Crítica | Possuído pelo Demônio

Possuído pelo Demônio

estrelas 2

Realizado diretamente para a TV, Possuído pelo Demônio é um filme irregular sobre possessão, mas talvez o único (até então desconheço outras produções) que retrata diretamente a suposta história real que teria sido a base para o romance O Exorcista, de Willian Peter Blatty, e por sua vez, para o filme homônimo, de William Friedkin. Baseado no livro Exorcismo, de Thomas B. Allen, traduzido e lançado no Brasil recentemente, o filme infelizmente se tornou mais um destaque dentro do subgênero e atualmente encontra-se fora de catálogo, encontrado apenas nos circuitos de cinéfilos que colecionam DVDS e são guardiões de raridades.

A trama, dirigida por Steven E. de Souza, cineasta que também assinou o roteiro em parceria com Michael Lazarou, conta, ao longo dos seus 99 minutos, a história do jovem Robbie Manheim, um jovem envolvido em acontecimentos misteriosos e inexplicáveis em sua casa. Depois do falecimento da sua tia (Piper Laurie), única companheira do seu cotidiano solitário, o jovem começa a passar por perturbações e depois de bastante pesquisa, o padre Bowdern (Timothy Dalton) resolve ajuda-lo, principalmente ao perceber que está diante de uma possível presença maligna.

O padre, homem aterrorizado por seus traumas do passado, vai contar com a colaboração do seu amigo Raymond McBride (Henry Czerny). Para assumir o seu posto e derrotar as forças do mal, ele precisará contar com toda a sua astúcia, pois além de enfrentar o demônio, Bowdern também precisa bater de frente com o arcebispo (Christopher Plummer), um líder religioso com extensa agenda política.

As comparações com O Exorcista são inevitáveis: há o vômito, bem como a profanação de nomes e objetos sagrados, a vulgarização da criança tomada pelo mal, o convencimento do padre sobre a necessidade de recorrer ao exorcismo enquanto este faz a sua caminhada diária (cena explícita), a flutuação do corpo durante o ritual, uma poltrona que insiste em não ficar em seu devido lugar, bem como uma extensa lista de referências que não são ofensivas, talvez tenham sido até mesmo homenagens.

De boas intenções, por sua vez, o inferno está cheio: tudo pode ser uma homenagem singela, mas as referências não conseguem sequer chegar aos pés do material que deve ter ficado de fora da edição final do clássico dos anos 1970. A música de John Frizzell não é grande coisa, o roteiro peca pela falta de concisão, a narrativa se arrasta demais em alguns trechos e o menino possuído está extremamente mal dirigido.

De acordo com os registros históricos, Possuído pelo Demônio, lançado em outubro de 2000, baseia-se na história de um menino de 13 anos de Cottage, situada em Maryland, nos Estados Unidos. Conta-se que ele era um garoto de família Cristã Luterana e foi privado de muitas atividades geralmente ligadas ao que se convencionou chamar de infância por duas questões: a primeira, por ser filho único, a segunda, por viver numa era próxima aos horrores da Segunda Guerra, época em que não saia de casa para quase nada além da escola.

Privado de tanta coisa, o pequeno Robbie tinha a companhia da sua tia espiritualista. Certo dia, ela lhe apresentou a tábua Ouija, uma maneira de comunicar-se com os mortos. O problema é que após o falecimento da tia, o garoto sentiu-se muito solitário e começou a utilizar a tal tábua de comunicação com o além para tentar contato.

Depois disso as coisas começaram a ficar complicadas. Móveis a se mexer, o garoto a se comportar agressivamente, a falar obscenidades constantemente. Não deu outra. Depois de muita burocracia, eis que o exorcismo foi autorizado. Uma das exigências era o sigilo do ritual, mas como se sabe, a espetacularização de algo assim traria boas cifras para muita gente, bem como prestígio e fama, não é a toa que o tema é um subgênero da literatura, do cinema e da televisão.

Após bastante sacrifício, o garoto conseguiu libertar-se dos problemas. No 30º dia de exorcismo, Robbie acordou sem sequer recordar de nada que havia acontecido. Após os acontecimentos, a família se mudou e o menino não foi mais atormentado. O primeiro veículo sério a tratar do assunto foi o The Washington Post. Muitos jornais especulavam coisas e transformaram tudo num verdadeiro picadeiro.

Depois da primeira reportagem, o jornal publicou outro artigo, desta vez, com mais detalhes e provável acesso aos relatórios do exorcismo. Segundo as informações dos documentos, o pequeno “gritava como um carneiro sendo abatido” e “comunicava-se constantemente em latim”. Willian Peter Blatty, atento, tomou nota dos detalhes e entregou um dos romances mais assustadores do século XX.

Possuído pelo Demônio (Possessed) – EUA /2000
Direção: Steven E. de Souza
Roteiro: Michael Lazarou, Thomas B. Allen
Elenco: Timothy Dalton, Jonathan Mallen, Henry Czerny, Michael Roades, Shannon Lawson, Piper Laurie, Christopher Plummer, Richard Waugh, Boyd Banks
Duração: 99 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.