Crítica | Preacher 1X10: Call and Response

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Episódio

estrelas 4,5

Temporada

estrelas 4

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Deus, enfim, deu as caras. Só que não.

Neste Call and Response, Preacher chega ao final de sua 1ª Temporada e nos fornece um espetáculo maravilhoso, uma lição de como filmar eventos importantes de uma mídia original de forma que ainda seja mantido o interesse do público pelo reconhecimento com o que já leu, mas, ao mesmo tempo, abrindo as portas para um outro Universo.

Isso nunca foi fácil e, por razões e purismo, pachorra ou ideia-fixa de alguns fãs (não deveria, mas ainda há quem rejeite produções na TV e no Cinema que, mesmo sendo técnica e narrativamente boas, não cumpriram o que esses espectadores esperavam, então “são ruins porque frustraram estas ou aquelas expectativas / porque não exibiram aquilo que imaginamos que iria exibir“), era necessário ter cautela e precisão ao mudar a base canônica dos quadrinhos, com isso, os produtores deram a cara a tapa tanto para os que esperavam uma filmagem quadro-a-quadro em relação ao original, quanto aos que esperavam que a mudança fizesse sentido nessa nova mídia e que fossem bem feitas.

A primeira estratégia — e já falamos sobre isso no Piloto, em See e El Valero — foi a mais arriscada de todas: fazer com que as mudanças de acontecimentos propostas pela produção e aprovadas por Garth Ennis tomassem princípios de conteúdo, forma e abordagem completamente diferentes. Este, claro, foi o maior filtro da série e também serviu como uma maneira de mostrar coisas distintas de modos distintos. Metade da primeira leva de espectadores pularam fora da série porque a viam como “lenta demais”, e uma parte dos que ficaram ainda não estiveram muito contentes com o ritmo.

Isso acontece, claro, mas se olharmos para Call and Response, o caótico finale da Temporada, entendemos por que era necessário um ponto de vista diferente em cada coisa, já que para conseguir o efeito cruel do grande extermínio (uma espécie de Sodoma e Gomorra fabricada), era necessário que conhecêssemos tudo isso dentro dos mais diversos “habitats”, a fim de que víssemos, depois, tudo aquilo varrido do mapa na explosão causada pelo metano de excrementos de uma caldeira. Ironia, cinismo e crueldade marcaram a decisão dos produtores para refazer o motivo gerador da viagem que conhecemos em A Caminho do Texas. Mas ao olharmos com atenção para o episódio — e para todo o restante da temporada — percebemos que a essência das HQs prevaleceu em tudo. E isso é maravilhoso.

Mais do que em qualquer outro episódio, a montagem subiu em um cavalo louco e não poupou variações rítmicas, encaixando tudo o que acontece aqui em uma lógica sequencial louvável. Existe um caos, uma bagunça em torno de Call and Response, mas essas coisas são fruto do aglutinado geral de tramas, da grande resolução que, se pararmos para pensar, deixou algumas boas pontas para especularmos até que chegue a 2ª Temporada, confirmada a algum tempo. Odin e o Xerife Hugo Root morreram quando a caldeira explodiu ou estavam fora da cidade? O Cara-de-Cu que Jesse vê no caixa do restaurante é imaginário ou real? Qual será o papel de Fiore, agora que o Santo dos Assassinos está caçando Jesse e que DeBlanc de fato morreu, no inferno? [nota: parece que se você é atingido pelo Santo você não volta, vide a Serafim da cena final].

Outro ponto que alcançou o seu pico foi a trilha sonora, escolhida com enorme precisão e com alguns momentos inesquecíveis, como o cover de David Lichens para No Rain; a excelente e propícia Personal Jesus, de Johnny Cash; e também as contextualizadoras perfeitas para duas ótimas situações: Go Down Gamblin96 Tears. Essa criação de atmosfera através de canções e de uma trilha sonora próxima ao suspense, gerou um ambiente mais que favorável para a espera de Deus e depois, marcado com grande desalento e desesperança pelo resultado de sua pseudo-chegada.

A direção de Sam Catlin é quase perfeita nessa preparação de caminho (o bloco de Carlos é o menos interessante do capítulo e a presença de Jesse na casa de Donnie teria efeito bem mais instigante se tivesse três ou quatro cenas a mais para criarmos uma proximidade entre eles), conseguindo unir toda a maluquice de uma comunidade inteira na igreja para ver Deus aparecer.

E o mais surpreendente de tudo, ver, por um momento, esse Alfa e Ômega patético responder perguntas e se comportar como aquele que detém todas as respostas e justifica a maldade, sofrimento e podridão do mundo de seus filhos com a não-resposta de todo pai ausente que não faz nada para dar boas condições de vida a seus filhos, embora receba, em uma espécie de Síndrome de Estocolmo misturada com Complexo de Édipo, agradecimento por quase tudo. Este é justamente o caminho que o final do episódio expõe e critica, e a cena da igreja está entre as memoráveis da TV este ano, tanto pelo dadaísmo de toda a situação, quando pelas toneladas e toneladas de críticas feitas a determinadas percepções, buscas e comportamentos religiosos, especialmente quando se trata de explicações simples ou para a validação do que é “ser religioso”.

A cena do restaurante, que muito lembra o início dos quadrinhos, e o princípio da viagem de busca por Deus, mais a ameaça do Santo dos Assassinos, fecham esta Primeira Temporada de Preacher com chave de ouro, em um episódio com mais um show de luzes, sobras e cores da direção de fotografia (John Grillo é um dos fotógrafos de TV que mais conseguem criar atmosferas estonteantes) e com um pequeno Apocalipse capaz de nos fazer discutir por muito tempo sobre comportamentos, escolhas e concepções ético-morais vindas pela certeza da ausência de Deus.

Vocês viram que a cidade enlouqueceu depois do culto — o que foram aquelas meninas com o motorista do ônibus escolar, pelo amor do Deus da Carne! E o diálogo de Emily com os filhos? — e logo depois é varrida do mapa, como se fosse uma “queima de arquivo” providencial, algo quase divino contra aqueles que mordiscaram o fruto da árvore do conhecimento. Tem como não aplaudir de pé uma série dessas? Posso ouvir um amém, Igreja? Isso, podem sorrir. Agora… oremos.

Preacher 1X10: Call and Response (EUA, 31 de Julho de 2016)
Direção: Sam Catlin
Roteiro: Sam Catlin
Elenco: Dominic Cooper, Joseph Gilgun, Ruth Negga, Lucy Griffiths, W. Earl Brown, Derek Wilson, Tom Brooke, Graham McTavish, Jackie Earle Haley, Jamie Anne Allman, Mark Harelik, Desmin Borges
Duração: 55 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.