Crítica | Preacher 1X08: El Valero

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estrelas 3,5

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O enfrentamento entre dois servidores de deuses, o Deus-Judaico-Cristão e o Deus-da-Carne, ocorre um pouco fora de tom aqui em El Valero, quase que exclusivamente por dois “pequenos motivos” que falarei mais adiante, mas ainda assim, não deixa de entregar um produto final muito bom.

Antes de mais nada, tenham em mente uma coisa: El Valero é uma sátira a um faroeste clássico chamado Matar ou Morrer (1952) temperado, no terceiro ato, com componentes visuais e temáticos de duas batalhas famosas da História dos Estados Unidos, a primeira, a Batalha do Álamo (1836), um dos grandes massacres de texanos feito por mexicanos durante a Revolução do Texas; e a segunda, a Batalha de Little Bighorn (1876), o mais famoso incidente das Guerras Indígenas nos Estados Unidos, quando os Lakotas e dos Cheyennes do Norte massacraram o 7º Regimento da cavalaria americana, comandado pelo General Custer — evento representado no excelente Sangue de Heróis (1948), dirigido por John Ford.

Preacher não pega leve nas referências e mesmo quando não traz algo de fato genial, faz um trabalho tão bom ao arquitetar seu plano de ligação entre partes soltas nos episódios que fica difícil não admirar e rir da insanidade e constante surpresa que os episódios desta temporada nos trazem. Porque surpreender o espectador é um dos motes da série, não há dúvidas disso. Reparem que mesmo nos eventos mais mórbidos e aparentemente óbvios — Odin com os caixões em seu escritório, Donnie colocando a cabeça no porta-malas do carro e Tulipa adotando um cão — a finalização é inesperada e o impacto é certeiro sobre o público.

É como se a intenção dos produtores fosse deslocar o público de situações confortáveis e surpreendê-los com coisas que, se pensarmos bem, faz muito mais sentido dentro a série do que a primeira ideia que tivemos a respeito delas. Como crítico e como espectador, eu não poderia estar mais feliz com Preacher por isto, visto que a série não toma o seu público por uma horda de mentes preguiçosas que clamam por narrativas lineares, respostas mastigadas a cada dois minutos, diálogos didáticos e desenvolvimento simplista para algo que não é simples em nenhum aspecto.

A isso, soma-se um uso na linha de “estranhamento dramático” da trilha sonora e mantém-se uma fotografia saturada, transmitindo calor sufocante junto de um “aconchego visual” através dos tons marrons/térreos que servem como armadilha psicológica: tudo é muito agradável de se ver, até que uma coisa ruim acontece e então a cor tinindo na tela e a antiga sensação de conforto se transformam em claustrofobia. Isso quando não tomamos automaticamente essa sensação como dominante depois de algumas experiências ruins, como vemos na última cena, com o operador regulando um botão de pressão e voltando a sentar-se em sua cadeira. É quase uma pequena crônica para uma tragédia anunciada. Trata-se de um recurso simples, mas tão bem executado e tão funcional, que parece algo mais.

O que pesa aqui é o tom de alguns momentos, que parecem deslocados do todo e mancham o trabalho da diretora Kate Dennis, que obviamente não toma a responsabilidade sozinha, pois o roteiro de Olivia Dufault, mesmo sendo genial na estrutura para a parte que traz Jesse, Odin, Eugene e os Anjos — Tom Brooke e Anatol Yusef não cansam de dominar as cenas onde aparecem! –, adiciona sequências como a do churrasquinho popular no terreno da igreja em meio à tragédia (sombras de A Montanha dos Sete Abutres?) ou a falha incursão de Tulipa com Brewsky.

Esse bloco do cão funciona bem pela surpresa que temos ao final do capítulo (então Jesse NÃO usou o extintor? Meu Deus!), mas falha no caminho que percorre do início até essa surpresa. O espectador entende que se trata de uma armadilha de roteiro: para ter a surpresa, era necessário esconder a verdadeira motivação para a adoção do cachorro, então não tinha muito como fugir do loop, não sem mudar a base do episódio ou então não mostrar Tulipa aqui. O certo é que da adoção do animal até a entrega a Cassidy, parece que estamos ouvindo um contrafagote desafinado no meio de uma orquestra de câmara barroca. Simplesmente não combina com o todo e, embora a coisa realmente se torne ótima no final — e cruel! –, seu desenvolvimento atrapalha o episódio.

Por outro lado, temos mais algumas nuances de Dominic Cooper em cena e… oh, como é bom termos Ian Colletti de volta, mesmo que como uma “alucinação” de Jesse. O primeiro ato do episódio, só com os dois em cena, é maravilhoso em todos os sentidos, tanto pela surpresa que se revela (primeiro “É” Eugene, depois, “NÃO É” Eugene) quanto pela atuação dos dois atores. Jesse teve um pouco de tempo para pensar e chegou à conclusão de que ele interpretou a vontade de Deus errado (oooooh!), mas ainda não está disposto a ‘largar o osso’. E Genesis parece ter gostado das entranhas quentinhas do texano.

Tudo é tão incrivelmente bizarro que faz sentido dentro desse surrealismo multi-religioso que a série persegue. E com uma certa fala de Jesse, o alarme de atenção se acende na nossa cabeça, porque o pastor pede mais um domingo para levar a Palavra de Deus para a cidade. No fim da linha, já somos cegos pelo clarão de Genesis mostrando toda sua glória para a congregação, como vemos em A Caminho do Texas. Pena que a igreja não poderá glorificar de pé, depois disso.

Preacher 1X08: El Valero (EUA, 17 de julho de 2016)
Direção: Kate Dennis
Roteiro: Olivia Dufault
Elenco: Dominic Cooper, Joseph Gilgun, Ruth Negga, Lucy Griffiths, W. Earl Brown, Derek Wilson, Ian Colletti, Tom Brooke, Anatol Yusef, Jackie Earle Haley, Ricky Mabe, Jamie Anne Allman, Nathan Darrow, Biff Yeager
Duração: 45 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.