Crítica | Predador 2: A Caçada Continua

Três anos depois e sem Arnold Schwarzenegger, a Fox trouxe de volta um dos mais mortais alienígenas da Sétima Arte em uma continuação escrita pela mesma dupla original de roteiristas que troca a selva da América Central pela selva de pedra de uma Los Angeles levemente futurista em que o caos do conflito de gangues tomou conta da cidade em meio a uma onda de calor que não parece ter fim. Danny Glover, vindo de uma sucessão de memoráveis filmes – A Testemunha, Silverado, A Cor Púrpura e os então ainda dois Máquinas Mortíferas – e que traz uma bem-vinda humanidade ao protagonista, encabeça o elenco como o tenente Mike Harrigan da força policial local que acaba esbarrando na criatura depois que ela chacina jamaicanos traficantes de drogas.

Curiosamente, o filme usa a mesma ambientação urbana e a mesma trama de acobertamento das ações do Predador por uma unidade secreta que a primeira minissérie em quadrinhos desse universo publicada pela Dark Horse Comics um ano antes, ainda que eu ache que tenha sido mera coincidência, uma vez que a produção já devia estar em andamento quando a licença foi obtida e considero difícil que tenha havido “polinização cruzada” entre a editora e a produtora. De toda forma, a continuação, como regra em Hollywood, explora a estrutura do excelente filme original, mas sem se fazer de rogado ao ampliar seu escopo, o número de vítimas, a sanguinolência e também a mitologia desses alienígenas que sangram sangue fosforescente, com um resultado inferior, mas, mesmo assim, divertido.

Jim e John Thomas bebem muito claramente de outras fontes oitentistas para rechear seu roteiro, com uma Los Angeles decadente e entregue ao caos violento de maneira muito próxima à Detroit futurista que vemos em RoboCop, além da sequência de ação final no matadouro ser quase que completamente retirada da incursão inicial dos marines espaciais em LV-426, de Aliens, o Resgate. Isso e a presença de figurinhas fáceis dos filmes de ação da década anterior como, além de Glover, Gary Busey como o misterioso Peter Keyes, líder da tropa que quer a tecnologia alienígena e Bill Paxton, como Jerry Lambert, o novo e malandro – além de metido a engraçado – membro da equipe de Harrigan, emprestam um ar de familiaridade e satisfação que, por vezes, ajudam a glosar as falhas da obra.

Se o trabalho do estúdio de Stan Winston nos efeitos especiais e prostéticos da criatura continuam de tirar o chapéu e a trilha sonora de Alan Silvestri mantém a qualidade e a energia do primeiro filme, mesmo considerando que ele pouco mudou no tema principal, mantendo o tom militarístico que não existe efetivamente na continuação, não se pode dizer o mesmo do design de produção e da direção de arte que resultam em um grande e caro pastiche dos filmes que serviram de inspiração aos roteiristas do que algo que se mantenha em pé por seus próprios méritos. A pegada urbana é completamente genérica e exagerada, com ruas que seguem o padrão obrigatório de um cenário quase pós-apocalíptico, figurinos desconcertantes de ruins (sim, a moda oitentista foi horrível, mas as escolhas no filme parecem vir de doações à Cruz Vermelha rejeitadas pelos donatários) e cenários que tentam emular Blade Runner (a cobertura do traficante colombiano foi muito claramente inspirada na arquitetura do sci-fi de Ridley Scott), mas que parecem mais arroubos criativos com o único objetivo de “serem diferentes” e zero de função narrativa, quebrando qualquer semblante de lógica interna nesse ponto.

Em poucas palavras, se os roteiristas souberam pinçar o que de melhor estava disponível para eles, a equipe de produção simplesmente escolheu a pior forma de levar suas ideias para as telonas. E o trabalho de Stephen Hopkins na direção, que até então tinha A Hora de Pesadelo 5 como o ponto alto de sua carreira, não ajuda muito, já que ele se esmera em manter suas câmeras próximas demais da ação, algo que serviria para inserir o espectador na cena, mas que, aqui, causa aquele incômodo de quando, em um lugar espaçoso, alguém resolve ficar exatamente ao seu lado. Por outro lado, a fotografia de Peter Levy, que Hopkins trouxera dos dois longas que tinha em seu currículo, usa uma paleta de cores quentes que essas sim combinam à perfeição com a putrefação de uma cidade à beira da completa desordem e que contrastam com as sequências noturnas com o Predador e com a ação final no frigorífico.

Ainda em uma era que os efeitos digitais engatinhavam timidamente, mas com o filme exigindo mais do que apenas o famoso efeito de “invisibilidade” da criatura, percebe-se um grande e venerável esforço para fazer o máximo do trabalho com efeitos práticos, normalmente muito bons e que sem mantém bons mesmo com o passar do tempo. Os efeitos óticos, porém, notadamente os de sobreposição de imagens, hoje estão desgastados, mas, à época, cumpriram sua função com honra. Isso é mais do que se pode esperar de muito filme da mesma década.

Predador 2, apesar de estar longe de ser a tragédia que muitos acham que foi, acabou sendo mal recebido quase que universalmente e fez uma bilheteria tímida, que não tirou a produção do vermelho, o que garantiu o enterro da franquia até 2010 (descontando os tenebrosos crossovers com a franquia Alien). Uma injustiça com Glover e com a fascinante criatura que só quer colocar mais alguns troféus em sua prateleira intergalática.

Predador 2: A Caçada Continua (Predator 2, EUA – 1990)
Direção: Stephen Hopkins
Roteiro: Jim Thomas, John Thomas
Elenco: Danny Glover, Kevin Peter Hall, Gary Busey, Ruben Blades, María Conchita Alonso, Bill Paxton, Lilyan Chauvin, Robert Davi, Adam Baldwin, Kent McCord, Morton Downey, Jr., Calvin Lockhart, Elpidia Carrillo
Duração: 108 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.