Crítica | “POST-” – Jeff Rosenstock

O rock ainda não morreu, mas sua veia mais divertida e descontraída com certeza vem desaparecendo. O rock parece ter se tornado um gênero onde apenas conceitos sérios ou rebuscados podem ser apresentados, tanto que qualquer indício pop é afastado com repulsa por seus admiradores. Se tornou um campo de temas um tanto elitistas, convenhamos. E em meio a essa carência eu costumo afirmar com veemência: não conheço ninguém fazendo um rock tão divertido e relevante quanto o do americano Jeff Rosenstock atualmente.

Desde o maravilhoso We Cool? (2015) acompanho os lançamentos do cantor/guitarrista e cada vez me surpreendo mais. Seu post hardcore fresco e de personalidade única é contagiante desde sua antiga banda – Bomb The Music Industry! – pulsando uma energia jovem invejável em sua guitarra, mesmo com sua idade já passando dos trinta. Worry, seu segundo álbum de estúdio, é uma frenética e surreal viagem punk através de temas políticos e pessoais, embalando faixa após faixa a força de um boxeador em seu clímax. Finalmente chegamos a POST-, seu terceiro disco e presente surpresa liberado no primeiro dia de 2018, que busca oferecer uma face levemente diferente de todas que o artista já nos mostrou.

Jeff perpassa inúmeros gêneros ao longo do álbum, se desprendendo de rótulos. Existe uma salada riquíssima de nutrientes aqui, desde a balada noventista melancólica de TV Stars, passando pelo rock alternativo extremamente melódico de All This Useless Energy, até o post hardcore de Yr Throat. Jeff não cansa de tentar ser pop, colocando coros em refrões a todo momento, fazendo versos chicletes feitos para serem entoados a gritos. Mas a cada canção é nítido um precipício enorme entre o compositor e uma infinidade de bandas dos anos 2000 que faziam uma sonoridade similar e caíam no piegas e no genérico. Cada riff, cada solo, cada instrumento empregado pela banda aqui (vale ressaltar, estamos falando do trabalho mais experimental de sua carreira solo, abusando de sintetizadores) é pensado meticulosamente a fim de gerar arranjos criativos, sempre executados com enorme atitude e efervescência.

Em meio aos temas explorados em POST- observamos um Jeff Rosenstock mais maduro e contemplativo do que nunca. TV Stars discursa a frustração de inúmeros músicos em não conseguir quebrar a bolha do mainstream, Powerlessness fala sobre crise de identidade, USA disserta sobre a hipocrisia americana e Melba sobre voltar a suas raízes. Porém, não se deixe enganar, o artista não possui a prepotência de oferecer tais ideias de forma complexa, existe um belo e admirável descompromisso na forma como este escreve e interpreta suas canções, deixando sempre um olhar muito conformado sobre a vida. Prova disso é a  deliciosa Beating My Head Against The Wall, que no fundo é uma tremenda bobagem (“Batendo, batendo, batendo minha cabeça contra a parede”), mas exala uma aura pop prazerosa e cantarolável em shows ao mesmo tempo que sintetiza muito bem discussões irredutíveis entre amigos.

Jeff canta com convicção no encerramento do álbum: “Nós não vamos deixar eles ganharem“. Você pode tentar interpretar Let Them Win da forma que quiser. O que vejo nela? Uma canção de resistência, acima de tudo. De alguém que se recusa a abandonar o lado leve da vida. Alguém que, mesmo encarando os problemas da vida adulta, ainda insiste em esboçar um sorriso e tomar uma cerveja em meio a centenas de problemas. POST-, por fim, se mostra um álbum para os vencedores que se encontram estirados na lona, dando incompreensíveis risadas, massacrados pelas surras da vida.

Aumenta!: Let Them Win
Diminui!:

POST-
Artista: Jeff Rosenstock
País: Estados Unidos
Lançamento: 1 de janeiro de 2018
Gravadora: Polyvinyl
Estilo: Rock Alternativo

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, cantor de chuveiro e tocador de guitarra de ar. Seja através dos versos ácidos de Kendrick Lamar, a atitude de Bruce Springsteen, ou a honestidade de Tim Maia, por seus fones de ouvido ecoam ondas indistinguíveis. Vai do sangue de Tarantino à sutileza de Miyazaki, viajando de uma galáxia muito, muito distante até Nárnia. Desbravador de podcasts e amante de indie games, segue a vida com um senso de humor peculiar e a certeza de que tudo passa - menos os memes.