Crítica | Preacher: Vol. 8 – Às Portas do Inferno

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Obs: Há spoilers. Leia a crítica dos volumes anteriores aqui e dos episódios da série de TV aqui.

preacher_vol_8_as_portas_do_inferno_capa_plano_criticoO penúltimo encadernado de Preacher, obra-prima de Garth Ennis e Steve Dillon, começa a preparar o leitor para o final da série. Intitulado Às Portas do Inferno, as 260 páginas reúnem os números 51 a 58 da série principal, composta de 66 números, além do sexto e último Preacher Special, o one-shot O Cavaleiro Altivo (Tall in the Saddle).

Como fiz nas demais vezes em que um encadernado é composto da série regular e de one-shots ou minisséries, dividi a crítica em duas, a primeira parte dedicada ao arco que dá título ao volume 8 e a segunda parte somente ao one-shot. Cada uma tem uma nota separada para evitar que uma análise contamine a outra, até porque são normalmente narrativas desconectadas, ainda que passadas no mesmo e sensacional universo. Boa leitura!

estrelas 4,5

Às Portas do Inferno
(Preacher #51 a #58)

Não me espantaria se um dia Quentin Tarantino confessasse que sua inspiração para o monólogo de Bill logo antes de enfiar uma bala na Noiva grávida em Kill Bill fosse Preacher. Estão lembrados? Aquele em que Bill diz que não há nada sádico nas ações dele em relação à sua amada, mas sim extremamente masoquista. De maneira brilhante, o diretor e roteirista encapsula o tipo de “amor” que Bill sente por Beatrix Kiddo.

Esse diálogo foi o que passou em minha cabeça ao terminar de ler Às Portas do Inferno, penúltimo arco de Preacher. Afinal, talvez a forma mais justa de se resumir o que é a série seja afirmar categoricamente que ela é uma grande história de amor. Mas uma história de amor cercada de sadismo, masoquismo, violência extrema, nojeira, maldade extrema, escatologia, canibalismo, assassinatos bizarros, comportamentos extra-mega-bizarros e envolvido em uma narrativa cínica, crítica da sociedade e da religião que nos faz parar para pensar em que mundo vivemos exatamente porque conseguimos traçar paralelos entre o que está nas páginas e o que nos cerca.

A relação sadomasoquista existente não é, porém, entre os dois pombinhos apaixonados da série. Jesse Custer e Tulipa O’Hare real, profunda e perdidamente se amam e, nesta condição, são mesmo capazes de fazer qualquer coisa pelo outro, inclusive perdoar desvios de conduta dos mais variados. O sadomasoquismo que existe, na verdade, está presente em dois momentos, o primeiro entre Garth Ennis e Steve Dillon ao colocarem Preacher nas páginas da HQ e, o segundo, entre nós, leitores, e os dois co-autores e suas maravilhosas criações. Afinal, se despirmos Preacher das esquisitices, ainda temos uma grande história de amor, mas são as esquisitices e bizarrices extremas que faz desta série o que ela é e que de certa forma esperamos dela a cada página virada.

O arco começa no presente, com Tulipa finalmente se libertando das garras venenosas e auto-destrutivas de Cassidy, somente para, em seguida, sermos arremessados para o passado, com dois números dedicados a Tulipa O’Hare criança e, depois adolescente/jovem mulher. Liberdade é Só uma Palavra para Dizer que Não se Tem Nada a PerderAté as Pistoleiras Ficam Tristes voltam para o nascimento da protagonista e como ela foi criada por seu pai, que desejava um filho e não uma filha, como uma garota que podia ser e querer absolutamente tudo que quisesse. Entendemos, em detalhes, como a emancipação de Tulipa acontece e como ela conhece Amy na escola após a morte de seu pai e que se tornaria sua melhor amiga e companheira de aventuras. Ainda que essa “origem” não fosse completamente necessária, pois não vejo razão para se “justificar” a atitude de Tulipa no presente, atitude essa de total desprendimento e independência da figura masculina, Ennis entrega uma bela história que acaba realmente acrescentando à personagem que hoje conhecemos e amamos. Se ela é apaixonada por Jesse, talvez é porque ela sempre tenha tido o amor incondicional do pai até sua trágica (e infame) morte. Esse mini-arco acaba logo antes de Jesse reencontrar-se com ela na casa de Amy.

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Mas Ennis não faz simplesmente “um encontro”. Ele, em seguida, em Burro Demais para Nova York, Feio Demais para Los Angeles, cria uma espécie de interlúdio, com Jesse a caminho do apartamento de Jesse, dirigindo por estradas vicinais americanas e dando carona para os seres mais bizarros, inclusive a Bob Glover e Freddy Allen, os dois “investigadores sexuais a quem fomos apresentados no volume 2, Até o Fim do Mundo. Ainda que a história não acrescenta nada ao arco maior, aqui o objetivo do autor é aparar arestas e continuar sua crítica ferina ao american way of life, crítica essa que não é, vale dizer, apenas negativa. Diria, até, que ela é completamente inclusiva e despida de julgamento, pois ele joga esse julgamento para a perspectiva de cada leitor, com base em sua própria consciência.

Depois que os amantes finalmente se encontram depois de meses separados, a esperada volta à caçada a Deus não volta a acontecer. Muito ao contrário, Ennis tem calma e constrói muito bem a nova relação entre os dois, ao mesmo tempo que, quase perfeitamente, insere as narrativas paralelas envolvendo Herr Starr, que agora tem que prestar contas a Eisenstein, o homem que originalmente o recrutou e Cara-de-Cu, manipulado por seu agente Gene Sergeant. A narrativa de Herr Starr é contada quase em tom farsesco, com momentos violentamente cômicos, como as várias tentativas de assassinato de Einsenstein que ele promove. Vemos, também, a volta de Hoover, o agente do Graal que Jesse obrigou a contar três milhões de grãos de areia, que cria uma dinâmica interessante com sua parceira Featherstone, esta por sua vez apaixonada por Starr. Do lado de Cara-de-Cu, o tom é trágico, algo que o leitor já poderia esperar considerando seu sucesso meteórico na indústria da música e o que conhecemos dela, claro. Ennis, sem dúvida, exagera ao não só abordar as diversas ações judiciais que o jovem tem que enfrentar em razão de outros jovens que seguiram seu exemplo e tentaram – e muios conseguiram – se matar, como também ao envolver até o Papa em sua reprovação explícita do cantor e compositor.

E, claro, há Cassidy. Sua participação no arco é diminuta, mas sempre presente com aquela nuvem de chuva sobre o chefe indígena de desenhos animados. O efeito de sua manipulação de Tulipa é sentido muito mais na forma como Jesse reage, tentando investigar as entrelinhas do passado do vampiro, do que em Tulipa em si, já que ela tenta – e consegue – ver o lado positivo da coisa agora que Jesse voltou à sua vida. Mas o reverendo precisa entender o que aconteceu e sua luta é justamente nessa linha, até o confronto anticlimático no final.

A genialidade do arco está na capacidade do autor em costurar as várias narrativas de maneira cadenciada, sem que ele exagera em uma ou em outra. Ele prepara o final, claro, mas, aqui, Ennis mostra o total controle sobre sua criação e sobre a narrativa como um todo, presenteando os leitores com um dos melhores arcos de toda a série.

estrelas 4

O Cavaleiro Altivo
(Preacher Special: Tall in the Saddle)

preacher_o_cavaleiro_altivo_plano_criticoComo o tema principal do arco acima é o reencontro de Jesse e Tulipa, nada mais apropriado que O Cavaleiro Altivo, one-shot dedicado a uma aventura no passado dos dois com Amy esteja no mesmo “pacote”. Ao recusar-se a dirigir um caminhão com cavalos roubados como pagamento pela perda de um carregamento de carros roubados encomendados pelo mafioso texano Langtry, Jesse, Tulipa e Amy envolvem-se com um texas ranger aposentado que os recruta para derrubar o vilão e recuperar a carga viva preciosa, roubada do rancho de sua filha. O destino dos cavalos? Os restaurantes franceses, graças à encomenda do asqueroso, mas hilário francês-clichê Napoléon Vichy (perceberam a brincadeira com o nome aqui?).

Trata-se de uma aventura do gênero “faroeste moderno” na acepção clássica da palavra, mas com toda a violência que se pode esperar de uma criação de Garth Ennis. E ela mostra também um pouco da baixa auto-estima de Amy, que se vê como uma pária ali entre os dois e não sabe exatamente para que lado vai. É também muito interessante ver que existe uma fagulha de atração entre ela e Jesse, algo que havia até mesmo sido dito por Tulipa antes, mas que o leitor jamais havia visto de verdade e que é solucionada de maneira inteligente em uma “conversa” de Jesse com Augustus, um dos cavalos roubados em um final típico de western spaghetti.

O Cavaleiro Altivo é uma ótima leitura descompromissada dentro desse universo de Preacher. Não é uma história essencial, mas é uma ótima história. E é isso que importa, não é mesmo?

Preacher: Vol. 8 – Às Portas do Inferno (Preacher: Vol. 8, EUA – 1999/2000)
Contendo: Preacher #51 a #58 e o one-shot Preacher Special: Tall in the Saddle
Roteiro: Garth Ennis
Arte: Steve Dillon
Arte-final: John McCrea (one-shot)
Cores: Pamela Rambo, Patricia Mulvihill (#58)
Letras: Clem Robbins
Capas: Glenn Fabry
Editora original: Vertigo Comics
Datas originais de publicação: julho de 1999 a fevereiro de 2000
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação: outubro de 2010 (encadernado)
Páginas: 260

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.