Crítica | Powerless – 1X08: Green Furious

powerless_01x08-plano-critico

As possibilidades de Powerless não ser cancelada permanecem decididamente distantes, se formos levar em conta o tratamento de escanteio que a série vem recebendo por parte da NBC, os fracos índices de audiência e a aparente recepção da série pelo público, que foi morna na melhor das melhores hipóteses. Portanto, não é sem um certo pesar que o público, que concedeu à série uma chance para se desenvolver para além de uma sequência muito ruim de episódios iniciais constata que, sim, a série era capaz de crescer e tem mantido uma consistência da qual dificilmente se suspeitaria após o fiasco do primeiro episódio.

Continuando uma sequência de bons capítulos, Green Furious prova vários dos pontos que foram levantados aqui anteriormente a respeito da série. De um lado, a premissa, o elenco e o valor de produção se mostrando capazes de manter uma sitcom, se não fantástica, ao menos consistentemente divertida. Do outro, roteiros e direção ruins sendo capazes de mostrar que, não importando o universo licenciado, emissora ou o talento do ator, se o roteiro lhe destina péssimas cenas é isso que você terá na tela. Em termos de direção, a série permanece deixando a desejar, principalmente nas curtas sequências de ação (das quais nem mesmo o caráter secundário e o orçamento baixo justificam a qualidade atroz). Por sorte, o episódio desta semana mais uma vez acerta no quesito roteiro, e faz a balança da série pesar mais para o lado dos bons roteiros.

Temos também o retorno da Fúria Verde (Natalie Morales) e do menos empolgante Olimpiano (Joel Michael Kremer), dois dos super-heróis que deram as caras nos episódios anteriores, realizando, aqui, um importante movimento no sentido de consolidar um elenco de apoio recorrente e alguma continuidade entre as histórias, algo do qual a série vinha precisando com urgência. Como seria de se esperar após o episódio da semana passada, o retorno da heroína brasileira de cabelos verdes serve de pretexto para um episódio repleto de cenas hilárias com Teddy (Danny Pudi), o que é sempre um ponto positivo. Seguindo a subtrama na qual o rapaz se vê envolto em um amor platônico com a heroína, nesta semana temos um Teddy menos sacana e mais divertidamente babaca, com a ótima atuação de Danny Pudi entregando bem a comédia nonsense com a qual seu personagem se vê envolvido no roteiro. São vários os momentos nos quais o personagem se destaca, principalmente ao contracenar com Ron (Ron Funches), com destaque para as cenas com os grupos focais, além da tentativa de Teddy em abordar Fúria Verde no set de filmagens no final, alguns dos momentos mais divertidos do episódio.

Porém, a heroína não aparece apenas como interesse romântico. Após ser inusitadamente salva por Emily (Vanessa Hudgens) – de repórteres tabloidescos sem noção e também de uma bola de fogo mortífera – Fúria Verde decide retribuir o favor e deixa com a jovem funcionária da Wayne Security um dispositivo capaz de chamá-la imediatamente. Ao se ver envolvida em uma reunião do conselho da empresa dominada por empresários chauvinistas, Emily encontra um bom uso para o aparelho e decide sugerir um comercial com a heroína como forma de salvar um dos seus produtos insanos ameaçado de ser extinto (um poncho de segurança). A coisa toda se arma como desenvolvimento da temática da cena inicial, onde os repórteres bombardeiam Fúria Verde com perguntas machistas. Tentando provar seu valor para o clube do Bolinha da mesa diretora, Emily acaba colocando a si mesma e a amiga heroica em maus lençóis, com a proposta do comercial distorcida pelos marqueteiros da Wayne Security em um show de horrores de clichês sexistas.

A trama rende bons momentos para ambas personagens, assim como nas trocas entre Emily e Van (Alan Tudyk), sempre um ponto forte para a série. Também é interessante ver Van no papel de subordinado baba-ovo, dando uma ideia da estrutura fractal de puxação de saco na qual a empresa se sustenta. O personagem dificilmente conseguirá sair da sombra da inspiração-mor do Michael Scott de Steve Carrell, mas isso não o impede de ser uma figura divertidíssima e com um alcance de piadas dos mais variados do elenco. Em tempos de polarização, o episódio trata de temas adjacentes ao feminismo como uma boa comédia deve fazer: de forma bem humorada e bem dosada, sem mergulhar muito em clichês e tendo sucesso em satirizar os diversos radicalismos envolvidos no debate. A trama tem sucesso em não parecer forçada e se a sátira dificilmente pode ser considerada inteligente, é no mínimo um nonsense bastante aproveitável.

Temos ainda uma subtrama com Jackie (Christina Kirk) e Wendy (Jennie Pierson) envolvendo a filha de Jackie que, de castigo após bater em um colega na escola, acaba tendo que ficar com a mãe no trabalho, onde faz amizade com a atrapalhada Wendy. Trata-se da parte mais fraca do episódio, um festival de clichês de pouca inspiração. Ironicamente, em um episódio que trata de questões ligadas à discriminação, temos uma subtrama onde a grande maioria das piadas são provenintes de uma ridicularização barata de Wendy, inclusive com indesejadas nuances de sexismo. Mesmo levando em conta se tratar de um arquétipo de séries de comédia, e de que todas as cenas são pintadas a partir da perspectiva de Jackie que reprova veementemente o estilo de vida da colega, o problema vai além do fato de que internamente à série a personagem é frequentemente alvo de chacotas e deixada de escanteio. Wendy continua a ser simplesmente mal-escrita, uma personagem que genericamente reúne uma gama imensa de vícios e defeitos escrachados, e o fato de se tratar de uma mulher fora dos padrões de beleza dificilmente ajuda no caso. Para permanecer na eterna comparação, The Office é uma série que se serviu deste tipo de personagem e dessa caracterização ácida, sempre flertante com o humor negro, mas sempre com maiores nuances e, no mínimo, com as cenas de “conversa com a câmera” pondo em perspectiva as cenas diversas onde o humor poderia de outra forma parecer ser simplesmente a humilhação de um personagem por conta daquilo que ele é, ao invés de algo que ele fez. Infelizmente não há esse contraponto em Powerless, e Wendy permanece até agora como uma personagem dedicada a encenar as piadas mais fracas e genéricas da série.

No geral, Green Furious é mais um bom episódio para Powerless, com muito mais acertos do que erros: uma trama divertida, ótimo uso do setting no universo DC e bons momentos de construção de personagens. A série continua a se provar capaz de crescimento e evolução, mas a prova definitiva pode simplesmente não acontecer, já que a má recepção da série não indica um bom futuro para Powerless. Dado o agravante de que a série se encontra na NBC, emissora que não pensou duas vezes em puxar a tomada de Constantine, outra série baseada em quadrinhos da DC que oscilou entre os erros e acertos mas que sem dúvida mostrava potencial, o melhor que temos para agora é aproveitar o que nos resta da série, e torcer para mais episódios aproveitáveis como este.

Powerless – 1X08: Green Furious — EUA, 13 de abril de 2017
Direção: Michael McDonald
Roteiro: Dean Lorey
Elenco: Vanessa Hudgens, Danny Pudi, Christina Kirk, Ron Funches, Alan Tudyk, Jennie Pierson, Natalie Morales, Matt Oberg, Joel Michael Kremer
Duração: 22 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.