Crítica | Possessão (2012)

Há algo de errado na residência da jovem Emily (Natasha Calis). Tal como a menina Regan do clássico O Exorcista, ela tem os seus pais separados, além de ter que enfrentar situações tenebrosas com o mundo sobrenatural para conseguir sair ilesa. Produzido pela Ghost House, empresa do mago do horror Sam Raimi, Possessão é mais um filme que se baseia na estrutura da trama sobre exorcismo dos anos 1970 para dar vazão ao seu roteiro.

No enredo, a venda de um armário de vinhos no e-bay é o ponto de partida para a disseminação do horror na vida de uma família já disfuncional por conta de um divórcio. O objeto nefasto, levado para os Estados Unidos por um sobrevivente do Holocausto, logo após o final da Segunda Guerra Mundial, é considerado nefasto e carrega em seu interior uma entidade maligna aprisionada há tempos, conforme reza a lenda judaica.

O objeto acaba nas mãos da pequena Emily, a “possuída” da vez. O seu pai compra durante uma liquidação de garagem. Como os pais divorciados, é a vez de passar o final de semana com o pai, o treinador de basquete Clyde (Jeffrey Dean Morgan). Ele faz o possível para ser agradável, principalmente por conta do fracasso no casamento com Stephanie (Kyra Sedgwick). Numa dessas situações em que precisa ser “o paizão”, ele compra a tal caixa na liquidação.

Submetida aos mistérios da terrível caixa, não demora, a garota começa a assumir uma postura agressiva, ao agir constantemente com violência e portar-se de maneira antissocial. Dirigido pelo dinamarquês Ole Bordenal, o roteiro de Stephen Susco, responsável pelo razoável O Grito, inspirou-se no artigo publicado pelo L.A. Times: no texto jornalístico, uma curiosa análise mergulhava na lendária Dybbuk Box, uma caixa que jamais deveria ter sido aberta por qualquer pessoa. Sem os sustos comuns ao estilo de filme, tampouco palavras abomináveis e blasfêmias verbais e visuais, Possessão é eficiente mesmo diante dos efeitos visuais, pena que tal desenvoltura não acrescenta em nada nos conflitos ou no desenvolvimento dos personagens.

No final das contas parece uma história contada com muito exibicionismo, mas pouca base de sustentação dramatúrgica. Ao longo de seus 92 minutos de duração, Possessão oferta ao espectador uma cartilha óbvia que não surpreende em momento algum, numa espécie de passo a passo que identificamos antes mesmo de acontecer em cena, um problema genuíno para um filme de terror que se preza, afinal, quanto mais surpresas tivermos, melhor.

Como reza os filmes de terror desta linhagem, o pai percebe a estranheza da filha, decide pesquisar sobre a caixa, descobre que era usada por uma tribo judaica para conter o espírito que domina crianças, possuindo-as e devorando-as, aos poucos, até que a deixe num estado catastrófico e sem volta. Outro problema diante destas descobertas é que isso tudo é minimizado pelo roteiro, tratado de maneira ligeira, tendo em vista iluminar os efeitos visuais, em detrimento de um material literário que apresenta o diferencial ao tratar uma presença demoníaca não católica, mas de origem judaica.

Ao passo que o filme avança, a sensação é que há muitos picos que prometem muita coisa e não cumprem praticamente nada, pois a suposta atmosfera de horror se dissipa cada vez que se anuncia diante do espectador. Depois de Possessão, muitos filmes de possessão maligna foram realizados, em sua maioria, descartáveis. No entanto, os criadores de Invocação do Mal mostraram que ainda é possível assustar com a temática, sem ser tão subserviente ao clássico de Willian Friedkin.

Possessão (The Possession) — Canadá/EUA, 2012.
Direção: Ole Bornedal
Roteiro: Juliet Snowden, Stiles White
Elenco: Jeffrey Dean Morgan, Kyra Sedgwick, Natasha Calis, Madison Davenport, Matisyahu, Grant Show, Rob LaBelle, Nana Gbewonyo, Anna Hagan, Brenda Crichlow, Jay Brazeau, Iris Quinn
Duração: 104 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.