Crítica | Preacher: Vol. 2 – Até o Fim do Mundo

estrelas 4,5

Obs: Há spoilers somente do volume anterior, cuja crítica e as dos demais volumes podem ser lida aqui.

O segundo volume de Preacher pode ser dividido em dois momentos ou arcos. O primeiro lida com o passado de Jesse e Tulipa e o segundo, mais abrangente, trata do futuro desta aclamada série em quadrinhos, ainda que ele não seja encerrado aqui, apenas no próximo.

preacher_vol_2_ate_o_fim_do_mundo_capa_plano_criticoO primeiro arco, que dá o nome ao volume, é também o que efetivamente mostra a que veio o trabalho de Garth Ennis e Steve Dillon. Se, no primeiro volume, apesar de toda a bizarrice, havia um certo comedimento por parte da dupla criativa, talvez justamente por estarem ainda testando o terreno, aqui qualquer hesitação desaparece e eles abrem as portas para toda a heresia, depravação, degradação moral e física, violência, corrupção e perversão que marcaria a série até o final.

Todo o passado de Jesse e Tulipa que Ennis e Dillon esconderam em A Caminho do Texas é revelado, começando pelo de Tulipa. Sem Cassidy, que fora para São Francisco ao final da história anterior, Tulipa finalmente conta seu segredo, sob a promessa de Jesse fazer o mesmo em seguida. A revelação – que não é tão interessante, devo confessar – acaba levando a dupla para Dallas, com o objetivo de limpar o passado de Tulipa da melhor forma possível. É essa ação de catalisa a captura dos dois pela família de Jesse, família essa comandada por sua avó, uma violenta e extremamente idosa matriarca que deixa os dois amarrados por uma noite.

Usando flashbacks, Ennis, então, conta a origem de Jesse Custer, desde quando seus pais se conheceram até o momento em que ele deixou Tulipa misteriosamente, cinco anos antes. E a história funciona como um angustiante e desesperador filme de horror, com cada página aprofundando as atrocidades da família de Jesse ao longo das décadas. Lembram-se do clássico de John Boorman, Amargo Pesadelo, em que os personagens, durante viagem para ver um rio antes que ele se torne um lago, são capturados por caipiras do meio-oeste americano que cometem as maiores atrocidades possíveis com eles? Pois bem, decupliquem as insanidades do filme e vocês terão uma ideia do que a mente doentia (pois ele não pode ser normal…) faz nesse arco. O passado de Jesse é um pout pourri de atos de violência, abuso e sadismo que não dá nem para começar a descrever

E Steve Dillon não se faz de rogado, empregando seus traços simples, de certa forma realistas, para trazer à tona aquilo que é  narrado por um Jesse desesperançoso, amarrado em uma cadeira ao lado do amor de sua vida. A paleta de cores de Matt Hollingsworth também ajuda na impressão de realismo, quase naturalismo da narrativa, mantendo uma tonalidade neutra de cores, sem arroubos multi-coloridos nem mesmo quando o colorista poderia assim fazê-lo. A arte é contida, mas gráfica, o que amplifica a narrativa escabrosa de Ennis.

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Mas o passado de Jesse, apesar de ser o principal artifício narrativo do arco, não é o mais controverso. Garth Ennis havia, no volume anterior, limitado a presença de Deus a algo indireto, por intermédio de seus anjos, os verdadeiros “gerentes do Paraíso”, já que o Criador havia abandonado sua criação e começado a vagar pelo mundo. Pois bem. Neste arco, o próprio Deus (ou no mínimo alguém que  se faz passar por ele) interfere e aparece, rogando para que Jesse pare de caçá-lo e demonstrando até medo do protagonista. É muito interessante – e herético, claro, o que só torna a história melhor – o que Ennis faz aqui sem cerimônias. Ele coloca Deus não como um personagem todo-poderoso, mas alguém que, não muito diferente de um mortal, faz uma espécie de jogo político para conseguir o que quer.

No segundo arco, somos apresentados ao Graal, um grupo extremamente influente e poderoso que mantém a linhagem de Jesus Cristo pura (sim, ele teve filhos). A introdução se dá de maneira inteligente e original, não como o leitor poderia esperar. Nada de explicações didáticas logo de início, nada de apresentar o Graal da forma, digamos, comum. Nós o vemos a partir de uma dissidência interna, capitaneada pelo Sr. Starr, que serve como força motriz de toda a narrativa ao descobrir, um tanto convenientemente, que Jesse Custer, que eles desejam capturar para razões escusas, também está em São Francisco.

Como era de se esperar, não demora e Jesse parte para encontrar Cassidy na Costa Oeste americana e a narrativa paralela deles e do Graal mantêm-se sem tangenciamento até mais para a frente, quando a ação explode na mansão de um estranhíssimo ser batizado – brilhantemente, diga-se de passagem – de Jesus de Sade, a quem todos se dirigem como “Lorde” e cuja profissão é produzir filmes pornográficos. Mais heresia, mais escândalo para o leitor que  por acaso não tiver entendido ainda que o objetivo de Ennis e de Dillon é abandonar o convencional e satirizar as convenções.

Este arco com o Graal não ganha um fim neste volume (a divisão da Panini, aqui, não fez muito sentido), mas expande a narrativa de Preacher para algo muito maior do que um pastor com a Palavra caçando Deus pelo meio-oeste americano. Além de Cara de Cu e Santo dos Assassinos, que não dão as caras neste volume, agora Jesse e seu grupo são perseguidos por uma entidade internacional de enorme alcance que não tem limites para o que pode fazer.

Até o Fim do Mundo é, definitivamente, o volume que deixa evidente a qualidade do trabalho de Ennis e Dillon, assim como suas intenções quase perversas de tocar profundamente em um sem-número de feridas. Não ficará pedra sobre pedra!

Preacher: Vol. 2 – Até o Fim do Mundo (Preacher: Vol. 2, EUA – 1995/6)
Contendo: Preacher #8 a #17
Roteiro: Garth Ennis
Arte: Steve Dillon
Cores: Matt Hollingsworth, Pamela Rambo
Letras: Clem Robbins
Capas: Glenn Fabry
Editora original: Vertigo Comics
Datas originais de publicação: novembro de 1995 a setembro de 1996
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação: dezembro de 2012 (encadernado)
Páginas: 256

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.