Crítica | Preacher – 2X09: Puzzle Piece

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estrelas 4
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Já está bastante claro que esta 2ª Temporada de Preacher foi concebida como uma jornada — temporada que deveria amparar-se nos road movies mas que deu um passo atrás e aposentou temporariamente o Santo dos Assassinos, colocando Jesse, Cass e Tulipa em um único lugar, frustrando demasiadamente a busca por Deus — que em vários aspectos apresenta os personagens querendo alguma coisa. Esta relação já havia aparecido antes na série e retorna agora, de maneira mais óbvia, quando a “peça do quebra-cabeça”, o real motivo para a felicidade é trazido à tona e se torna o motor do final da temporada, invertendo alguns papeis.

Depois de Holes, a preocupação com o ritmo e tema central da temporada era grande. Mas o roteirista Craig Rosenberg (o mesmo de Viktor) mexe com algumas coisas neste episódio, forçando os personagens a conseguirem seus desejos — pelo menos na superfície e de maneira emergencial — fazendo deste primeiro momento de vitória para alguns uma porta aberta para a recolocação de certas peças no tabuleiro e estabelecimento de uma nova conversa entre indivíduos, antes, em pontos opostos da equação, como é o caso de Jesse e Herr Starr.

A mudança de tom narrativo desta Segunda Temporada não foi algo fácil e rápido de digerir. Por um lado, foi complicado para o show porque tirou o espectador da zona de conforto o tempo inteiro, fazendo com que alguns abandonassem a série — e sinceramente, não sem motivo — por verem tudo ir por um caminho diferente do que se havia sugerido ou aludido no passado. Por outro lado, essa retirada do público de sua zona de conforto foi algo bom, mostrando não só a coragem de redefinição de padrões da série como também a capacidade de reestruturação das temáticas dos quadrinhos, ainda mais em um universo que lida com violência, o lado mais sombrio do homem, religião, teorias da conspiração, conceitos de Nova Era e grupos de “dominação silenciosa do mundo”. Isto é bastante positivo. O lamento é que os produtores planejaram mal o tempo dessa nova toada, colocando coisas mais sólidas no final e não fazendo desde o início as adaptações narrativas necessárias.

É aí que chegamos em Puzzle Piece com algo que teria bem mais impacto se houvesse aparecido antes, em vez de sequências misteriosas no Inferno e coisas sobre Eugene que até agora de nada serviram para a temporada. Chegou o contra-ataque do Graal e o despertar do interesse de Herr Starr por Jesse, a quem então desprezava… afinal, que tipo de problema um pastor com um “suposto poder de dizer o que os outros podem fazer” traria para a organização mais poderosa do mundo, a protetora da linhagem de Jesus Cristo? O episódio até brinca com essa ideia, trazendo uma série de elementos (livremente adaptados) do arco Até o Fim do Mundo e tornando possível a mudança de pensamento de Jesse, à procura de Deus; e de Starr, à procura de algo que tornasse a “grande vinda do Salvador” possível. Novamente, buscas que encontram o seu caminho de realização.

Para isto, o diretor Michael Dowse usou um inteligente e arriscado recurso de alteração de perspectiva, começando com a ordem para o extermínio de Jesse e seus amigos, já que eles não eram importantes para a causa, apenas um obstáculo de momento. Ok, isso foi um pouco anticlimático, posto que qualquer um imaginou uma ofensiva pesada de Starr contra Jesse desde o momento em que ficou sabendo da existência do pastor, no episódio Pig. Mas a mudança chegou a um bom nível aqui, buscando pontos externos, afunilando os interesses de cada um para que se encontrassem no final. Particularmente achei frustrante ver tanto investimento do enredo na “paranoia” de Jesse, mas mesmo não justificando, é fácil entender o motivo dessa escolha para o encadeamento dos fatos.

A sequência de visão noturna dos agentes do Graal é tecnicamente excelente, emulando os games e ligando-se organicamente ao real, quando Jesse tira o capacete de um dos soldados. As investidas contra Cass e a revelação de Denis como um vampiro — feliz da vida e carinhoso com o seu papá — não poderiam, ser melhor. Deixando de lado o didatismo e partindo diretamente para os fatos, o roteiro usa da briga para resolver um problema em andamento já a alguns episódios. E que bom que isto foi feito aqui. Na mesma linha, vimos, enfim, uma melhor exposição dos agentes Hoover e Featherstone, a improvável e ótima dupla que assessora Starr diretamente e que irá ouvir umas boas quando descobrirem que “os profissionais” contratados para transar de maneira selvagem com badass do Graal não eram mulheres.

Voltamos também ao uso humorístico e muito bem pensado da trilha sonora, que tanto marcou a 1ª Temporada e os primeiros episódios desta Segunda. Ver Denis feliz da vida, dançando Non Je Ne Regrette Rien na voz de Piaf, enquanto a perspectiva de invasão da casa colocava o trio em polvorosa me arrancou muitas risadas e, no escopo do episódio, serviu como um inteligente uso de intensificação do drama, lançando mão de algo bem humorado, como é característico do show. Lamentamos que tenham demorado tanto para a criação de um novo arco dentro da série. Mas as possibilidades que se abrem, só dessa breve conversa que vemos entre Starr e Jesse, são enormes e podem deixar as coisas ainda mais interessantes. Tomara que não percam esta boa oportunidade.

Preacher 2X09: Puzzle Piece (EUA, 14 de Agosto de 2017)
Direção: Michael Dowse
Roteiro: Craig Rosenberg (baseado nos personagens de Garth Ennis e Steve Dillon)
Elenco: Dominic Cooper, Joseph Gilgun, Ruth Negga, Pip Torrens, Julie Ann Emery, Malcolm Barrett, Ronald Guttman, Teri Wyble, Philip Fornah, Dane Rhodes, Rey Hernandez, Jeff Burkes, Kevin Earley, Ed Lowry, Sean Richmond, Todd d’Amour, Chukwuma Onwuchekwa, Jordan Salloum, Nathan Darrow, Dominic Ruggieri
Duração: 42 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.