Crítica | Preacher 1X03: The Possibilities

estrelas 4

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Há uma certa dificuldade de alguns espectadores em entender o rumo de Preacher até o momento. De um lado, alguns que gostariam de uma trama mais rápida, com respostas em primeira mão e nada de mistérios e dramas internos ou cifrados, dos quais temos apenas alguns lampejos e mais nada. Do outro, alguns dos que leram os quadrinhos e almejavam uma representação mais exata do original. E ainda há os que conhecem a obra de Garth Ennis e Steve Dillon e não sabem se decidir sobre o que estão assistindo, porque em cada episódio há pequenas brechas para personagens, lugares ou situações importantes das HQs, como, por exemplo, o sádico Herr Starr e as Indústrias Grail, que aparecem de passagem aqui.

Todos esses lados possuem razões para seus temores, gostos e desgostos, porque Preacher tem se mostrado um pouco de cada uma dessas coisas. A trama é construída em cascata, com conceitos que se apresentam parcialmente e são logo substituídos por outros, criando um Universo onde se tem muita coisa acontecendo mas, em um primeiro momento, não sabemos exatamente o quê.

Talvez eu ainda esteja em negação, dado o bom trabalho que a equipe de produtores tem feito até aqui, mas não vejo como esse formato de “crônica aos pedaços” pode se tornar algo ruim no show. É certo que isso pode trazer alguma diminuição do conteúdo geral por episódio, apresentando coisas novas de formas e ritmos diferentes a cada semana (vejam, por exemplo, que aqui há um aparato técnico e enredístico tão interessante quanto o da semana anterior, mas as informações não estão colocadas de maneira tão boa quanto em See, fazendo de The Possibilities um episódio inferior àquele), mas isso não faz da série um antro de procedimentos semanais, muito pelo contrário, mantém uma linha de roteiros que cresce e se intensifica a cada semana, nunca se fechando ao final. É compreensível, porém, que esta dinâmica de tempo não irá agradar a todos.

The Possibilities é bastante honesto quanto ao seu título. Ele explora as possibilidades do poder que Jesse se deu conta no episódio anterior e abre desdobramentos que não obedecem a linha narrativa dos quadrinhos, trazendo novidades para aqueles que acham que sabem de tudo — ou, dependendo do leitor/espectador, dando informações preciosas sobre os personagens originais. A hilária sequência em que o pastor testa em Cassidy a ação de seu poder (nos dando uma preciosa informação — que certamente virará meme — de que o vampiro gosta de Justin Bieber) e o encontro dele com Donnie no banheiro, são exemplos de como o personagem passa de um teste de alcance até o “entendimento verdadeiro” do que este poder representa para ele. A definição conceitual do QUÊ ou QUEM é Genesis, a Entidade celestial no corpo do pastor, é precisa e identifica com perfeição o dualismo da criatura, filho de um anjo e um demônio, uma “coisa ou ideia nova”, uma criação demoníaco-divina. Nem a deixa para a vingança contra Carlos, que abandonou Jesse e Tulipa em um roubo, parece ter mais importância. Este é um dos raros casos de indivíduos que recebem a luz antes de ver a luz. Mas isso, obviamente, não permanecerá assim.

O que mais atrai neste terceiro episódio é a coesão narrativa em relação aos outros dois e a manutenção da qualidade do elenco e da direção. Scott Winant coloca o pé no freio, aparentemente mostrando pouca coisa, mas esta é uma impressão quase falsa, produto de um direção que optou por planos e sequências mais longas que o a dos capítulos anteriores e de uma edição mais permissiva, que deu espaço aos dramas dentro de cada um dos blocos ao invés de trazer um turbilhão de coisas de forma rápida. Para espectadores que já viram séries de diferentes países, gêneros, emissoras e anos, essa modulação entre o frenético e o tedioso (uso os dois adjetivos aqui não de forma negativa, apenas como estado de percepção) é necessária para o programa, afinal de contas, nem só de clímax e nem só de marasmo vive um show. Isso dá aqui a oportunidade de vermos o outro lado de alguns personagens, como acontece com Tulipa, cuja atuação tentando convencer um policial, ao ser parada por alta velocidade, é imperdível. A sequência é simples e muitíssimo bem dirigida, cheia de tensão, dando à personagem um lado que não ainda conhecíamos bem — entenda que não é apenas o comportamento, é também o que ela evita fazer.

Com citações e representações visuais de filmes como Top Gun: Ases Indomáveis (1986), Questão de Honra (1992), Fenômeno (1996) e Jerry Maguire: A Grande Virada (1996), além das franquias Star Wars e Bourne, este episódio serviu como um preparo lento, mas não de má qualidade, para o que os anjos podem fazer daqui em diante. A colocação de Cassidy nessa jogada pode ser um pouco enigmática e nos deixa apreensivos. Goste ou não, Preacher firma uma estranha linha narrativa que não nos permite ter respostas inteiras a curto prazo e, com este gancho, nos puxa para o capítulo seguinte.

Vale aqui a observação de que este modelo não pode se tornar uma cartilha para a qual os episódios devem recorrer a cada dupla de semanas, caso contrário, a série pode cair de qualidade. Mas isso são temores de quem já apanhou muito com boas promessas na TV. Por enquanto, em Preacher, a coisa vai muito bem, obrigado.

Preacher 1X03: The Possibilities (EUA, 12 de junho de 2016)
Direção: Scott Winant
Roteiro: Sam Catlin, Evan Goldberg
Elenco: Dominic Cooper, Joseph Gilgun, Ruth Negga, Lucy Griffiths, W. Earl Brown, Derek Wilson, Ian Colletti, Tom Brooke, Anatol Yusef, Graham McTavish, Jackie Earle Haley, Ptolemy Slocum
Duração: 42 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.