Crítica | Powerless – 1X06: I’m a Friend You

spoilers. Confira as críticas para os outros episódios da série aqui.

Eis que Powerless volta de um inesperado hiato de duas semanas, motivado pela decisão da NBC em exibir em seu lugar a nova comédia Trial & Error. Essa decisão, por si só, já nos dá pistas do quanto a moral da série anda baixa, não apenas com o público, mas ainda com a própria emissora, que dificilmente renovará as aventuras da equipe de desenvolvimento e pesquisa da Wayne Security. O que não deixa de ser, em certa medida, uma pena. Mas apenas em certa medida.

I’m a Friend You nos apresenta um dos episódios menos arrastados da série até aqui. Temos cenas rápidas e dinâmicas, e a comédia com um índice de acerto elevado. Porém, isso não vem sem um custo: o de que a série atinge esse bom resultado ao optar por simplesmente jogar de modo excessivamente seguro com o roteiro e as situações comédicas. Van (Alan Tudyk) continua a aperfeiçoar a cada episódio sua incorporação de Michael Scott, com um carisma excepcional e um dos melhores timings para comédia do elenco. Suas cenas são as que nunca falham em divertir e prender a atenção. Neste episódio, Van se encontra em uma missão para descobrir quem se utilizou de seu banheiro privativo, o que nos leva às já conhecidas situações em que vemos seus problemas pessoais estapafúrdios tomados em contraste com a assistência próxima e sempre desgostosa de Jackie (Christina Kirk), que faz o possível para servir de função egóica à criança irrefreável que é seu chefe. A dinâmica aqui é praticamente uma recriação daquela que vimos na versão norte-americana de The Office, com o infame chefe se isolando em uma problemática absurda enquanto o restante dos funcionários da empresa vai tendo que lidar com situações ligadas ao relacionamento interpessoal deles. A forma como Van se relaciona com a protagonista da série, Emily (Vanessa Hudgens), é particularmente hilária, com o chefe manifestando um total desinteresse em conhecer sua funcionária-prodígio, após um começo conturbado de relação.

O foco central do episódio está em Emily tentando ajudar Jackie das mais diversas formas, enquanto que esta faz de tudo para repelir suas investidas.  Inicialmente, com o anúncio de que a Raposa Escarlate (Deanna Russo) irá deixar Charm City para perseguir novos horizontes de carreira em Metropolis, Emily demonstra preocupação e deseja se inscrever junto de Jackie em um curso de defesa pessoal. Daí em diante vemos uma série de desencontros através dos quais Emily descobre que Jackie possui um segredo. Ela mente para Emily e deixa de ir à aula de defesa pessoal, e a jovem descobre que é porque Jackie anda fazendo um bico como motorista do Uber, e apesar de alegar inicialmente se tratar de uma tentativa de ganhar dinheiro para pagar uma excursão escolar de sua filha, isso também acaba se provando uma mentira. A dinâmica entre as duas personagens é boa, mas o roteiro dificilmente inova, abusando de lugares-comuns, embora com bons diálogos e uma visível melhora na química entre os personagens.

Os outros personagens oferecem suporte às duas tramas principais, e Danny Pudi e Ron Funches mantém uma ótima atuação, de certa forma desperdiçada aqui em um roteiro apenas mediano. Os melhores momentos se encontram nos diálogos, com tiradas e piadas que, se não inovam e custam para adquirir uma identidade própria, já não soam tão forçadas como nos primeiros episódios, efeito provável da familiarização crescente dos atores com os papéis e com as possibilidades de improvisação, sempre importantes em séries do gênero. O desfecho da trama não deixa a desejar, com boas finalizações para ambas, em especial a de Van. Não podemos deixar de notar, no entanto, que o episódio faz o pior uso do setting do universo DC talvez desde o episódio de estreia. Praticamente todo episódio poderia acontecer em um universo realista qualquer, desprovido de heróis e vilões arrebentando a cidade.

O uso da Raposa Escarlate é apenas uma desculpa para introduzir o plot de Emily e Jackie. Pior ainda é a cena na qual um supervilão explode o carro de Jackie, apenas para ela voltar do break de comerciais com apenas uma batida no nariz, e nunca mais fazer menção ao fato, sendo que sua história é justamente a de que ela tem trabalhado extra para tentar bancar seu MBA e se livrar do emprego terrível como babá de Van Wayne – imagino que perder o carro seria uma situação preocupante. Além de tudo, uma situação que tinha potencial para ser melhor explorada no contexto do universo quadrinhesco da série – com a personagem lidando com corretoras de seguro por acidente causado por super-vilão, por exemplo.  A impressão que fica é a de que, ao final do episódio, alguém veio azedar a alegria dos roteiristas e disse: “Pessoal, e aquele lance de que temos que ter heróis e vilões nas ruas e tal?”, e a solução foi construir as cenas da conferência televisiva da Raposa Escarlate e da explosão sem sentido do carro de Jackie e enxertá-las no meio do roteiro já pronto, apenas para constar. Lamentável!

O tempo tem sido benéfico para os personagens da série encontrarem seu chão. Porém, trata-se ainda de um ganho relativo, já que os maiores acertos do episódio parecem ser evocações de momentos paralelos em sitcoms mais bem sucedidas : a já tão comentada canalização de personagens e situações de The Office, a piada sobre transformar o nome da pessoa em verbo vindo direto de Community, as situações corriqueiras e os conflitos entre personagens reminiscente de tantas e tantas sitcoms contemporâneas, que as vezes acabam se mesclando num só borrão de mediocridade. A impressão que se tem é que, em meio a tantos déjà-vus a série custa a encontrar sua identidade própria, como se a preocupação em agradar ou em atingir determinado tipo de humor fosse mais forte do que o desenvolvimento orgânico das situações comédicas.

Se formos ser sinceros e resgatar as primeiras temporadas de boas sitcoms, serão raros os casos em que uma série, por melhor que tenha acabado sendo no médio e longo prazo, começa com a perna direita. Porém em Powerless parece que assistimos a uma sequência de oportunidades perdidas, de forma que talvez já seja tarde demais para sua premissa e elenco progredirem em uma versão mais bem acabada de si mesmos. Após sacrificar uma premissa realmente inovadora em favor de uma jogada mais segura, com atrasos e reescritas que certamente tiraram o elenco e o time de produção do rumo, com uma estréia muito abaixo do esperado e com hiatos de última hora sendo a regra da agenda de exibição, será muito difícil que haja outro destino para a série que não o cancelamento. O que não deixa de ser uma pena, pois a premissa inicial tinha potencial e o elenco tem talento de sobra. Dizer que a série desperdiça seu potencial não significa que ela seja ruim. I’m a Friend You consegue entreter, mas sempre fazendo o mínimo necessário, nada além disso. A série parece se encaminhar para isso, ser simplesmente mediana, normal demais, jogando dentro do esperado e cumprindo tabela com um humor que, na premissa inicial, deveria ser inovador.

Powerless – 1X06: I’m a Friend You — EUA, 30 de março de 2017
Direção: Alex Reid
Roteiro: Sabrina Jalees
Elenco: Vanessa Hudgens, Danny Pudi, Christina Kirk, Ron Funches, Alan Tudyk, Jennie Pierson, Deanna Russo, Carla Renata, Josh Breeding, Greg Romero Wilson
Duração: 22 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.