Crítica | Preacher: Vol. 6 – Guerra ao Sol

Obs: Há spoilers somente dos volumes anteriores, cujas críticas podem ser lidas aqui. As críticas dos episódios da série de TV podem ser lidas aqui.

preacher_vol_6_guerra_ao_sol_capa_plano_criticoO sexto volume de Preacher, conforme lançado no Brasil pela Panini Comics, reúne os números 34 a 40 da edição regular da série, publicados entre fevereiro e agosto de 1998, cujo arco ganhou o nome Guerra ao Sol, além do one-shot Guerra Solitária, o quinto de toda a série até agora de um total de seis, para formar o terceiro número “6” da obra completa, formada por 66 edições regulares e seis edições “soltas”. Apesar de Guerra Solitária ser focada em Herr Starr, o agora líder da seita Graal, que quer mudar o mundo colocando o descendente de Jesus Cristo no poder, custe o que custar, ele pode ser lido separadamente, ainda que sua inclusão, no volume, tenha todo sentido lógico considerando o conteúdo do arco principal em si. Como fiz nas críticas anteriores, para evitar qualquer tipo de discrepância, separei a crítica em duas, com avaliação separada para o arco e para o one-shot, conforme abaixo.

estrelas 3,5

Guerra ao Sol
(Preacher #34 a #40)

Depois de deixar-se ser possuído por um espírito vodu em Rumo ao Sul para tentar conectar-se com a memória do espírito do bem e do mal Gênesis que tomou seu corpo, Jesse Custer, Tulipa e Cassidy partem para o Arizona, mais especificamente para o famoso Monument Valley, lugar mais do que apropriado para a série, considerando que o protagonista secretamente conversa com o fantasma de John Wayne, talvez o maior astro do faroeste que já viveu. No entanto, Herr Starr também tem seus planos e está ao encalço de Jesse usando todo o aparato do Graal.

O objetivo de Jesse é novamente conectar-se com Gênesis, desta vez usando o efeito alucinógeno de cogumelos que ele adquire de um indígena. Todo o primeiro terço da narrativa, porém, carrega o peso dos preparativos para o grande clímax e, com isso, a história começa um pouco sem ritmo, muito focada em Tulipa e os eternos pedidos de desculpas de Cassidy por ele ter declarado seu amor à ela. A grande verdade é que, ainda que a questão em si leve a consequências importantes no dénouement do volume e que levam ao cliffhanger para o próximo, o fato é que Garth Ennis exagera na verborragia, exagera nos momentos parados com diálogos que se repetem em loop, como se não houvesse outro assunto para abordar.

E, realmente, parece que não. A história de Jesse, aqui, fecha-se em uma espécie de beco sem saída que tematicamente volta às antigas discussões e valores de volumes anteriores da série: amizade, traição, amor e muita sordidez. Os relacionamentos de Jesse e Tulipa e o de Cassidy e Jesse ficam parados em águas estagnadas, com diálogos que não levam a lugar nenhum, que não avançam a narrativa para muito além do que já vimos.

Ainda que os preparativos paralelos de Starr resultem em ótimos momentos de confrontamento dele com um coronel do exército americano que é obrigado a colocar suas tropas à disposição do Graal sem que nenhuma explicação lhe seja oferecida, fato é que isso não é suficiente para equilibrar os momentos extremamente parados com a trinca principal. Mas é claro que todo o marasmo desaparece completamente quando o confronto principal acontece.

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Lembram-se daquela pancadaria monumental que aconteceu em Massada, na França, em Orgulho Americano? Então imaginem os mesmos jogadores – Graal e exército, Jesse e sua turma e o Santo dos Assassinos – em um vasto e belíssimo deserto e multiplique o que aconteceu antes por 100. Ou melhor, por mil. É mais ou menos o que acontece em Monument Valley em um clímax que aí sim lembra todo o estilo de Ennis em sua violência extrema e em sua sátira ao “estilo americano”, com comentários que ao mesmo tempo abordam o massacre indígena, o papel das forças armadas e assim por diante.

Mas, apesar da loucura que é a pancadaria no deserto, ela não alcança o nível de surpresa ou de tensão que o embate em Massada alcançou. Lembrou-me muito os filmes hollywoodianos em que a continuação tem sempre que ser maior e mais explosiva que a obra original. Algo semelhante ocorre aqui, com Ennis aumentando o espetáculo sem necessariamente aumentar a eficiência do que vemos, ainda que, em termos de divertimento puro, a batalha seja muito boa.

No entanto, melhor do que os eventos quase apocalípticos é o que vem por último. Em uma espécie de epílogo, Ennis cria um fechamento sensacional para Starr que volta a tratar do estereótipo do “caipira” americano, algo que já havia sido muito bem visto em Até o Fim do Mundo, mas que ganha outros contornos aqui, além do que acontece com Tulipa e Cassidy depois dos bombásticos eventos e que pode mudar o status quo da trinca daqui em diante.

Guerra ao Sol, apesar dos altos e baixos, continua de forma muito consistente a saga de Jesse Custer a procura de Deus. Depois que os soluços iniciais passam, a fluidez narrativa pega ritmo e leva o leitor tranquilamente até o final, ainda que com menos satisfação do que em Orgulho Americano.

estrelas 4,5

Guerra Solitária
(Preacher Special: One Man’s War)

preacher_guerra_solitaria_capa_plano_criticoNeste one-shot de 66 páginas, Garth Ennis nos leva ao passado de Herr Starr, particularmente ao ponto em que, como agente da GSG-9, a unidade de resposta contraterrorista da Policia Federal Alemã, ele é recrutado pelo Graal como um assassino de campo. A narrativa começa de forma agitada, mas sem pressa, em 1972, com Starr e uma equipe de comandos invadindo um avião sequestrado por terroristas, em clara referência ao chamado Massacre de Munique, quando, no mesmo ano, durante as Olimpíadas, diversos atletas foram assassinados por terroristas infiltrados na Vila Olímpica.

O resultado, aqui, porém, é bem diferente da vida real e Starr sai como o grande herói, somente para chamar atenção do Graal e, ao longo dos anos, ir galgando os degraus hierárquicos da organização. A estrutura do one-shot segue esses degraus, mostrando-nos momentos-chave na vida “política” de Starr, fazendo-nos entender seus problemas sexuais, o que aconteceu com seu rosto e como ele começa a maquinar uma forma de virar o jogo e tornar-se o chefe do Graal.

Não fosse o passo acelerado da publicação, que teria se beneficiado de uma minissérie mais compassada na linha do que Ennis fez para o Santo dos Assassinos (leia a crítica aqui), a “origem de Starr” seria praticamente perfeita. Aqui, o autor soube usar toda sua “caneta ferina” para desconstruir instituições e enquadrar a geopolítica mundial dentro das aspirações deste vilão e sua futura organização. Aprendemos, também, como exatamente o Graal planeja trazer o “Salvador” e o que isso significa para a humanidade. Mas também notamos com mais detalhes como a humanidade de Starr vai escorrendo por seus dedos a partir dos eventos em 1972, culminando com sua descoberta sobre a existência de Jesse Custer.

Guerra Solitária é uma leitura essencial para entendermos a psiquê do personagem e a arte de Peter Snejbjerg mantém a crueza de traços de Steve Dillon, mas acrescenta, de leve, aspectos de caricatura a seus personagens, muito provavelmente como parte da sátira inteligente criada por Ennis.

Preacher: Vol. 6 – Guerra ao Sol (Preacher: Vol. 6, EUA – 1997/8)
Contendo: Preacher #34 a #40 e o one-shot Preacher Special: One Man’s War 
Roteiro: Garth Ennis
Arte: Steve Dillon, Peter Snejbjerg (one-shot)
Cores: Pamela Rambo, Grant Goleash (one-shot)
Letras: Clem Robbins
Capas: Glenn Fabry
Editora original: Vertigo Comics
Datas originais de publicação: fevereiro de 1998 a agosto de 1998 (série regular), março de 1998 (one-shot)
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação: dezembro de 2014 (encadernado)
Páginas: 244

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.