Crítica | Preacher – 2X04: Viktor

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estrelas 4
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Se em Damsels tivemos um episódio do tipo “jogando com simplicidade“, onde a maior parte das loucuras sanguinolentas da série deram uma pausa e o desenvolvimento ocorreu através de uma construção de conceitos religiosos e de percepção da religião e da figura de Deus — terminando com a abertura de um novo arco envolvendo Tulipa e a apresentação do Cara-de-Cu ao lado de Hitler, no Inferno –, neste capítulo 4, Viktor, vemos as coisas ficarem ainda mais “calmas” e o enredo abraçar um mistério que ainda não sabemos que implicações poderá ter para o restante da temporada. Craig Rosenberg, que escreveu, no primeiro ano, o episódio que indicava a piora de todas as coisas (South Will Rise Again) e a sensacional apresentação oficial do Santo dos Assassinos (Finish the Song), volta em Viktor para destacar alguns pontos e conceitos de maldade, e para nos fazer contextualizar esta palavra.

Em primeiro lugar, somos novamente colocados no inferno ao lado de Eugene (Ian Colletti, novamente mostrando uma boa atuação, agora não como o saudável jovem do início do episódio passado, mas como o condenado Cara-de-Cu), que parece perdido e amedrontado com as “falhas de energia” na reprodução de seu maior sofrimento, ficando confuso com a interrupção e com a estranha e cômica manutenção que se segue. Explorando ainda mais o lugar, o diretor Michael Slovis cria uma atmosfera de tensão e medo, trazendo uma outra concepção para o Inferno, algo mais próximo a uma grande favela escura (esta foi a impressão que tive do exterior da janela), de corredores acinzentados e sem nenhum tipo de decoração ou item de tormento à mostra — palmas para a direção de arte por não se aproveitar do senso comum para compor o Inferno “real” da série — povoada por bilhões de pessoas, todas condenadas a viverem eternamente o pior momento de suas vidas. Mas algo certamente está mudando neste lugar.

Lembrem-se que eu destaquei o conteúdo da “maldade” como apresentação moral neste episódio e, no Inferno, isso parece ser um ponto importante para Eugene. Ms. Mannering (a fantástica carcereira infernal interpretada por Amy Hill) diz que “está de olho” no jovem e que o temperamento calmo e bem-comportado dele não será tolerado. Ali é o inferno, afinal de contas. E isso faz com que Eugene engrosse o pequeno grupo de companheiros que chutam Hitler em uma cena que me fez sentir desconfortável pela forma “indefesa” e quase piedosa com que apresenta o ditador dominado. É óbvio que não existe nenhuma motivação apologética por parte dos showrunners da série (os três judeus ou ligados a famílias e escolas judaicas) em relação ao Führer, mas eu realmente não entendi o motivo desse tipo de representação. Tendo a “semente do mal” em mente, talvez o que estejam fazendo aqui é uma reversão comportamental, um elemento de criação da maldade nas pessoas que eram “boas” na Terra e o esvaziamento de quem era “mau” na Terra para alguém sem atitudes violentas. Desta forma, Eugene se tornaria paulatinamente jovem mau e Hitler, como punição, viraria um fracote covarde e bom homem.

Ou vai ver não é nada disso e devemos esperar uma grande virada a seguir. Independente do que venha, essa sequência com Hitler não me pareceu fluir bem no episódio, embora eu tenha gostado muito das cenas no Inferno. Parece que a saída do Santo dos Assassinos foi enfim notada e algo, ao menos é o que dá a atender, precisa ser feito. Uma grande força está correndo atrás de outra grande força, exatamente como conhecemos dos contos bíblicos, não é mesmo?

Já o outro elemento de maldade está no cenário pessoal (e até agora, oculto) de Tulipa, cujo esposo, Viktor, parece ser alguém dado a uma boa tortura. Mais aplausos aqui para a belíssima direção de arte em toda a decoração da casa, além da objetiva, ágil e divertida direção de Michael Slovis, cujo clímax é a cena de luta entre Jesse e um dos capangas torturadores de Viktor.

Há alguma semelhança com o meio “criminoso” no qual Tulipa está envolvida e que descobrimos no final de A Caminho do Texas, mas a base de sustentação aqui é completamente diferente. Eu já havia ressaltado em On the Road que ela é uma personagem com um senso moral que imita uma roda-gigante, cheia de altos e baixos, e cada episódio que passa isso parece ganhar uma camada na série, o que é ótimo, porque também mostrará a maldade cercando uma personagem que não entendemos como má, até aqui. Ou pelo menos que lida com a maldade de uma forma completamente diferente da convencional, o que também é um baita conceito.

Não diria que a busca por Deus foi interrompida neste episódio. Apenas que ela não está sendo o único foco da temporada, o que para mim, foi uma boa escolha. Ao menos descobrimos como o Falso Deus de Call and Response se tornou o Falso Deus. São essas pequenas (e excelentes) deixas que nos mostram que mesmo quando nos apresentam atalhos e obstáculos, os produtores estão atentos para o tema principal de toda a jornada. E se isso continuar vindo com boas histórias, para mim, já é o bastante.

Preacher 2X04: Viktor (EUA, 10 de Julho de 2017)
Direção: Michael Slovis
Roteiro: Craig Rosenberg (baseado nos personagens de Garth Ennis e Steve Dillon)
Elenco: Dominic Cooper, Joseph Gilgun, Ruth Negga, Ian Colletti, Noah Taylor, Malcolm Barrett, Ronald Guttman, Paul Ben-Victor, Justin Prentice, Amy Hill, Mark Harelik, James Hiroyuki Liao, Frankie Muniz, Sean Boyd, Sam Medina, Kristina Adler, Robert Larriviere, David Simpson, Lance Tafelski, Reginal Varice, Eleanor T. Threatt, David Brian Smith, Boyana Balta, Graham McTavish
Duração: 45 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.