Crítica | Preacher 1X06: Sundowner

estrelas 4,5

spoilers. Clique aqui para ler as críticas dos episódios. E clique aqui para ler as críticas dos quadrinhos.

Doze minutos. Gravem bem esse número. Este é o tempo que leva do recap das últimas semanas até os créditos de abertura de Sundowner, o estupendo sexto episódio de Preacher. Como já havia ficado claro em South Will Rise Again, as peças estão se juntando em um coeso (no montante dramático de primeira temporada) e sangrento quebra-cabeças, revelando para o púbico alguns detalhes que não seguiram o mesmo ritmo de exposição nos quadrinhos — ainda bem! — e que agora aparecem como verdades urgentes em meio a uma guerra hierárquica entre dois atrapalhados anjos Adelphi e uma Serafim*.

Está tudo ali, naqueles doze minutos iniciais. O que reside dentro do pastor; a origem do poderoso “bebê” Genesis; o que ele pode fazer e qual o alcance de seu poder; quem são Fiore e DeBlanc (que interpretações incríveis as de Tom Brooke e Anatol Yusef!); por que eles morrem e voltam e por aí vai. A fauna celestial enfim se revela para Jesse, que parece ter gostado muito da ideia de ter sido “escolhido por Deus” para portar tamanho poder e, como vemos ao final do episódio, esse convencimento aparentemente redentor traz o dilema moral a que muitos ditos “pregadores da salvação” em nossos dias deveriam entender e seguir: as pessoas têm o direito de escolher, visto que lhes foi dado o livre-arbítrio. A imposição da fé ou da “ação certa” — normalmente vindas pelo paradoxo da escolha sugerida –, a trapaça e a palavra imperativa para que a conversão ocorra são tão ruins quanto uma má escolha por parte de qualquer um. Ela não é verdadeira. Odin Quincannon está aí para provar.

Assinado por Guillermo Navarro (que ainda está no começo de sua carreira de diretor mas é um fotógrafo veterano, tendo inclusive ganhado o Oscar na categoria por O Labirinto do Fauno), este sexto episódio de Preacher nos traz uma das melhores sequências de ação que a TV nos dará este ano, podem apostar. Os acontecimentos entre o restaurante e o Sundowner Motel são brutais e nos forçam a olhar para os anjos de uma outra maneira, sujeitos a paixões tão humanas como qualquer humano normal, mas com o orgulho aparentemente isento de qualquer pecado. Está óbvio por que eles são sujeitos à palavra de Genesis. E é claro que isto é só o começo. Esperem só até a figura de Deus realmente começar a ser o assunto em pauta.

Em todo o embate entre os anjos, Jesse e Cassidy há uma (literalmente citada) pegada de Pulp Fiction, contando inclusive com excelente aproveitamento do cenário, timing precioso — a montagem de toda a sequência merece aplausos — e uma finalização mitológica, com o buraco na parede por onde a câmera se afasta, talvez com medo, deixando corpos se acumularem em uma luta inútil. Percebam também que a tonalidade da fotografia muda e o enfoque que Navarro dá aos personagens também. Inicialmente ele é marcado por um jogo inteligente de campo/contracampo, destacando o trio no restaurante e compondo o espaço dos três durante a conversa. A partir do momento que a Serafim chega, o diretor opta por planos médios ou gerais, com enquadramentos normalmente de frente, colocando o espectador como parte presente na observação da ação, mas não de forma ativa. No final do episódio, quando Jesse manda Eugene ir para o inferno — dê-se os devidos aplausos à atuação de Dominic Cooper e Ian Colletti nesse bloco! –, experimentamos o sentido exatamente oposto ao que tivemos no começo. Não vemos nada. E como todo mundo sabe, em alguns casos, a ausência consegue ser mais perturbadora que muito horror gráfico. Mais um ponto para os produtores por não mostrar o que não deveria ser mostrado naquele momento.

O enredo é uma outra prova de que as peças soltas estão se ajustando. Eu conversava com um leitor nos comentários de South Will Rise Again sobre a forma progressivamente mais ágil da narrativa e isso mais uma vez se comprovou aqui. As adições são na verdade complementos para migalhas de informações cedidas desde o Piloto e mesmo os blocos mais simplistas são importantes para contextualizar personagens em um Universo que está se transformando. Tulipa e Emily encaram uma relação improvável e no fio da navalha; o Prefeito tenta apagar os rastros deixados por um ataque de fúria [divino?] de Odin Quincannon; Tulipa e Cassidy encarnam um pseudo-romance que se torna um triângulo desajeito com Jesse, algo cômico e interessante de se ver na tela e Eugene e seus “novos amigos” nos deixam suspendendo o fôlego, pois não sabemos se eles estão sendo apenas legais (Eugene não está acostumado com isso e nem nós) ou preparando algo muito ruim contra o jovem.

Apesar e estarem à margem do rio principal, estes são afluentes narrativos necessários no episódio. Nem todos estão muito bem estruturados, claro, mas são no mínimo bons, porque cumprem o seu propósito de complemento e terminam o capítulo em um outro estágio, não estacionados no mesmo ponto. Exceto a linha de Jesse e os Adeplphi, nada fica solto — e por “solto” aqui, digo “sem resolução interna a curto prazo”, o que é óbvio que não deveria acontecer; apenas estou apontando um fato. Tudo dependerá agora do Poder d’A Palavra.

Ver Eugene no nível de sofrimento em que ele está me corta o coração, pois eu sinto enorme pena do personagem e realmente acredito que ele seja um dos importantes sustentáculos da série. A dúvida do que será dele e do que realmente será dessa cidade que Jesse pretende salvar por completo nos coloca em todo o hype possível na reta final desta primeira temporada. Começam agora os “finalmentes”. Como os anjos disseram, usar determinados poderes vai trazer consequências. Tentar converter os outros à força só pode resultar em morte (moral, simbólica, física, espiritual, seja lá em que sentido for) e a gente sabe muito bem aonde isso vai dar.
.

* Na mitologia original, anjos não têm sexo. Ou se tiverem, não têm libido. Na série, porém, isso parece seguir um outro caminho. No caso da classe de anjos Serafins, por não haver um equivalente feminino, vou indicar o artigo no gênero em que aparece no episódio (o anjo é interpretado por uma atriz), mas manterei o nome “Serafim”, que neste caso, não é um nome próprio, mas um título dado aos anjos da primeira hierarquia.

Preacher 1X06: Sundowner (EUA, 3 de julho de 2016)
Direção: Guillermo Navarro
Roteiro: Nick Towne
Elenco: Dominic Cooper, Joseph Gilgun, Ruth Negga, Lucy Griffiths, W. Earl Brown, Derek Wilson, Ian Colletti, Tom Brooke, Anatol Yusef, Graham McTavish, Ricky Mabe, Audrey Walters, Miles Elliot, Madelyn Henderson
Duração: 42 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.