Crítica | Preacher – 2X01: On the Road

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estrelas 5,0
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A Segunda Temporada de Preacher estava entre os retornos mais esperados da grade de séries de 2017. Depois de estrearem uma saga que funcionou como um caminho alternativo à deliciosa e infame epopeia de Garth Ennis e Steve Dillon nos quadrinhos, os showrunners do programa precisavam de um retorno forte o bastante para manter o nível da temporada anterior, e isso, considerando todas as camadas: religiosa, tragicômica, gore e sentimental, ligando a Condenadíssima Trindade formada pelo pastor Jesse (Dominic Cooper), pelo vampiro Cassidy (Joseph Gilgun) e pela badass pistoleira com conceitos morais que funcionam como uma montanha russa, Tulipa (Ruth Negga) ao cowboy assassino vindo diretamente do inferno para matar Jesse e tirar a entidade Gênesis de seu corpo: o Santo dos Assassinos (Graham McTavish).

Uma das grandes preocupações era a ligação temática entre as temporadas (considerando que a cidade do ano de estreia do show explodiu e, até onde se sabe, todos os seus habitantes morreram na explosão — com exceção do Cara-de-Cu) e o trabalho com a passagem do tempo entre Call and Response e este On the Road. Mas Sam Catlin foi direto ao ponto. Seu roteiro aqui é de uma fluidez admirável, começando com o trio no carro de Tulipa conversando (na verdade, Cassidy fazendo uma palestra indignada sobre o prepúcio arrancado do pênis dos bebês em toda a América) e de cara enfrentando o primeiro empecilho. Tudo é muito bem arquitetado e merece nossa total atenção. Percebam como a conversa envolvendo prepúcios e cremes para o rosto se encaixa na canção Come on Eileen, do Dexys Midnight Runners, que se encaixa em um simples pedido da polícia para o trio encostar o carro, dando início a eventos que terminariam em um alucinante banho de sangue.

Ainda mais forte do que na 1ª Temporada, o trio parece conectado por uma espécie de fatalidade divina em forma de amizade, lembrando muito a relação que Jesse e Cass tem em Até o Fim do Mundo e colocando Tulipa como um ponto de oposição e consciência interessante, que todavia acende um sinal de atenção, porque sua postura relutante em ver Jesse usando A Palavra pode descambar para uma caraterização chata da personagem. Aqui, porém, não há problemas com o que ela faz, porque esta postura não estraga nenhuma cena, inclusive a que mais poderia estragar se não tivéssemos um bom roteiro, a interrogação da dona do strip club onde Deus supostamente havia aparecido PELO JAZZ (vocês acham que Deus é um dos integrantes da banda? Se sim, qual dos músicos? Eu votaria no baterista).

Prestem atenção no título do episódio e considerem o que foi apresentado aqui. Estamos no primeiro dia da busca por Deus, em uma sequência imediatamente após onde fomos deixados na última temporada (com direito a notícias ainda sendo exibidas sobre a explosão da cidade) e o capítulo nos dá exatamente o que precisamos saber neste ponto, recolocando os personagens em cena e ampliando seu novo propósito, que a priori é achar Deus e fugir do Santo dos Assassinos. Só com isso já era possível construir uma boa temporada de fuga, mas notem que algumas pistas indicam o surgimento de tramas paralelas muito interessantes. O temido sobrenome L’Angelle é citado aqui e algumas confirmações do elenco também apontam para o aparecimento de Herr Starr e, talvez, de Jesus de Sade nesta temporada. Haja coração!

O único ponto que me pareceu um uso gratuito (embora bem pensado) da fotografia — que em todo o restante do capítulo é muito boa — foi no início, com o envelhecimento e granulação da imagem para simular uma perseguição de carro em um filme dos anos 70, com cor saturada e uma camada de sépia para intensificar o ar retrô. Pela forma abrupta como começa e termina e por não haver um padrão ou função maior no escopo do episódio — ele é apenas uma boa gracinha pontual –, não vi exatamente como uma boa escolha, mas obviamente, não tenha sido mal executado. Apenas me confundiu do por quê foi utilizado. Em outros cenários técnicos, como montagem, maquiagem, figurinos e efeitos especiais temos trabalhos aplaudíveis. A sequência de abertura serve como exemplo para todas essas áreas e de certa forma me lembrou até a excelente avacalhação de Deadpool, tanto no cinema, quanto nos quadrinhos.

A chegada do Santo ao final do capítulo me arrancou um grito de “mas já?” e me deixou quase tremendo, contando as horas para o próximo episódio. Cheio de boas interpretações, humor ácido e politicamente incorreto (ainda bem!), muita heresia (ainda bem!) e manutenção da qualidade geral da 1ª Temporada, Preacher começa o seu segundo ano como uma revelação divina, nos fazendo temer pelo destino dos que buscam a Deus. Mas não da maneira contrita e pura de coração que normalmente se imagina. Coitado de Criador quando for encontrado.

Preacher 2X01: On the Road (EUA, 25 de Junho de 2017)
Direção: Evan Goldberg, Seth Rogen
Roteiro: Sam Catlin (baseado nos personagens de Garth Ennis e Steve Dillon)
Elenco: Dominic Cooper, Joseph Gilgun, Ruth Negga, Ian Colletti, Jeanette O’Connor, Abbie Gayle, Robert Catrini, Donald Watkins, Rutherford Cravens, Jimmy Lee Jr., John Bostic, Sherri Eakin, Sam Malone, Patti Brindley, Graham McTavish, Pip Torrens, Luke Hawx
Duração: 45 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.