Crítica | Praia do Futuro

estrelas 5

Lapa, Iguatu, estradas do Ceará e Copacabana. Karim Ainouz utiliza suas origens nos levando a verdadeiras viagens através de sua particular visão do Brasil. Em seu filme estreante, somos agora transportados para Fortaleza, para o lugar que batiza seu longa, Praia do Futuro. Nele, o diretor utiliza toda sua capacidade de direção nos trazendo seu filme que mais destoa de seus anteriores.

A narrativa inicia com Donato (Wagner Moura), um salva vidas que, recentemente, teve sua primeira perda no mar. Abalado pela morte que não conseguiu evitar, ele entra em uma crise existencial. O que você faria se eu sumisse? Pergunta ao seu irmão, explicitando as dúvidas que o corroem por dentro. Não demora muito para que Donato conheça Konrad, amigo da vítima levada pelo mar. Tal dor compartilhada pelos dois personagens os aproxima cada vez mais e logo uma paixão, nascida da impulsividade, cresce. O estrangeiro era justamente a válvula de escape que o salva-vidas precisava.

Karim desenvolve tal relação entre seus personagens e as indagações do protagonista de maneira completamente introspectiva, deixando toda a trama se desenvolver através da imagem sem diálogo. Dessa forma, o diretor consegue nos colocar perante Donato, obrigando nossa identificação com o personagem. Donato, Konrad e Ayrton falam através de suas expressões, ações, enquadramentos e montagem – são como pessoas reais que meramente observamos: podemos imaginar o que elas passam, mas nunca ter completa certeza.

Com isso somos sugados pela narrativa hipnótica da obra e sua montagem entrecortada que deixa muito a interpretação. Somos transportados e nos tornamos íntimos à crise do salva-vidas, ao passo que aquele momento caótico de sua vida se torna cada vez mais familiar. A fotografia de Ali Olay Gözkaya, desde os minutos iniciais da obra, dentre as águas do mar nordestino, nos faz sentir o tom da vida de Donato, a falta de controle. Com seus closes ele transmite cada nuance da interpretação de Wagner que, certamente, nos traz uma de suas melhores atuações.

Praia do Futuro é uma verdadeira jornada interior, emocional, que carrega sua força através de sinceras atuações de seu elenco. Wagner Moura, Clemens Schick e Jesuíta Barbosa são Donato, Konrad e Ayrton – três pessoas que, aos poucos, chegam a parecer velhos conhecidos. Este é, definitivamente, um longa diferente dos projetos passados do diretor, mas, sem dúvidas, ainda é Karim Ainouz.

Praia do Futuro (idem – Brasil/ Alemanha, 2014)
Direção: Karim Ainouz
Roteiro: Felipe Bragança, Karim Ainouz
Elenco: Wagner Moura, Clemens Schick, Jesuita Barbosa, Savio Ygor Ramos, Sophie Charlotte Conrad
Duração: 106 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.