Crítica | Preacher 1X07: He Gone

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estrelas 4

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O grande risco que Preacher parecia correr nos primeiros episódios era talvez dar voz e vez a decisões impulsivas dos produtores e roteiristas, colocando coisas demais em cena e talvez deixando de lado o caminho de apresentação desse Universo para o espectador, ou seja, não cumprindo o verdadeiro objetivo desta 1ª Temporada. Foi a partir de The Possibilities que entendemos o sentido de tantas “pontas soltas” e, a partir de então, coube apenas ao público assistir aos episódios com atenção e esperar o momento certo para que o quebra-cabeça começasse a se fechar.

Isso estabelecido e digerido, vieram também os momentos chocantes da série. Não me refiro àqueles com maravilhosas sequências de luta, a exemplo do Piloto ou de See. Refiro-me ao “choque” no desenvolvimentos de personagens e/ou situações, momentos que cruzaram a linha do perigo e deixaram o espectador especulando e torcendo para que o capítulo seguinte segurasse a arriscada empreitada, como quando Odin disse que serviria a Deus, em Monster Swamp, ou quando Jesse mandando Eugene ir para o inferno, em Sundowner. Curiosamente, esses dois eventos convergiram para He Gone e a maneira como a roteirista Mary Laws lidou com essas duas “bombas”, sem revelar demais, porém, dando algo para o espectador pensar, serviu como uma luva para a série.

Em termos de ação, He Gone não é nada igual a Sundowner e, para quem vem acompanhando as críticas aqui no Asilo Arkham Plano Crítico, sabe que eu vejo com bons olhos essa alternância rítmica entre os capítulos, afinal, nem só de clímax e enredos épicos se faz uma boa série, não é mesmo? Todavia, a normalidade e calmaria que temos aqui são falsas. Há um outro tipo de ação em He Gone, o tipo que trabalha no escuro e nos deixa ainda mais ansiosos para ver o que se fará de determinado personagem; como determinado conflito se resolverá; quais os motivos para tal personagem agir de determinada forma… Sugestão, ação implícita e ótimas atuações, eis o que temos aqui.

O que acontece no momento depois?

Parem e pensem um pouco em episódios de qualquer série que tiveram um cliffhanger tão impactante quanto “Go to hell, Eugene!” e tentem se lembrar o que veio a seguir. Volto à pergunta: o que acontece no momento depois? Qualquer curso de roteiro ensinaria aos alunos que existem duas formas boas e seguras (deixemos para falar roteiros ruins quando The Flash voltar, ok?) de lidar com esse tipo de conflito. A primeira é mostrando com exatidão o que acontece para a vítima da quebra dramática, ou seja, temos o ponto de vista — e aí existem muitas formas, tempos e estruturas diferentes de exibição — daquele que sofreu a ação. A segunda forma, que é a mais difícil e que foi utilizada aqui por Mary Laws é mostrar o ponto de vista do causador da quebra dramática, do agressor, daquele que realizou a ação.

E por que esta é a forma mais difícil? Ora, porque, convenhamos, ela é anticlimática! É quase como, em termos porcos, reverter entropia, construir um drama em cima das cinzas da frustração do espectador e, com isso, chegar a um resultado tão bom ou melhor do que se fosse mostrado o ponto de vista da vítima, sempre o favorito do público (quem não queria ver Eugene no inferno?). Para equilibrar essa balança, o roteiro ressalta o desaparecimento do jovem via outro gênero, o suspense, e nos entregue uma rápida história de origem! Entendemos o que aconteceu entre ele e Tracy e o motivo de sua Cara-de-Cu; entendemos o que significa o desaparecimento de Eugene para o pastor e para aqueles que sabem do acontecido (Cassidy); e por fim, chegamos ao motivo pelo qual Jesse é um tremendo hipócrita de pensamento binário que faz uso do Cristianismo como lição de moral para todo mundo, enquanto peca em particular e se corrói de culpa por algo que fez no passado.

Tentando se esconder de si mesmo e compensar alguma coisa diante de Deus e toda uma fauna celestial que acabou de descobrir, Jesse se torna um fanático que quer salvar os outros à força enquanto ele mesmo é o que mais precisa ser salvo. O pecador-mor que prega a salvação, impõe moral e bons costumes aos outros e condena gente ao inferno é um homem atormentado, carregando culpa, rancor e medo. Jesse jamais deixou de ser quem era. Ele apenas vestiu o manto de uma autoridade que recebeu por acaso (Genesis) e tenta expiar seus pecados tirando dos outros o direito de escolha. Ele não é diferente de nenhum outro membro da comunidade. Ele só peca diferente e às escondidas. Ou quase.

É nessa dualidade que temos Dominic Cooper ainda mais interessante em cena e vemos o personagem de Jesse Custer ainda melhor trabalhado, expandido na série. Antes, uma criança rebelde usando um brinquedo proibido. Agora, um homem insuportável que mesmo fazendo o mal (ou tentando ignorar que fez o mal), se impõe como aquele que age pela vontade e planos de Deus. Não tem como ignorar as muitas camadas que a série tem dado ao protagonista. É realmente impressionante.

A mesma dualidade que vemos no pastor é observada em outros personagens, um deles com um grande mistério a ser respondido em breve (Odin e o “esquecimento da Palavra”); em seguida, Tulipa, que claramente está cansando de fazer “reconhecimento de terreno” e Cassidy, que tenta depositar confiança em Jesse (a gente sabe dos quadrinhos que ele sempre teve maus momentos quando fez isso) e assume que o pastor é seu amigo, praticamente imolando-se. O roteiro prevê isso, trazendo-nos com ironia e cinismo um jogral sobre “ser diferente e confiar no outro”, fazendo uma encenação troncha, patética e hilária da derrocada de Sodoma e Gomorra, cujo pecado era a falta de hospitalidade, não… qualquer outra coisa que digam por aí.

Existem mudanças estéticas na fotografia, no uso de trilha sonora e na edição (menos abrupta) apenas quando opomos as cenas da infância de Jesse (de tonalidade verde) e o presente dele (de tonalidade sépia). Esse “envelhecimento” opressivo do ‘momento agora‘ é o lugar perfeito para o confronto entre personagens — o diálogo entre Cassidy e Jesse, no exterior da igreja, não é soberbo? –, como se cada um carregasse em si um arquétipo de um filme dos Irmãos Coen (perceba que a paleta de cores não é utilizada à toa), todos literalmente citados no jantar (Fargo) entre Jesse (Onde os Fracos não Têm Vez), Tulipa (Ajuste Final), Cassidy (O Grande Lebowski) e Emily (Matadores de Velhinhas).

No final, reparem que quase todos os personagens tentam, a seu modo se redimir. Cassidy confiando em Jesse; Tulipa tentando se socializar; Emily tentando entender Jesse; Jesse tentando encontrar Eugene. Ele aqui realmente está tentando fazer algo bom, lembram do que eu comentei sobre um personagem complexo e profundo? É assim que se faz! O final nos traz a marcha dos homens de Odin, que caminham para a igreja como se fossem os escolhidos de Deus para derrubar as muralhas de Jericó. Dá até agonia pensar que a temporada só tem mais três episódios. Oh, céus…

Preacher 1X07: He Gone (EUA, 10 de julho de 2016)
Direção: Michael Morris
Roteiro: Mary Laws
Elenco: Dominic Cooper, Joseph Gilgun, Ruth Negga, Lucy Griffiths, W. Earl Brown, Derek Wilson, Jackie Earle Haley, Nathan Darrow
Duração: 45 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.