Crítica | Possuídos (1998)

O que abre as portas para o demoníaco? De acordo com o padre Gabriele Amorth, o materialismo da sociedade hedonista, a difusão de cultos orientais e seitas satânicas, bem como a constante postura irreligiosa, um dos portais mais profícuos para a disseminação do demoníaco. A sua presença em nossa sociedade, como explicam os estudiosos de Antropologia e Sociologia, é um processo de transferência. As pessoas descarregam numa figura externa todo mal que enxergam em si. Assim, o demônio fascina a humanidade e é uma peça necessária, sem a qual a sociedade jamais consegue viver e se articular, pois nos ajuda a identificar, bem como exorcizar, nossos impulsos primários.

Desta maneira, podemos observar que é considerado demoníaco tudo aquilo que nos remete ao animalesco, parte de nossa concepção: a excreção, a violência, o vômito, a doença, a morte, o aspecto grotesco do sexo. É divino, no entanto, tudo que indica ao homem a sua condição superior aos outros animais: o amor e a inteligência, bem como a renúncia aos instintos básicos, até mesmo a possiblidade de encontrar o aspecto sublime do sexo. No desenvolvimento de Possuídos, tais questões aparecerão como parte da reflexão geral da história, com a presença demoníaca a trafegar inicialmente num “vaso” errante, isto é, por meio de um criminoso homossexual responsável por crimes abomináveis.

Mescla de policial hollywoodiano com filme de terror sobrenatural, Possuídos é um filme surpreendente. Lançado em 1998, sob a direção de Gregory Hoblit, cineasta que teve como guia, o roteiro de Nicholas Zakan, a produção nos leva a compreender que todas as informações estão dispostas na trajetória angustiante do herói John Hobbes (Denzel Washington), mas ainda assim, há surpresas em seu desenvolvimento, bem como espaço para um plot twist que funciona muito bem como parte do encerramento da história.

Ao longo de seus 128 minutos, o filme nos apresenta, por meio de uma narrativa circular, a investigação de Hobbes, policial que se vê envolto numa série de assassinatos realizados do mesmo modo operacional que Edgar Reese (Elias Koteas), um criminoso enviado para a câmara de gás, personagem que ao morrer, esbraveja uma série de palavras desconhecidas. Seria um imitador? Uma brincadeira diabólica? Uma série de coincidências? Ao passo que as vítimas vão aparecendo, junto a uma série de códigos para decifração, Hobbes percebe que há algo de sobrenatural e demoníaco na situação, o que promete uma batalha infernal até o desfecho da trajetória.

Mais adiante, após bastante investigação e análise de dados, Hobbes descobre que uma entidade demoníaca intitulada Azazel é a responsável pelos crimes em não fora eliminada durante a morte do criminoso na câmara de gás. Agora, a presença maligna pode se transferir simplesmente por meio de um toque. Ao habitar peremptoriamente os corpos que trafega, Azazel traz a incerteza e o obscurantismo para a vida de Hobbes e das pessoas que gravitam em torno de sua existência, promovendo, assim, um assustador jogo de possessão demoníaca.

Qual procedimento deve ser adotado para vencer algo que nunca saberemos exatamente em que corpo se encontra alojado? É o que o competente Gregory Hoblit vai nos responder por meio de uma leitura adequada do roteiro de Kazan, narrativa “pura”, sem diálogos desnecessários ou efeitos especiais para disfarçar uma possível fragilidade dramática da história. Bem eficiente no uso da narração em off, recurso abominado por conta da exaustão de seus usos pela indústria, Possuídos ganha por conseguir alinhar organicamente narrativa policial com a ambiguidade do campo sobrenatural, estilo que não teve muito sucesso em tramas similares, tal como Livrai-Nos do Mal, com Eric Bana, lançado em 2013.

Há uma sequência, em especial, unânime na opinião das pessoas que já assistiram ao filme. Trata-se do efeito dominó estabelecido quando o demônio persegue Gretta Milano (Embeth Davidtz) na rua, transferindo-se de corpo para corpo, cantarolando Time Is On My Side, dos Rolling Stones, música que por sinal, nos indica a presença maligna em cena. Todos aqueles que entoam a canção de alguma forma entraram em contato com Azazel.

Visualmente, Possuídos é bem conduzido.  A direção de arte de William Cruse imprime uma paleta de cores que evolui ao passo que os personagens se desenvolvem. Gerenciado pelo design de produção de Terence Marsh, a concepção artística dialoga equilibradamente com a cenografia de Michael Seirton. A condução musical de Dun Tan, importante no estabelecimento do “tom” ideal para o filme, acompanha os movimentos e quadros eficientes da direção de fotografia assinada por Newton Thomas Sigel, principalmente nos momentos de câmera subjetiva adotado para a representação demoníaca, o que resulta numa produção audiovisual adequada, mas não apenas dependente de maneirismos visuais para funcionar, tendo no roteiro um ponto bastante forte.

Especialistas indicam que nos tempos imemoriais, alguns locais eram considerados a morada de espíritos ruins, dos quais podemos destacar as tumbas, cavernas, regiões do próprio deserto, espaço ideal para seres considerados impuros. De acordo com várias tradições, tais seres preferiam certos climas e tempos, bem como a escuridão, imagem temida e emulada pelo imaginário do cinema de horror. Em Possuídos, a presença demoníaca exerce as suas atividades no grande centro urbano estadunidense, em meio aos comportamentos considerados “inadequados”, tais como uso de drogas, bebidas e práticas sexuais fora do nicho familiar. Similar ao desenvolvimento é o japonês A Cura, lançado em 1997, dirigido por Kiyoshi Kurosawa, igualmente perturbador, mas narrativamente subversivo e fora dos padrões, como veremos em nossa próxima análise.

Possuídos — (Fallen) Estados Unidos, 1998.
Direção: Gregory Hoblit
Roteiro: Nicholas Kazan
Elenco:  Denzel Washington, Donald Sutherland, Elias Koteas, Embeth Davidtz, James Gandolfini, John Goodman
Duração: 124 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.