Crítica | Preacher: Vol. 5 – Rumo ao Sul

Obs: Há spoilers somente dos volumes anteriores, cujas críticas podem ser lidas aqui. As críticas dos episódios da série de TV podem ser lidas aqui.

preacher_vol_5_rumo_ao_sul_capa_plano_criticoO quinto volume encadernado de Preacher é composto dos números 27 a 33 da série regular criada por Garth Ennis e Steve Dillon e mais um one-shot dedicado ao personagem Cassidy (Sangue e Uísque) que, apesar de poder ser lido independentemente, guarda relação com um dos assuntos abordados nas sete edições contidas no volume. Da mesma forma que fiz na crítica do Volume 4 – Histórias Antigas, avaliarei separadamente de forma a tornar a crítica mais estruturada e potencialmente menos injusta. Primeiro abordarei o arco regular que dá nome ao volume e que faz a série chegar em sua exata metade (a saga tem 66 edições) e, depois, o one-shot, a quarta edição separada da série em um total de seis, que forma o 66+6 imaginado pelos autores para fazer sentido dentro da temática de toda a saga.

estrelas 3,5

Rumo ao Sul
(Preacher #27 a #33)

Começando exatamente a partir do ponto em que o Volume 3 – Orgulho Americano parou, Rumo ao Sul lida com a reunião de Jesse com Tulipa em Nova York, depois que ele a deixou sozinha na França para evitar que ela enfrentasse o Graal em Massada. Claro que Tulipa está irritadíssima com o amor de sua vida e dá provas disso quase que imediatamente. Garth Ennis aproveita, ainda, para nos apresentar a Amy, sua melhor amiga e vendedora de armas, que tem participação breve nos primeiros dois números.

Ainda que fosse realmente importante abordar a questão da falta de confiança de Jesse em Tulipa para lidar com assuntos violentos sozinha, o problema é que Ennis não sabe quando parar. Sim, o assunto é importante e, ao final da década de 90, ainda trabalhado de maneira muito insipiente nos quadrinhos e também outras mídias de entretenimento, com mulheres muito mais retratadas como “damas em perigo” do que qualquer outra coisa. Já havia ficado abundantemente claro que Tulipa não é uma mulher que precisa de ajuda quando a pancadaria come solta, mas a preocupação de Jesse acaba sendo justificada pelo fato inescapável de que ela já morrera no Volume 2 – Até o Fim do Mundo, somente para ser ressuscitada pelo próprio Deus. Portanto, o próprio Ennis dá azo para esse aparente zelo excessivo de Jesse sobre Tulipa, que ela tenta dissipar mais uma vez aqui. Mas, quando o assunto está aparentemente encerrado, ele volta com força total mais para a frente, quando o grupo viaja para Nova Orleans para encontrar um “amigo” de Cassidy especialista em vudu, para ajudar Jesse a acessar a memória de Gênesis, conforme fora sugerido a ele pelo anjo pai da criatura em Orgulho Americano. Com isso, a repetição temática acaba cansando o leitor, que já entendeu perfeitamente quem Tulipa é e como ela exige ser tratada.

No entanto, o arco também serve de reintrodução de Cara-de-Cu na série, antes somente visto no Volume 1 – A Caminho do Texas e no one-shot A História de Você-Sabe-Quem contido em Orgulho Americano. Como vimos, o jovem deformado decide fazer com que Jesse, Tulipa e Cassidy paguem pela morte de seu pai abusivo, assumindo o “codinome” inspirado por Cassidy, que logo que o vê pela primeira vez – e muito apropriadamente, temos que concordar – diz que seu rosto parece um ânus. Ainda que seu reaparecimento seja muito bem pensado, com uma entrada digna de um super-herói, a forma como ele acaba chegando a Jesse é aleatória demais para ser crível. Sim, ele estava procurando a trinca improvável, mas sem qualquer método e sem seguir pistas concretas. O encontro casual em um restaurante de beira de estrada soa apressado e conveniente demais, ainda que a resolução anti-climática do conflito seja hilária e genial de tão surreal e cruel (quando se lê Preacher, essa “crueldade” vai se impregnando no leitor, não tem jeito…).

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Mas o grande foco do arco é mesmo em Cassidy. Ele é o catalisador da viagem do grupo até Nova Orleans e é ele quem faz uma grande revelação privada para Tulipa logo no começo da história que afeta o relacionamento dos dois bem até o final e empresta uma grande complexidade ao vampiro irlandês, complexidade esta que é abordada, explorada e amplificada também por suas ações ao longa da narrativa, o que inclui sua relação com Xavier, o especialista em vudu que tem um passado estremecido com ele, com uma misteriosa moça de tapa-olho chamada Dee e também com o estranhíssimo grupo de adoradores de vampiros auto-denominado Les Enfants du Sang (As Crianças do Sangue). Cassidy é a salvação na mesma medida em que é a maldição do grupo formado por ele, Jesse, Tulipa e Cara-de-Cu.

Com essa virada no que até então fora estabelecido sobre Cassidy, a eventual empatia do leitor com o vampiro potencialmente diminui, o que é ótimo para a pegada realista dentro da temática sobrenatural e herege que Garth Ennis dá a série. Cassidy pode ser imortal e pode precisar de sangue para viver e até pega fogo com a luz do sol, mas ele é um humano em todas as outras características, especialmente as psicológicas que tendem a ser amplificadas pelo fato de ele estar a 75 anos com a mesma idade, vagando pelo mundo. Nada de abordar o personagem com clichês, com algo que se espera de alguém assim.

Vale ressaltar, porém, que o arco é praticamente expositivo, sem muita ação, que fica quase toda ela concentrada no final e que é muito boa. Com isso, o leitor terá que ter um pouco de paciência para lidar com os diálogos ferinos escritos por Ennis que, apesar da repetição temática que mencionei mais acima, dá outras dimensões aos coadjuvantes, deixando Jesse Custer de lado na maioria do tempo. A história principal também é “largada”, só voltando na mencionada sequência final, que envolve a sessão de vudu encabeçada por Xavier em um cemitério local. Desenvolve-se pouco da história macro, mas mergulha-se muito na psiquê dos personagens, notadamente Cassidy e Tulipa. Uma troca justa considerando que Preacher é tudo menos uma leitura “normal” de quadrinhos.

estrelas 3

Cassidy – Sangue e Uísque
(Preacher Special: Cassidy – Blood and Whiskey)

preacher_cassidy_sangue_e_uisque_capa_plano_criticoSangue e Uísque é um one-shot dedicado integralmente a Cassidy, que também é o foco do arco criticado acima. Ele não só revela como o personagem conheceu o culto Les Enfants du Sang, como o coloca ao lado de um vampiro igual a ele. Ou quase.

Se Cassidy é um vampiro que não se parece em nada com o que esperamos de um ser fantástico desses, Eccarius, o primeiro vampiro que ele vê em sua vida depois do monstro que o transformou no que ele é (conforme visto ao final de Orgulho Americano) é exatamente o que esperamos de um: cabelos brancos, pela pálida, gestos efeminados, capa, vocabulário rebuscado, hábitos sofisticados e, para fechar o conjunto, mansão antiga. Ele é, praticamente, um vampiro-clichê extraído diretamente do livro de Bram Stoker ou da série de Anne Rice cujo Lestat é citado nominalmente na história.

O choque que os dois levam ao se verem é desconcertante no começo e hilário em seguida. Ver Cassidy descartar o vampiro como alguém “metido” e ver Eccarius estupefato pelos hábitos mortais de Cassidy é muito interessante e original. É como se Jesse Hooker, de Quando Chega a Escuridão se encontrasse com Lestat, de Entrevista com o Vampiro. Além disso, é aqui que descobrimos como Cassidy conhece e se envolve com o grupo de não-vampiros que cultua hábitos vampirescos, que tem em Eccarius sua “figura paterna”. Falar muito mais sobre a história, que é bem simples, mas muito divertida, levaria a spoilers, mas basta dizer que praticamente toda a mitologia vampiresca é desnudada neste one-shot que, apesar de não acrescentar muito em termos de histórias pregressas para a série Preacher como um todo, serve como um divertimento descompromissado.

Sangue e Uísque pode ser lido antes ou depois do arco Rumo ao Sul, mas minha sugestão é que seja lido depois, para que a entrada do Les Enfants du Sang seja mais misteriosa no arco.

Preacher: Vol. 5 – Rumo ao Sul (Preacher: Vol. 5, EUA – 1997/8)
Contendo: Preacher #27 a #33 e o one-shot Preacher Special: Cassidy – Blood and Whiskey 
Roteiro: Garth Ennis
Arte: Steve Dillon
Cores: Matt Hollingsworth, Pamela Rambo, James Sinclair
Letras: Clem Robbins
Capas: Glenn Fabry
Editora original: Vertigo Comics
Datas originais de publicação: julho de 1997 a janeiro de 1998 (série regular), fevereiro de 1998 (one-shot)
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação: novembro de 2014 (encadernado)
Páginas: 232

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.