Crítica | Preacher 1X04: Monster Swamp

estrelas 3,5

spoilers. Clique aqui para ler as críticas dos episódios. E clique aqui para ler as críticas dos quadrinhos.

Monster Swamp, um bom episódio, porém mais lento do que deveria ser, tem um papel fundamental para aplacar alguns pensamentos mais dispersos de espectadores reclamões e encarrilhar pelo menos meia dúzia de linhas narrativas que até aqui só tinham recebido informações mais ou menos soltas.

É quase impossível fazer uma sinopse do capítulo — por diversão, tente! — sem parecer estar falando de coisas diferentes e desconexas e isso é interessante porque mostra que, mesmo este Monster Swamp sendo uma história carente de planos mais curtos e mãos mais ágeis ao guiar cada um dos blocos (embora seja um pecado apontar isso de cara, porque a direção de Craig Zisk, mesmo com cadência “operística”, é muito boa no que se propõe), existe um bom número de eventos que ganham corpo, quase como uma sequência natural das possibilidades abertas no episódio passado.

Em um primeiro nível, o mais raso — não é um apontamento negativo, apenas uma abordagem do roteiro de Sara Goodman — temos o passado de Jesse sendo escavado. São momentos que fazem uma ponte entre a criança que é arrastada pelo pai para uma religião de hábitos que não combinam muito com o que uma criança quer fazer e um adulto redimido que enfim resolveu cumprir uma promessa, utilizando-se agora do verdadeiro poder da Palavra, guiando as pessoas para um caminho do tipo “crer em Deus é bom e a coisa certa, você tem que fazer“, ironia máxima dos produtores ao conceito de livre-arbítrio (o próprio personagem de Jesse e a Entidade em seu corpo, Genesis, são ironias a isso também), que está sendo bem construída agora para, obviamente, ser massacrada ao final da temporada com algo trágico que inevitavelmente deve acontecer.

Na outra ponta, temos algumas informações sobre o passado de Tulipa e uma melhor fixação da personagem na comunidade local, onde ela se vê deslocada, mas não necessariamente estranha, querendo lutar por tudo o que acha que é certo e revoltando-se contra o discurso odioso (mas hilário, dentro desse Universo, convenhamos) do “barão das carnes”, Odin Quincannon. Perceba que toda vez que Tulipa ganha algum destaque, o Universo de Preacher parece ver algumas novas janelas se abrindo, algumas coisas do submundo reveladas ou feridas sendo cutucadas para em pouco tempo receberem cauterização final devido o temperamento explosivo da personagem. De todos, ela e Cassidy são os que mais assumem riscos, cada um dentro de um modus operandi e com motivações diferentes.

Dominic Cooper expande aqui o seu já notável trabalho na série com um excelente discurso e uma excelente interpretação perante a congregação. Esse discurso é basicamente o trato do Antigo Testamento e deixa claro para o espectador que é pelo caminho da Lei de Talião que a série irá caminhar, trazendo uma visão vez ou outra floreada com “punição merecida por pecar contra Deus“, o que torna qualquer ação violenta, genocídio e afins algo justificável aos olhos de qualquer um que pensa como esse Deus pré-Cristo, o mesmo pensamento que, reformulado cuidadosamente por algumas ideologias, poderá servir para o desabrochar do ódio do Xerife Hugo Root, o emprego dado ao Santo dos Assassinos ou mesmo as ações de Herr Starr e seu grupo. É importante não perder esse tom do roteiro porque haverá uma metáfora a isso no final desta primeira temporada, quando uma “nova aliança” se estabelecerá entre alguém e Jesse. Teremos a nossa Sodoma e Gomorra minimizada aqui também.

O fato de Odin Quincannon aceitar a Palavra é um dos absurdos mais interessantes desse início, porque irá fazer um bom diálogo da postura e atividades do personagem com a sua nova crença. Esse tipo de oposição entre lados morais/éticos vem sendo bem arquitetado pela direção de fotografia dos episódios, especialmente nos blocos de Odin e dos anjos incompetentes (e sem permissão para estar na Terra) Fiore e DeBlanc, que capitaneiam sequências de ótima estranheza. Toda vez que eles aparecem eu penso estar vendo alguma cena de um filme de David Lynch. O dualismo de forças e o exotismo do comportamento, além das possibilidades de interpretações que podem vir de suas ideias, ações e intenções são coisas bastante propícias a isso.

No fim de Monster Swamp, parece-nos que Annville está prestes a ter uma temporada nas mãos do Senhor. Mas, como sempre, seria melhor que não tivesse.

Preacher 1X04: Monster Swamp (EUA, 19 de junho de 2016)
Direção: Craig Zisk
Roteiro: Sara Goodman
Elenco: Dominic Cooper, Joseph Gilgun, Ruth Negga, Lucy Griffiths, W. Earl Brown, Tom Brooke, Anatol Yusef, Jackie Earle Haley, Ricky Mabe, Nathan Darrow
Duração: 42 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.