-cabeça, a sensação de recompensa por vencer o desafio proposto é gigante. Ainda mais ouvindo o belíssimo sarcasmo de GLaDOS.

Ps.: A trilha sonora durante o jogo pode ser quase inexistente, mas a música dos créditos é simplesmente a melhor já realizada na história dos games.

Portal
Desenvolvedor: Valve Corporation
Lançamento: 9 de outubro de 2007
Gênero: Puzzle
Disponível para: PC, PS3 e Xbox 360

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.