Crítica | Preacher 1X09: Finish the Song

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estrelas 4,5

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A consistência de qualidade em Preacher, ao arquitetar um Universo que mistura os quadrinhos de Garth Ennis e Steve Dillon com as mais curiosas referências ao gênero Western (aqui, um tipo místico de Rastros de Ódio + Onde os Fracos Não Têm Vez), variações do Cristianismo e diversos modelos narrativos para ação na TV são algumas das coisas mais impressionantes nesta primeira temporada da série. Mas a melhor delas, talvez, seja a ressignificação, sem medo, de inúmeras passagens dos quadrinhos, ao mesmo tempo que se expõe novas criações de maneira inesperada pelo público.

Ao nos surpreender e manter-se coerente com o tom dos roteiros ao longo da 1ª Temporada — a rejeição do “ritmo único” foi um outro acerto da produção, principalmente porque considerou o tema como deveria ser, um ajuntamento plural de histórias que PRECISAM ser narradas de maneiras distintas — Preacher foi aos poucos dando sentido ao que havia levantado por acaso em seu episódio Piloto, primeiro acertando as pontas para os personagens secundários e depois para os protagonistas. Dois mistérios faltavam. E o primeiro deles, a devida exploração para O Cowboy, ou melhor, para o Santo dos Assassinos, enfim aconteceu aqui.

Se Finish the Song tivesse apenas o bloco com o Inferno pela perspectiva do Santo dos Assassinos, ele já garantiria as 4,5 estrelas da minha avaliação final, porque… que abordagem gloriosa foi esta que o roteiro de Craig Rosenberg (de South Will Rise Again) nos trouxe! Em um primeiro momento, o espectador tende a rejeitar a repetição da história, por ser didática demais apenas para servir de “lembrete” para os esquecidos.

Mas quando a coisa volta de novo e outra e outra vez, percebemos que o Santo está preso em uma sequência de tragédias, vivendo-as [pela eternidade?] e guardando a memória de tudo o que ocorreu nas vezes passadas — e sabermos disso, porque DeBlanc lhe pergunta se quer que “tudo isso acabe“. Conseguem imaginar o horror constante pelo qual passa este homem? Isso sim é que é uma forma poderosa de se mostrar o inferno na TV, de modo tão interessante quanto se estivesse reproduzindo os círculos narrados por Dante. Cada uma dessas versões tem a sua graça, mas a de Preacher — que tem ainda a melhor trilha sonora do episódio — não poderia ser mais adequada ao personagem que de lá será resgatado, com um emprego garantido.

Há uma reprodução belíssima da atmosfera do minuto final do episódio Ozymandias, de Breaking Bad, na cena em que DeBlanc e Fiore pegam o transporte para o Inferno. A locação é exatamente a mesma e vemos um cachorro muito parecido cruzar a rua assim que o automóvel se afasta, desta feita, no sentido oposto. Esta foi uma das formas de os produtores reafirmarem a teia de mudanças que o episódio traz, mudanças drásticas que funcionam tanto para personalidades individuais (demorando um pouco para engrenar na linha Emily-Tulipa) quanto para o mundo externo a eles. É como se as faces se mostrassem, de verdade, e todo mundo agisse como se estivesse no “último dia na Terra”, sendo que essas ações acabam importando tanto para quem as realiza (a “redenção” badass de Tulipa é uma das mais gratificantes) quanto para a expansão geral da história. Este é um recurso complicado de se alcançar em um roteiro, especialmente em um drama com muitos personagens, mas Rosenberg consegue um resultado final muito positivo, à exceção da já citada linha Emily-Tulipa (apenas no começo) e o pequeno bloco de luta no escritório de Odin.

O fotógrafo John Grillo faz aqui o seu melhor trabalho na série, tanto no Inferno e sua abordagem de raízes dos Estados Unidos (a bandeira americana que vemos tremular ali tem apenas 38 estrelas, correspondente a versão utilizada entre 1876 e 1889), quanto no mundo contemporâneo, com destaque para todas as sequências em que Fiore e DeBlanc aparecem. A saturação e uso particular de “uma cor por cena” no momento em que eles vão comprar a passagem para o Inferno lembra muito o modo como o diretor de fotografia Vittorio Storaro (Apocalypse Now, Reds e O Último Imperador) trabalha, manipulando diversos focos de luz, às vezes com cores diferentes, mas centrando, como em um falso monocromatismo, um tom específico de cor para blocos diferentes, a fim de tornar os sentimentos do espectador mais confusos sobre o que pensar ou esperar da sequência. John Grillo certamente se inspirou no trabalho de Storaro, de quem é grande admirador, para compor o visual dessas cenas.

Deus, O Criador, está para vir, segundo a palavra de Jesse, para o culto de domingo. O último culto. No estágio em que agora estamos de Preacher, falta apenas O Grande Acontecimento para que o ciclo de apresentações se feche e ele comece a seguir… até o fim do mundo. É quase certo que tenhamos uma chave de ouro no final.

Preacher 1X09: Finish the Song (EUA, 24 de Julho de 2016)
Direção: Michael Slovis
Roteiro: Craig Rosenberg
Elenco: Dominic Cooper, Joseph Gilgun, Ruth Negga, Lucy Griffiths, W. Earl Brown, Derek Wilson, Tom Brooke, Anatol Yusef, Graham McTavish, Jackie Earle Haley, Ricky Mabe, Desmin Borges, Tim Ransom, Justice Leak
Duração: 47 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.