Crítica | Povo da Eternidade #1 a 5 (1971)

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Após alguns desentendimentos com Stan Lee e Martin Goodman, mais a crescente insatisfação pessoal com a falta de liberdade criativa na Marvel, Jack Kirby retornou à DC Comics com um contrato de três anos cautelosamente discutido, tendo a oportunidade de estender o seu período na editora por mais dois anos, caso desejasse. Seu retorno à casa, como era de se imaginar, não foi sem barulho. Tendo inicialmente pego o título Superman’s Pal Jimmy Olsen, que já estava em andamento, Kirby começou uma reviravolta dimensional principiando pela a criação de Darkseid, em um cameo de um quadro na última página da SPJO #134, The Mountain of Judgment!, publicada em novembro de 1970 (data de capa), com roteiro e desenhos de Kirby  e arte-final de Vince Colletta.

Em março de 1971, vieram dois títulos que formariam, junto com Senhor Milagre, o pack de revistas do chamado “Quarto Mundo de Jack Kirby“: Novos Deuses e Povo da Eternidade, onde Darkseid fez a sua primeira aparição completa. Na primeira aventura de Povo da Eternidade, In Search of a Dream!, temos uma série de primeiras aparições, mas nenhuma explicação sobre a origem dos quatro indivíduos que vemos sair do Tubo de Explosão em espalhafatosa moto de três rodas chamada Super-Cycle. Não existe nenhuma indicação dos poderes ou maiores informações de quem são esses indivíduos, mas o leitor sabe os nomes deles: Mark Moonrider, Serifan, Grande Urso e Vikyn, o Negro. O motivo para o grupo vir à Terra foi para procurar Belos Sonhos, que tinha sido sequestrada por Darkseid, que pensava tirar dela as informações necessárias para resolver a Equação Anti-Vida.

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Capa da edição #2, com o vilão Mântis em destaque e ao lado, o Povo da Eternidade.

De maneira divertida e com impressionante fluidez, Jack Kirby fez com que os jovens do Povo da Eternidade fossem rapidamente descobertos pelo Superman (através de fotografias tiradas por um amigo de Olsen, que as mostra para Clark Kent), fazendo uma participação especial da história, lutando ao lado do Homem Infinito para vencer os Gravi-Guards, ambos estreando nessa revista. O final da primeira trama parece um pouco bobo, mas não é ruim. Superman fica impressionado com um vislumbre que teve da Supertown e pede para que seus novos amigos lhe digam como chegar até lá. Considerando que o Azulão sabia que Darkseid estava na Terra e ele já tinha noção de que a criatura poderia causar problemas, não me parece muito uma atitude que ele tomaria nessa situação, mas foi apenas uma fraqueza, que termina com o retorno dele ainda no meio do caminho, deixando-nos com um cliffhanger bem amarrado para a segunda edição.

Com Mântis em cena na revista de nº2, Super War!, temos mais um momento — que embora muito bem construído parece meio solto até aqui — da jornada de Darkseid na Terra. DeSaad também aparece, dando o relatório de medo para seu Senhor, mas a história não faz nada nos planos gerais de Darkseid avançar. O Povo da Eternidade novamente se une para gerar o Homem Infinito e enfrentar Mântis. Até agora, não parece que nenhum deles tem uma habilidade específica além de uma força fora do comum, que é mostrada em alguns poucos momentos. Vale notar que é um pouco engraçado o uso da Caixa Materna nesse começo. Por mais que Vikyn, o Negro fale das maravilhas que ela pode realizar, a impressão que temos é de uma máquina que só funciona quando quer e que na maior parte do tempo, apresenta defeitos. Parece uma TARDIS em miniatura.

Assim como a primeira, esta segunda revista traz uma ótima história, cheia de humor e com um conflito que funciona bem, mesmo que tenha momentos ridículos, como a justificativa para o uso de poder de Mântis e do Homem Infinito. O bom dessas histórias é que os pontos fracos, ao menos até aqui, são perfeitamente contornáveis e até as brechas do roteiro não afetam a narrativa, pois são informações ainda não fornecidas sobre os personagens, suas origens, capacidade e intenções. Aos poucos, porém, vamos descobrindo o comportamento de cada um deles.

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O Glorioso Godfrey.

Na edição #3 temos algo como um ciclo se fechando. Fazendo jus ao título Life vs. Anti-Life!, vemos o surgimento do Glorioso Godfrey (consta que foi inspirado no pastor Billy Graham, a quem Kirby desprezava) manipulando pessoas e descobrimos que ele é mais um agente de Darkseid que está na Terra para tentar descobrir algo a respeito da equação Anti-Vida e, no meio do processo, divertir-se com seus próprios planos. O único que parece mais preso a um padrão de comportamento é DeSaad, mas ao final da edição indica-se que isto deve mudar. Os jovens de Nova Gênese também chegam a um ponto crítico de sua jornada na Terra — aos poucos, as intenções vão ficando mais coerentes e os planos dos mocinhos e dos vilões vão se entrelaçando –, sendo dominado por DeSaad e presos pelos Justifiers.

A edição #4, The Kingdom of the Damned!, é a mais reticente do título nesta fase inicial. Por um lado, é uma ótima aventura que se passa em “Happyland”, um parque de diversões sádico construído por DeSaad. Ele e Darkseid ainda estão à procura da mente para calcular a Equação Anti-Vida e agora, com o Povo da Eternidade preso, pouca coisa parece estar em seu caminho. Embora pareça frágil a justificativa de que o Senhor de Apokolips precisa vir à Terra para encontrar esta mente, isso não atrapalha a leitura porque o foco dado ao “problema do momento” é bem direcionado e  o obstáculo em si é muito bom. Apenas o final solto, ligando-se diretamente à edição #5, Sonny Sumo, cujo personagem-título “recebe” a Caixa Materna desmaterializada de um experimento de DeSaad, não é tão interessante assim. Entendemos que é um cliffhanger, mas o pulo para a luta direta entre Sonny Sumo e Sagutai parece algo atropelado.

Pelo menos o fim do arco de “Happyland” pareceu bem orgânico, com Sonny servindo de libertador para o Povo da Eternidade e frustrando os planos imediatos de tortura, feitos por DeSaad. Ao mesmo tempo, aumenta o desejo de Darkseid em conseguir a Equação Anti-Vida, já que a mente que o Senhor de Apokolips estava procurando, enfim, apareceu. É uma reviravolta muito boa e que encadeia o grupo para uma nova aventura, em um arco que segue perfeitamente a continuidade do que aconteceu até este ponto do volume, tendo inclusive o mesmo motor apresentado na edição #1, com a chegada do Povo da Eternidade à Terra e a tentativa de impedir Darkseid encontrar aquilo que pode dar a ele o poder de controlar a vida em todo o Universo.

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“Happyland”, o parque de DeSaad e a luta de Sonny Sumo contra Sagutai.

O conceito por trás dessa primeira fase do Povo da Eternidade é de união de forças entre jovens para impedir que ocorra um grande desastre controlador de livre-arbítrio. Embora as forças do bem e do mal aqui não sejam terráqueas, temos o estabelecimento da luta em nosso planeta, o que coloca um senso de pertencimento e aproximação mais fácil por parte do leitor. Apesar de cada edição trazer um inimigo coadjuvante ou uma outra situação que os jovens de Nova Gênese precisam enfrentar, há um tema central ligado a Darkseid e à Equação Anti-Vida que torna a série bem amarrada.

O processo artístico de Kirby, como sempre, explora tudo o que pode das muitas invenções tecnológicas e personagens com aparência distinta, dando à obra a sua qualidade inconfundível, de grande beleza e criatividade na exposição de cenários e excelente aplicação de cores por John Costanza. O artista não investe em grandes variações da diagramação, mas a qualidade da arte e o nível de movimento dentro das cenas ditam bem o ritmo interno da história, fazendo deste primeiro ano do Povo da Eternidade na DC uma divertida e visualmente impressionante jornada.

Povo da Eternidade (Forever People Vol.1 #1 a 5) — EUA, março a novembro de 1971
DC Comics

Roteiro: Jack Kirby
Arte: Jack Kirby, Al Plastino
Arte-final: Vince Colletta
Cores: John Costanza
Capas: Jack Kirby, Mike Royer, Vince Colletta
Editoria: Jack Kirby
24 páginas (cada edição)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.