Crítica | Precisamos Falar Sobre o Kevin

estrelas 4,5

Baseado no romance homônimo da autora Lionel Shriver, Precisamos Falar Sobre o Kevin nos mostra a tentativa de racionalização de uma mãe sobre os feitos de seu filho, que acabaram o colocando na prisão. É uma indagação sobre o que transforma um psicopata no que ele é: a criação, os acontecimentos ao longo de sua vida, ou ele simplesmente nasceu assim? Apesar de ser uma ficção, o filme conta com uma dose de realidade assustadora, ao passo que chegamos efetivamente a acreditar que se baseia em fatos. Mas, pensando por certos aspectos, ele realmente se baseia.

O longa-metragem tem início com Eva Khatchadourian (Tilda Swinton) em uma espécie de festival, no qual carne com molho vermelha é jogado nas pessoas, já explicitando a ênfase nessa cor que permanece ao longo de toda obra, ao passo que em praticamente todas as cenas temos algo de cor vermelha, sempre nos lembrando da violência – ora discreta, ora totalmente exposta – que permeia toda a narrativa. Assistimos uma mulher completamente traumatizada e logo descobrimos que seu filho está na prisão. A partir daí, com um tempo sempre subjetivo, pulamos do passado para o presente inúmeras vezes, como se a protagonista buscasse entender o que ela poderia ter feito para provocar tudo aquilo.

Precisamos Falar Sobre o Kevin conta com uma atmosfera muito similar àquela de Elefante, de Gus Van Sant. Desde os primeiros minutos sabemos que algo muito errado vai/ está para acontecer, somente não sabemos exatamente o que. Essa angústia nos mantém completamente vidrados na tela e aos poucos as respostas nos são oferecidas. A princípio, o roteiro de Lynne Ramsay (que também dirige o filme) e Rory Stewart Kinnear nos mantém em um estado evidente de confusão – precisamos batalhar para efetivamente entender o que está acontecendo e, com o tempo, conseguimos. Esse estado, naturalmente, reflete o da personagem principal, que também se perde no passado a fim de obter respostas.

Chega a ser assustador como toda a cidadezinha onde Eva mora a culpa. Seu nome, obviamente, não vem por acaso – a culpada do pecado inicial – , quando ela própria é possivelmente a maior vítima de toda essa história. Sua relação complicada com Kevin (Ezra Miller, nos trazendo a encarnação perfeita de um jovem problemático), desde sua infância, chega a ser desconfortante, aos passos que ele sempre dera muito trabalho para a mãe e, apesar de seus acessos de raiva, Eva sempre estivera buscando se relacionar com o filho. A obra, nesse quesito, é corajosa, ao não nos oferecer uma resposta clara sobre a personalidade do filho, nos deixando tirar as próprias conclusões.

Swinton, também, realiza um trabalho digno de nota e fornece grande profundidade ao seu personagem – sua angústia chega a ser palpável e a mulher que vimos nos primeiros flashbacks é outra completamente diferente da que temos no tempo presente. Nela conseguimos sentir, porém, um verdadeiro amor pelo seu filho, apesar de tudo. Constantemente ela tenta se aproximar dele e a maioria das vezes sem resultado. Mas por trás disso tudo há um aspecto até bastante perturbador – somente a Eva, Kevin demonstrava quem realmente era, à sua própria maneira era dela de quem ele mais “gostava” e suas ações podem ser interpretadas como uma forma de constantemente chamar a atenção da mãe (ainda que em forma de tortura). O fato do personagem tê-la deixado viva é uma prova disso, uma forma distorcida de dizer que a ama, ao mesmo tempo que a exclui de qualquer círculo social, deixando somente ele próprio em sua vida.

Além do roteiro, a direção de Lynne Ramsay é outro fator que imprime grande subjetividade ao longa-metragem. Com uma decupagem que foca quase que inteiramente em Eva, entendemos desde o princípio que esse é o ponto de vista dela, os flashbacks são, na realidade, lembranças. A câmera, mais de uma vez, oculta inúmeros acontecimentos bem representando a inabilidade da protagonista de ainda lidar com eles, simbolizando a dor em ter de reviver esses fatos. É graças a esse foco que passamos a entender mais da finalidade da cor vermelha no filme, não se trata apenas da violência perpetrada por seu filho, como a das pessoas ao seu redor em relação a ela e, também, do amor de uma mãe, que coloca a culpa em si própria pelos traumáticos acontecimentos fora de seu controle.

Precisamos Falar Sobre o Kevin se encerra, então, com uma de suas cenas mais tocantes, quando o menino, assustado com o fato de ter de ser movido para uma prisão de adultos, enfim, se entrega ao abraço de sua mãe, revelando, mais uma vez, que nos momentos de maior fraqueza, ele se entrega a única pessoa de quem, à sua própria maneira, realmente gosta. Temos aqui um filme intimista sobre uma questão muito presente em nossa realidade, que cada vez mais nos abre mais questionamentos acerca dos motivos que levam um, chamado psicopata, fazer o que ele faz, quando, na verdade, ele próprio não tem essas respostas.

Precisamos Falar Sobre o Kevin (We Need to Talk About Kevin) – EUA, 2011
Direção:
 Lynne Ramsay
Roteiro: Lynne Ramsay, Rory Stewart Kinnear (baseado no livro de Lionel Shriver)
Elenco: Tilda Swinton, John C. Reilly, Ezra Miller, Jasper Newell, Ashley Gerasimovich, Siobhan Fallon Hogan
Duração: 112 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.