Crítica | Poucas e Boas

estrelas 3

Woody Allen é um cineasta bastante apaixonado por música. Essa relação passional já resultou em um interessante documentário, intitulado Um Retrato de Woody Allen, dirigido por Barbara Kopple. Se observarmos, a música é um dos elementos mais presentes nos filmes do cineasta, não surgindo apenas como mero recurso para acompanhamento de personagens. Em 1999, interessado por mergulhar mais uma vez no universo da música, o cineasta ofertou ao público Poucas e Boas, comédia dramática com ótimos desempenhos e eficiente reconstituição de época.

No filme, Emmeth Ray (Sean Penn), é um músico que pode se gabar do seu talento, entretanto, com no auge da década de 1930, a sua carreira entra em declínio. Somado a isso, surgem os desastres na vida pessoal: neurótico e fracassado como homem, é mulherengo, posa de cafetão e erra mais que acerta em suas iniciativas relacionadas ao cotidiano.

Certo dia, o desajustado músico conhece Hattie (Samantha Morton), uma tímida e muda lavadeira de roupas, personagem que surge como um desafio comunicacional, mas que nem por isso, deixa de se tornar um “amor”, uma presença importante em sua existência. Inicialmente eles encontram dificuldades para se relacionar, com o tempo, o afeto torna-se maior que as barreiras postas pelo no caminho do casal.

No entanto, tratando-se de Emmeth, um homem intempestivo e machista, a relação não dura muito, haja vista o seu interesse pela socialite Blanche Willians (Uma Thurman), sorrateira alpinista social que almeja fama através das histórias interessantes do música, todas, segundo a sua concepção, digna de se tornarem relatos ficcionais. Após entrar em conflito e dar um golpe na “esperta” escritora, tendo ajuda de um mafioso, Emmeth tenta retornar para a Hattie, mas segredos são revelados e surpresas nada agradáveis estão por vir.

Mais despojado, Poucas e Boas não tem a mesma complexidade da maioria dos filmes anteriores, mas isso não é um sinal de que seja um filme ruim. O roteiro, construído como uma história de amor com o jazz, peca apenas por alguns momentos de letargia, nada que não seja perdoado pelo resultado ao final, numa história em que os conflitos e desenvolvimento de personagens gravita em torno da música.

Cabe ressaltar que apesar de reverenciar o jazz em seus filmes, Woody Allen é um homem de faces múltiplas no que diz respeito à música. A Era do Rádio é uma de suas produções que comprovam isso: o amor pela música e a erudição de quem conhece o campo que aborda. Em Poucas e Boas, o cineasta parece levar essa paixão a um patamar maior. O resultado, para nós espectadores, é o melhor possível musicalmente e historicamente falando.

No que tange aos aspectos formais, digamos que apontar as qualidades técnicas do filme é “chover no molhado”, afinal, Woody Allen pode até deslizar em alguns roteiros e personagens pouco atraentes, mas nenhum dos seus filmes possui baixa qualidade estética. Por ser um filme sobre música, a supervisão sonora de Dick Hyman é eficiente. Os anos 1930 surgem com todas as suas cores vibrantes, numa simbiose saudosista audiovisual bem orquestrada com a direção de fotografia e o design de produção.

No quesito resgaste memorialístico, o filme retoma um ambiente que o cinema estadunidense se propôs a cristalizar no imaginário popular. Muda, a personagem Hattie parece recuperar o charme de algumas estrelas do cinema mudo, usando o seu talento através de expressões dignas de uma boa atriz. Boêmio e dono de um gênio difícil, Emmeth surge como a soma de vários ícones da história da música. Entre as cenas de destaque está a excêntrica vontade de descer numa lua de papelão enquanto executa a sua música. O personagem manda construir um cenário para tornar a sua performance mais arrasadora. Nem precisava, portanto, conseguiu impressionar ainda mais.

Para os desavisados, Emmeth Ray é um personagem ficcional, construído com base em Django Reinhardt, nome da música a quem o protagonista presta tributo a todo tempo no filme. Criado com extrema veracidade, os espectadores que não conhecem a história por detrás do filme correm o risco de acreditar que Ray é, de fato, parte da história do jazz. Inspirado em Reinhardt, guitarrista francês nascido na Bélgica, músico responsável por influenciar gerações posteriores e criar o gypsy jazz, um estilo musical que ia na contramão das propostas criativas do jazz saído de Nova Orleans, Emmeth também é um pastiche do próprio Woody Allen.

Numa perspectiva comparada, Poucas e Boas se aproxima bastante do excelente Almotásim, conto de Jorge Luís Borges, publicado em 1940. No texto literário, o leitor adentra na história de outro leitor que percorre um romance indiano e tece uma crítica. Detalhe: o tal romance criticado pelo personagem não existe. Nós, acabamos envolvidos nas duas histórias: a que lemos e a que o personagem se encontra mergulhado. Metalinguagem das boas do mestre dos contos. Essa teoria dos estudos da linguagem, por sinal, sempre encontrou fabuloso destino nas mãos de Woody Allen, haja vista o inesquecível A Rosa Púrpura do Cairo e o divertido Dirigindo no Escuro.

Indicado ao Oscar e ao Globo de Ouro em duas categorias (Melhor Ator e Melhor Atriz), Poucas e Boas foi lançado em 1999 nos Estados Unidos, tendo o mesmo destino que as obras do período no que diz respeito ao momento de estreia no Brasil. Em média dois anos de atraso, o que nos mostra certo descaso com a distribuição dos filmes do cineasta durante este período. Hoje, a situação é outra. Nós, cinéfilos e amantes do cinema de qualidade, louvamos de pé.

Poucas e Boas (Sweet and Lowdown) – EUA, 1999.
Direção:  Woody Allen.
Roteiro: Woody Allen.
Elenco: Sean Penn, Samantha Morton, Anthony LaPaglia, Uma Thurman, Woody Allen, John Waters, James Urbaniak.
Duração: 95 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.