Crítica | Preacher: Vol. 3 – Orgulho Americano

estrelas 4

Obs: Há spoilers somente dos volumes anteriores, cujas críticas podem ser lidas aqui. As críticas dos episódios da série de TV podem ser lidas aqui.

Orgulho Americano reúne os números 18 a 26 de Preacher, publicados em 1996 e 1997 e, em linhas gerais, amplia o escopo da busca incessante, violenta, herética e calcinante do pastor Jesse Custer por Deus que, de maneira semelhante ao que vimos em Lucifer, largou o Paraíso e está escondido entre os reles humanos. Com seu amigo vampiro Cassidy sequestrado pelo Sr. Starr, agente do alto escalão da entidade conhecida como O Graal, que mantém pura a linhagem dos descendentes de Jesus Cristo, Jesse e Tulipa são obrigados a montar uma viagem de resgate à Massada, na França. O volume, na verdade, conta com três histórias, duas delas servindo de “origem” de dois personagens e que enquadram a narrativa principal do salvamento do vampiro irlandês.

preacher_vol_3_orgulho_americano_capa_plano_criticoA primeira história, então, se dá no bar do aeroporto de Nova York, com Jesse aguardando seu voo para Paris. Lá, ao retirar de seu bolso o isqueiro que seu pai o legara, um homem chamado Billy Baker aproxima-se e diz ter conhecido seu pai, surpreendendo-se quando Jesse diz que ele falecera. Segue-se, então, um pouco mais da história pregressa de John Custer, desta vez antes de conhecer sua mãe, durante a Guerra do Vietnã. A narrativa, contada em flashbacks apenas esporadicamente interrompidos com comentários no presente, é bem sucedida ao construir um norte moral ao pai de Jesse que ganha reflexos nas ações presentes do filho. Valores como amizade, lealdade e coragem são ressaltados da mesma maneira que o desejo de vingança e a violência extrema também o são, reiterando que o fruto realmente não cai muito longe da árvore. Como uma narrativa sobre os horrores da guerra, a história não deixa de criticar ferozmente os mandos e desmandos de oficiais americanos em território vietnamita, mas sem minimizar as técnicas utilizadas pelo lado de lá para aterrorizar os invasores. Garth Ennis não está preocupado em achar um lado certo ou uma postura mais correta que a outra. Isso fica evidente tanto por meio da personalidade de John Custer, como também pelo tratamento dos dois lados do conflito. É como ver a semente da amoralidade completa que o próprio autor traria com a “geração seguinte” dos Custer.

Findo esse “respiro” narrativo, Ennis, então, mergulha de vez no arco em seis partes intitulado, originalmente, nos EUA, de Cruzados, em clara referência às campanhas militares sancionadas pelo papado que começaram no final do século XI. Aqui, os Cruzados podem ser tanto Jesse e Tulipa de um lado quanto O Graal do outro e o autor faz uso dessa ambiguidade para trabalhar com mais detalhes as personalidades do Sr. Starr e também do obeso mais do que mórbido D’Aronique, figura papal líder do grupo religioso fanático. A tensão é construída muito aos poucos, sem pressa, primeiro em Massada sob o comando de Starr, que ordena a tortura constante de Cassidy por um ex-mafioso castrado (nada é normal em uma obra de Ennis!) e que constrói seu plano de traição a D’Aronique com toda a cautela possível juntamente com Marseille, seu primeiro em comando. Mesmo o aparentemente poderoso Starr teme tremendamente o líder do Graal, o que dá as dimensões exatas (com trocadilho) que ele representa quando finalmente é incluído fisicamente na narrativa.

Do lado de Jesse e Tulipa, a narrativa também não tem pressa. Ennis faz uma espécie de road movie (ou seria road comics?) com os dois calmamente dirigindo uma Ferrari roubada de Paris até Massada e tendo tempo para discutir seu relacionamento. Jesse, depois de ter visto sua amada ser assassinada ao seu lado (e mais tarde revivida por Deus), teme por sua vida e esse pavor, que reflete de certa forma o de Starr em relação a D’Aronique, é o mote da conversa do casal. Jesse não quer que Tulipa vá com ele até o embate em Massada, mas ela insiste que sabe se cuidar, como, aliás, já provara nos volumes anteriores. Os dois lados estão certos, na verdade, e a discussão verbal entre os dois lida brilhantemente com o papel da figura feminina em obras de ação em geral, antecipando uma discussão que hoje é muito comum em quase 20 anos. A inteligência do texto de Ennis repousa ao não oferecer respostas fáceis. É errado alguém querer que sua cara-metade, por melhor que seja, deixe de participar de um ato potencialmente perigoso? É errado não querer afastar-se de sua cara-metade na execução deste mesmo ato? Se a situação fosse invertida e Tulipa estivesse no lugar de Jesse, como ficaria a situação?

As perguntas, que permanecem de certa forma sem resposta, são fascinantes e deixam o leitor pensar e digerir a questão. Os tempos do cavaleiro em cavalo branco salvando a dama em perigo se foram, mas é errado tentar agir dessa maneira em situação semelhante? Jesse tenta convencer Tulipa que arriscar sua vida é desnecessário no contexto, mas sua amada não arreda o pé de jeito algum, especialmente porque ela tem tanta razão para querer salvar Cassidy quanto Jesse. E seu manuseio de armas e sua coragem já haviam ficado sobejamento claros antes, algo que é amplamente reconhecido pelo próprio pastor. Ainda que a solução do impasse dada pelo autor seja bastante óbvia – depois de mais uma conversa de Jesse com John Wayne, seu amigo imaginário que, na verdade, não é tão imaginário assim – o mero fato de ele ter levantado essa discussão em plena década de 90 já merece aplausos pelo pioneirismo.

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A ação em Massada, que conclui o arco, é impressionante. Segredos são revelados e a narrativa se complica ainda mais, especialmente com a chegada do mortal Santo dos Assassinos em um momento que homenageia Drácula, de Bram Stoker e o detalhamento da história pregressa de Gênesis, a entidade que se fundiu a Jesse, dando-lhe o poder da Palavra. Ennis recorre à violência extrema, mas fugindo do óbvio que seria o uso da nova habilidade de Jesse para lidar rapidamente com a situação. Ainda que por vezes a hesitação em usar a Palavra possa ser enervante, ela faz sentido dentro da estrutura narrativa proposta e da própria personalidade mais aguerrida do personagem.

Steve Dillon parece se divertir desenhando o massacre em Massada e os novos personagens criados por Ennis, especialmente D’Aronique. Sua arte de traços mais realistas trabalha belíssimas composições de páginas que por vezes ganham um verniz surreal, notadamente quando o exagero é permitido. Um exemplo disso é a pilha de corpos que bloquei a entrada para o calabouço onde boa parte da ação final acontece e, claro, o retratamento nojento de D’Aronique. A paleta de cores de Matt Hollingworth, que em dois números recebe tratamento também de Pamela Rambo, continua trafegando pela crueza, fugindo do embelezamento sem propósito das sequências. Os dois se fixam em poucas cores que dão veracidade à ação vertiginosa que os últimos dois números do arco abordam.

E, finalmente, encerrando o volume, temos outra história de origem, desta vez de Cassidy. Sendo um vampiro, a expectativa geral é que a narrativa seja carregada de elementos sobrenaturais, mas não é nada disso que Ennis escreve, mais uma vez pervertendo as expectativas. O que vemos, primeiro, é uma história de amor fraternal em pelo 1916, durante o Levante da Páscoa, na Irlanda e, depois, a fuga de Cassidy para os EUA, especificamente para Nova York. Novamente usando o artifício visto na primeira história do volume, tudo é contado por meio de flahsbacks, desta vez vindos diretamente de Cassidy, no topo do Empire State Building, conversando com Jesse. O grande problema dessa origem é sua falta de objetivo maior. Ela parece muito solta na estrutura da história ampla sendo contada por Ennis e soa como filler que poderia muito bem ser contado em poucas páginas em apenas um número de Preacher e não em dois exclusivamente dedicados a isto. Mesmo assim, a acuidade história de Ennis, assim como os diálogos escritos em inglês com gigantesco sotaque irlandês (li no original) merecem grande destaque, mesmo considerando que Dillon não tem muito o que fazer aqui em termos de ação para trazer à vida a narrativa mais, digamos, simplista proposta pelo roteirista.

Orgulho Americano é mais um ótimo volume de Preacher que muito eficientemente amplia a narrativa do pastor texano que subitamente se vê com poderes que não compreende completamente. A sátira de Ennis ganha contornos globais e mais mistérios para serem usados no futuro de sua história são criados. Uma leitura mais do que recomendada.

Preacher: Vol. 3 – Orgulho Americano (Preacher: Vol. 3, EUA – 1996/7)
Contendo: Preacher #18 a #26
Roteiro: Garth Ennis
Arte: Steve Dillon
Cores: Matt Hollingsworth, Pamela Rambo
Letras: Clem Robbins
Capas: Glenn Fabry
Editora original: Vertigo Comics
Datas originais de publicação: outubro de 1996 a junho de 1997
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação: junho de 2013 (encadernado)
Páginas: 236

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.